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Chute
na santa acerta a vidraça
Fabiana
Amaral
Uma coisa o Brasil já descobriu: imagens de santos podem gerar uma "bendita" receita. E não estou falando de dízimo e peregrinações de fiéis. Os números são bem rentáveis falando de mídia mesmo. O assunto toma contornos ainda mais voluptuosos quando o santo em questão é a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.
A imagem negra que por si só já causou polêmica e, como qualquer santo que se preze, é envolvida em certo mistério foi alvo, de centenas de matérias somente nos últimos dez anos. Mídia que é mídia faz rodeio sobre qualquer coisa, como urubu com carniça. Mas quanto à pauta, a fé e devoção de milhares de pessoas, as coisas têm um charme mais especial.
De grande magnitude foi a primeira aparição apoteótica, nada louvável, saliente-se. Isso se deu em 1995, pleno 12 de outubro, feriado dedicado à santa. Nos programas Despertar da Fé e Palavra da Vida, o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Sérgio Von Helder teve a infelicidade de escandalizar todo o País ao chutar a imagem em cadeia nacional.
No programa, Von Helder afirmava ser idolatria sem base bíblica o que faziam com a tal da santa e que "aquilo" não era um deus. Para demonstrar sua argumentação, ele chutava a imagem "incitando" uma manifestação divina. Segundo o bispo, depois de interrogado, ele não teria realmente chutado Nossa Senhora, mas "bateu de leve" para provar que não se tratava de ser humano.
Quem quase deixou de ser um humano, pelo menos humano vivo, foi Von Helder. A Rede Globo, em especial, transformou o episódio em um espetáculo, investindo todas as suas armas contra a Igreja Universal (leia-se Rede Record). A ampla divulgação exigiu que Edir Macedo se desculpasse com os católicos, também em rede nacional, e provocou a ira de fiéis, infiéis e até ateus. Os semanários, diários e outros "ários" se esbaldaram com o fato e nele martelaram por dias a fio.
Todo esse barulho resultou na sentença de prisão do "bispo" por dois anos (isso em 1997). As acusações foram por incitamento à discriminação e preconceito religioso e mais um mês e dez dias de detenção por crime de vilipêndio a imagem de culto religioso. A apelação resultou em regime aberto. Aliás, escancarado.
Culto intensificado
O episódio do "chute na santa" como ficou conhecido virou lugar comum ao se falar na profanação de imagem de santos e discriminação da Igreja Universal. Mas teve o mérito de levar milhares de pessoas à adoração. Depois de se analisar os efeitos do feito há um consenso de que o chute do "bispo" Von Helder foi um tremendo gol para a Igreja Católica. Aqueles fiéis que não estavam tão fiéis assim, e outros tantos que não eram adeptos do catolicismo, engrossaram a massa de devotos aos cultos a Nossa Senhora.
Toda essa devoção, tida por delírio coletivo entre alguns estudiosos, pôde ser vista quando uma suposta santa deu o "ar de sua graça" na janela de um paulistano em 2002. O fato ficou conhecido internacionalmente e até teve versão ianque.
Foi na rua Antônio Bernardino Corrêa, no Jardim Juliana, em Ferraz de Vasconcelos, que o suposto milagre aconteceu. Fazendo alusão à versão portuguesa de Nossa Senhora de Fátima, foi vista primeiramente por três crianças, num domingo, por volta das 8h.
A imagem que, cada vez que limpava mais nítida ficava, atraiu em apenas quatro dias uma média de 27 mil pessoas. A Igreja Católica não se pronunciou, mas os padres responsáveis pela região davam assistência aos fiéis que visitavam a casa do "escolhido", Antônio José da Rosa. Este, juntamente com sua esposa e familiares emocionados e convictos do milagre, não aceitou de bom grado o veredicto do especialista em fenômenos paranormais, o padre Oscar Quevedo.
Na época houve uma certa tensão, pois artistas como Elba Ramalho e Gugu Liberato passaram pelo local endossando a opinião dos populares, enquanto padre Quevedo afirmava que aquilo não era milagre e que "Deus não faria algo tão mal-feito". Não adiantou a opinião desfavorável do clérigo. Centenas de comerciantes ambulantes se deleitaram com a fé alheia vendendo de terços até cafezinhos.
Escandalosamente alardeado pela mídia o episódio da "santa na janela", como ficou conhecido, serviu para desencadear vários outros em várias partes do país. Tinha santa para tudo quanto é sotaque: Alagoas, Brasília, Rio Grande do Sul e outros tantos que alegavam ter o milagre também. O consenso da época foi que a reação tinha sido provocada por produtos químicos, próprios do vidro ou não. Nada mais.
A santa do Tio Sam não comoveu muitos fiéis e nem durou muito depois que uma funcionária do Milton Hospital, em Massachussetts, na janela do qual a santa apareceu, explicou o fenômeno. Tratava-se de um antigo enfeite de natal que fora mal limpo, só isso.
No Brasil, por mais que explicações como estas soem pertinentes ou laudos de especialistas desmontem, o "milagre" tem algo que é mais difícil de combater: a necessidade de adoração. E não é para menos. Com tanta bandalheira na política e economia cambaleando há anos, chega a soar confortável a idéia de que Nossa Senhora se faz presente nos vários cantos desse País. Bendita imagem.

criação: lisandro staut
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