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Entre as flechas, um flash

Vanessa Candia

Tudo corria muito calmamente, como de costume na tranqüila e desconhecida tribo dos índios xavante. As crianças corriam e brincavam enquanto os adultos trabalhavam. Foi quando um barulho, como de um ronco de uma ave enfurecida, invade os céus. O que era até então isolado "paraíso", torna-se um inferno. Pensando em defender suas famílias, os homens da tribo corriam com arcos e flechas e atiravam em direção ao grande pássaro branco. O desespero era total.

Nada mais era que um avião. Na nave, a empolgação tomava conta de dois repórteres que estavam prestes a entrar para história, como aqueles que conseguiram realizar um flagrante de índios como se estivessem em guerra - e realmente estavam.

Em pedidos desesperados pela busca de um melhor ângulo e maior aproximação, o fotógrafo - que estava praticamente pendurado para fora - gritava e pedia para que o piloto aproximasse o máximo possível o avião - um bimotor Focker Wulf-58 - enquanto seu amigo, desesperado, pensava que todos morreriam espatifados no chão. Ou, na melhor das hipóteses, perfurados pelas inúmeras flechas que não paravam. Entre idas e vindas do bimotor, as fotos eram tiradas.

Mas o esforço valeu a pena. No dia 24 de junho de 1944, a revista O Cruzeiro publicava matéria intitulada "Enfrentando os chavantes" (com "CH" mesmo, como se grafava à época). O material tinha 27 páginas e trazia 26 fotos da tribo. Era a primeira vez que a aldeia apareceria na imprensa. A repercussão foi tamanha que mereceu destaque na Life na edição de 19 de março de 1945, com três páginas e cinco fotos. 

Fotógrafo francês

Quem era o louco praticamente pendurado no avião? O fotógrafo francês Jean Manzon. Começou sua carreira como jornalista fotográfico no jornal Paris Soir. Filho de mãe judia, veio para o Brasil não somente para trabalhar, mas também para fugir dos horrores da guerra.

Começou a trabalhar aos 16 anos no jornal parisiense L'Intransigeant. Depois foi trabalhar na revista Vu, um dos mais importantes periódicos da época. Cobriu a guerra espanhola e fotografou para a Paris-Match. Em 1939, foi listado pela Marinha francesa para cinegrafar a Segunda Guerra Mundial.

Sua chegada ao Brasil se deu em 9 de agosto de 1940. Manzon foi imediatamente trabalhar no DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) recomendado pelo seu amigo Alberto Cavalcanti a Lourival Fontes.

Mas foi na revista O Cruzeiro que, em parceria com David Nasser, o repórter que estava com ele durante o ensaio fotográfico, se tornaria um dos maiores fotógrafos. A partir deste ensaio fotográfico, oficialmente o primeiro em solo brasileiro, o público se acostumou a ler "Texto de David Nasser; fotos de Jean Manzon".

Verdade?

Apesar de detalhar minuciosamente tudo o que aconteceu naquele dia, existem algumas dúvidas se realmente foi Manzon quem tirou as famosas fotos. Uma reportagem no jornal O Globo, publicada dez meses antes, dizia que o chefe da Polícia do Distrito Federal, João Alberto, sobrevoara a aldeia. O piloto, Antônio Basílio, era o mesmo. Surgiu então o questionamento por alguns se as fotos não foram presenteadas aos dois repórteres. Vindo do império de Assis Chateaubriand, não é de se duvidar.

Retornando à tribo. Tudo estava quase terminado. Manzon e Nasser possuíam um material precioso na mão. Manzon volta para dentro do avião radiante e vitorioso. Todos se acalmam. O piloto nem imagina o dano que a aeronave sofreu. Mas isso não importava naquele momento. Queriam voltar e mostrar ao mundo sua descoberta.

E a tribo? Tudo voltou ao normal. Depois de passado o medo de uma invasão, ou um castigo de um "tupã" vingativo, tudo se acalmou na aldeia. Pena que eles não puderam ver e saber o quanto se tornaram famosos. 

Bom, quanto a isso, reza a "lenda" que um dia os repórteres se encontraram com um daqueles índios. Alguém que realmente presenciou toda a cena. Agora se o índio pôde voltar à tribo e mostrar aos seus companheiros, já é outra história.

Os dados históricos desse artigo basearam-se em trechos do livro Cobras Criadas, de Luiz Maklouf Carvalho, e Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais.

                   

criação: lisandro staut