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Tempos silentes

Fernando Torres

Pré-históricos, mas inovadores. Simplórios, mas complexos. Engraçados, mas reflexivos. Silentes, mas gritantes, eloqüentes. Paradoxos que emitem de forma elegante o conceito do Cinema Mudo em sua era de ouro, de 1908 a 1930.

Alguns críticos puristas da sétima arte argumentam que cinema mesmo, só o mudo. Exagero, sem dúvida. É evidente que determinados conceitos só puderam ser transmitidos pelo cinema com o advento do som. Todavia, não há como não admirar a força das imagens combinada à genialidade de atores e produtores, responsáveis por tornar o Cinema Mudo antológico.

Deve-se, antes de mais nada, definir exatamente a que se refere o Cinema Mudo. Sua história se confunde com a da produção cinematográfica em si, já que todos os filmes eram mudos por si só. 

Com a primeira exibição pública de cinema, em 28 de dezembro de 1895, no Grand Café, em Paris, as produções cinematográficas intencionavam apenas "prender" a imagem de algo ou alguém em movimento. Os filmes nada mais eram que curtas sobre o cotidiano popular. Pode-se ter uma idéia de seu conteúdo por alguns títulos insossos (O Almoço do Bebê e A Chegada do Trem na Estação) ou outros mais instigantes (Como Bridget Serviu Despida a Salada). 

Esses filmes se catalogam na era dos "Cinemas Poeira". Podiam ser vistos por apenas 1 franco - explica-se assim a enorme quantidade de produções rudimentares e de mau gosto.

O que entrou para a história como Cinema Mudo reflete uma realidade cult, por assim dizer. Os "Poeira" eram mudos, não por uma questão ideológica, mas tecnológica. Com o passar do tempo, os produtores passaram a valorizar a técnica e a qualidade na película: abusavam da imagem e da expressão dos atores para transmitir os conceitos e valores desejados. Esse progresso deu origem a alguns clássicos, estes sim, pertencentes ao Cinema Mudo.

Eloqüente quietude

Charles Chaplin, a figura mais célebre do Cinema Mudo, quase prescinde de apresentações. Basta saber que ele foi o responsável pela roteirização, direção e atuação de 90 filmes, como O Garoto (1921), Em Busca do Ouro (1925) e O Circo (1928).

Desde sua estréia, com o curta Carlitos Repórter (1913), Chaplin deu vida ao vagabundo Carlitos. A personagem complementa o exotismo da trama com o figurino de calças largas, chapéu-coco e bengala. A peculiaridade de Carlitos é o silêncio. Mesmo com o advento do som, a singela criatura não expressa uma palavra, com exceção da divertida canção nos minutos finais de Tempos Modernos (1936).

A mudez sempre esteve entre as virtudes de Chaplin. A pantomima Luzes da Cidade (1931), não citada acima propositadamente, representa sua resistência ao gênero "silencioso". Em Tempos Modernos (1936), por sua vez, ele ousa dar voz a personagens secundárias. Mas Chaplin só falaria anos depois, em O Grande Ditador (1940), em que interpreta dois papéis consecutivos - o barbeiro judeu e o líder nazista Adenoid Hynkel uma explícita paródia de Adolf Hitler.

Outro astro de destaque do Cinema Mudo é Buster Keaton. Ao contrário de Chaplin, que se distinguia por suas caras e bocas, Keaton imortalizou-se pelo ar pesado e inabalável de suas personagens. Ele também escrevia e dirigia suas próprias produções, entre elas Casa-Elétrica (1922), Pamplinas Maquinista (1926), A General (1927) e Marinheiro de Encomenda (1928). O segundo título lhe rendeu o apelido de "Pamplinas" em Portugal.

"O Encouraçado Potenkin": melhor filme do Cinema MudoSaindo da esfera estadunidense, pode-se - ou melhor, deve-se - destacar o russo O Encouraçado Potenkin (1929). A película se passa na época da Revolução de 1905, e encena um motim no navio Potenkin. Dirigida pelo inovador Sergei Eisenstein, que produziu outros 13 filmes, a história valoriza tipos estereotipados de uma realidade que os czares desconheciam. Diversos cineastas o classificam como maior filme do Cinema Mudo.

