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Mexendo
com a igreja do vizinho
Rosana Oliveira
Alfredo de Freitas Dias Gomes foi romancista, contista, teatrólogo. Entre suas obras estão a peça
O Pagador de Promessas e as novelas Roque Santeiro e O Fim do
Mundo, entre outras, todas muito repercutidas. Mas em termos de polêmica, nenhuma se compara à
Decadência, exibida de 5 a 22 de setembro de 1995.
Decadência se contextualiza no período de 1985 a 1992, quando a ascensão econômica e política retratavam o aumento das igrejas evangélicas e o crescimento dela na sociedade. Gomes mescla corrupção política com envolvimentos amorosos, perseguição religiosa e decadência social.
A trama se desenrola com a história de Mariel (Edson Celulari), ex-menino de rua que, depois de ser motorista de uma família rica e tradicional, torna-se um grande líder evangélico um tanto quanto corrupto, digamos assim. Controverso, Mariel pensa estar agindo da forma correta, mas suas atitudes não correspondem aos princípios do cristianismo. Suas pregações são fanáticas e inflamadas, sempre enfocando a questão dos dízimos e ofertas.
A minissérie contrapõe a ascensão do pastor à decadência da família carioca para a qual Mariel trabalhou, os Tavares Branco. No passado, Mariel foi impedido de namorar Carla (Adriana Esteves), a caçula do clã - agora, ele quer vingança.
Decadência ainda inclui o núcleo do pastor Jovildo (Milton Gonçalves). Ele é um líder evangélico sincero, mas impulsivo, grosseiro. De brinde, a trama inclui cenas polêmicas, que soaram como provocação aos religiosos, como a da noite de amor entre Carla e Mariel, em que moça coloca a calcinha em cima da Bíblia do pastor, que estava aberta em cima da cama.
Noutra, o pastor aparece pregando ao lado de uma mulher nua no púlpito.
Não demorou muito e a Rede Globo recebeu vários processos por parte da Igreja Universal do Reino de Deus, que se sentiu retratada de forma preconceituosa. O bispo Edir Macedo e companhia alegaram que muitas imagens e conceitos evangélicos foram passados de forma deturpada. Entre eles, a maneira que os pastores lidam com os dízimos de seus membros.
Dias Gomes, porém, rebateu as acusações. Afirmou que a "Universal vestiu a carapuça e se deu mal". "Fiz um pastor honesto, que foi o Milton Gonçalves, e um desonesto, o Edson Celulari. Acho que ele [Edir Macedo] tem preconceito de cor, porque se identificou logo com o desonesto", completa o novelista. Macedo, por sua vez, ainda teve que pagar os custos judiciais à emissora.
Ataques como este deturpam e generalizam doutrinas e a fé de muitos fiéis, que se sentiram profundamente ofendidos. Mesmo abordando um assunto que levanta dúvidas sobre sua veracidade, antes de fazer ataques de interesse pessoal - como era o caso da emissora - é preciso pensar e respeitar os muitos seguidores das inúmeras denominações existentes.
Afinal, quando uma emissora acusa os fiéis de sustentarem as igrejas, esqueceram-se que os mesmos também sustentam as emissoras.
criação: lisandro staut
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