Injusto seria não citar o clássico alemão A Caixa de Pandora (1928), dirigido por G. W. Pabst. A atriz Mary Louise Brooks interpreta a sedutora Lulu, sinônimo de desgraça para todos os homens que dela se aproximam. A personagem alcançou tamanho sucesso, que Louise entrou para a história como a musa do Cinema Mudo.

Mudez tupiniquim

O Brasil, como não podia deixar de ser, atrasou-se um pouco na corrida cinematográfica. Entre 1910 e 1920, duas películas alcançaram relativa expressividade (em território tupiniquim, vale ressaltar): O Guarani (1916), filmado por Antonio Leal, e A Viuvinha (1916), dirigido por Luiz de Barros, ambas adaptações literárias do romancista José de Alencar.

Todavia, a grandiosidade dos romances impedia a compreensão da história. Muitas placas foram utilizadas para tornar o enredo mais claro ao público. Sem sucesso - o artifício só poluiu as cenas.

No entanto, os anos seguintes reservariam relevância ao Cinema Mudo brasileiro. Boas produções saíram dos precários estúdios da época. Mas de todos os filmes produzidos nesse período, nenhum se iguala a Limite (1931), dirigido pelo estreante Mário Peixoto, então com 22 anos. Aparentemente simples, a obra cinematográfica se revela pomposa com o desenrolar da trama. Para se ter uma idéia, Limite é apontado como o melhor filme brasileiro.

Cena de "Limite": o nad forma o todoA história se passa em um barco, com três sobreviventes de um naufrágio. A partir daí, as personagens listam suas desventuras em flash-back, com imagens soltas, à primeira vista desconexas. O todo, porém, cria sentido em Limite. "É obra na qual a Forma supera o Conteúdo", define o cineasta Glauber Rocha, em crítica publicada no livro Folha Conta 100 Anos de Cinema.

Limite foi o último filme significativo do Cinema Mudo brasileiro; mas não foi a última produção. Em pleno século XXI, mais precisamente em 2002, o estreante em longa Renato Falcão dirigiu A Festa de Margarete. Oitenta minutos, rodado em preto-e-branco, sem falas.

Nada demais. A Festa conta a história de um homem desempregado capaz de mover montanhas para levar sua mulher a uma festa de aniversário. Apesar da idéia original, a produção é precária - Falcão roteirizou, dirigiu e coordenou a fotografia - e o roteiro é cansativo. Fora isso, o cineasta merece os devidos méritos.

Paradoxos perdidos

Após o sucesso do primeiro filme falado, O Cantor de Jazz, em 1927, o Cinema Mudo realmente estava fadado a terminar. Na virada da década de 30, os Estados Unidos consolidam sua produção cinematográfica, incluindo aí o rol de estúdios e celebridades. Também nessa data, registra-se a vitória do cinema falado, com 51% de toda a produção norte-americana.

Lamentável que assim o tenha sido. Fala e mudez poderiam conviver juntas como qualquer outra dicotomia do mundo pós-moderno. Utopia. A grande massa da sociedade pós-moderna é deveras ocupada para esforçar-se em ler as estrelinhas do Cinema Mudo. É cult demais.

No quesito imagem, pode-se dizer que o cinema progrediu. Seria no mínimo ingênuo renegar os efeitos especiais de Hollywood, ou mesmo a fotografia realista do cinema brasileiro, inspirada nas produções européias. Contudo, quando o assunto é expressão teatral, deve-se reconhecer que o som interferiu no resultado final. 

Observe, por exemplo, a fisionomia de Paulette Goddard em Tempos Modernos. Ao mesmo tempo em que ela consegue transmitir ódio, ostenta perdão; tristeza mescla-se à euforia; o semblante com ar de desilusão abre espaço à esperança. Paradoxos gritantes, que, infelizmente, foram enterrados com a mudez cinematográfica.

Pede-se, ao menos, um minuto de silêncio. Como sinal de respeito.

                    

criação: lisandro staut