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Calem a boca, universitários!

Fernando Torres


Quem pensa que a censura deu seus últimos passos no período da ditadura está redondamente enganado. Com o tempo, o fantasma assumiu novas facetas e expressões. Destaca-se a censura a veículos universitários, seja em prol do conservadorismo institucional ou pela má qualidade do trabalho do aluno-repórter.

Em maio de 2002, a grande imprensa deu espaço à censura imposta ao jornal-laboratório Esquinas de S.P., da Faculdade Cásper Líbero. O mensário reproduziu na capa a foto de um casal homossexual masculino (um negro e um branco) se beijando e a inserção de um brinco em formato de cruz e de estrela-de-davi, símbolos do cristianismo e do judaísmo.

O censor tomou corpo na pessoa de Sérgio Kobayashi, presidente da Imprensa Oficial de São Paulo que, segundo a Folha de S. Paulo, considerou a cena polêmica e de mau gosto, "com mais prejuízos do que dividendos à imagem da Imprensa Oficial". A instituição se recusou a imprimir, como sempre fazia, a edição. Ironicamente, a matéria de capa levava o título "Intolerância" e abordava as diversas formas de preconceito.

Fato semelhante aconteceu no UnicenP (Centro Universitário Positivo), em Curitiba. A edição de abril de 2001 do jornal Laboratório da Notícia foi apreendida por agentes da Polícia Federal e um oficial de justiça a partir da decisão liminar da juíza eleitoral Joeci Machado Camargo. Os censores - a coligação partidária do prefeito Cássio Taniguchi - acusavam o veículo de divulgar pesquisa eleitoral irregular.

O juiz responsável pelo caso, Renato Lopes de Paiva, considerou improcedentes as acusações. Conforme ele, em entrevista ao próprio Laboratório da Notícia, "um jornal acadêmico, por suas próprias características e abrangências, não pode ser enquadrado na legislação que obriga os veículos de comunicação a registrar previamente pesquisas de intenção de voto que deseja publicar". Paiva determinou a devolução da edição apreendida.

Mas nem sempre, quando justificável, a censura ocorre. Formada em 2000, a primeira turma de Jornalismo da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) deixou para trás a produção do jornal-laboratório Capenga. O veículo estava repleto de críticas aos desmandos da administração da universidade, embora repleta de informações precisas e verdadeiras. Consta que a direção não considerava o jornal maravilhoso, porém respeitava o que era realizado dentro dos padrões jornalísticos. Todavia, o que ocorreu na Unisul é uma exceção.

Limites da liberdade

Como quase tudo na vida, a censura em âmbito universitário tem lá o seu lado positivo. Seria por demais infantil imaginar um mercado de trabalho tão cor-de-rosa que garantisse a ausência de censuras enrustidas. É o que pensa o estudante de Jornalismo da Unisul, Felipe Lemos. "O aspecto positivo da censura é que o aluno entende que precisa ter responsabilidade ao escrever, fazer um programa de TV ou rádio", diz ele, em entrevista ao Canal.

Cabe ao aluno, na produção de uma matéria, priorizar a veracidade das informações lançadas ao público. Os dados devem ser comparados, checados, analisados para, enfim, serem publicados. Entretanto, na maioria das vezes, isso não acontece. Aí entra o lado positivo da censura universitária. "Trocar vítima por acusado não é legal, e a censura pode ajudar nisso, desde que seja feita com o objetivo de mostrar ao estudante de Comunicação seu papel social", reforça Lemos.

Ao buscar aperfeiçoamento profissional, automaticamente o aluno se inserirá no mundo real, ficando exposto a críticas. Segundo Laerte Lanza, coordenador do curso de Comunicação Social do Unasp, "os jornais-laboratório devem tentar simular a vida real. O editor do jornal-laboratório deve exercer uma função limitadora, pois assim será na vida real".

Equilibrado entre as duas posições, o doutor em Jornalismo Gerson Luiz Martins, da Faculdade Estácio de Sá, em Campo Grande (MS), julga que "como todo e qualquer produto jornalístico, de acordo com a ética do jornalismo e com os princípios éticos filosóficos e morais, os produtos jornalísticos laboratoriais não podem sofrer qualquer tipo de cerceamento se têm como objetivo expressar a verdade". Ele ressalta que o aluno-repórter deve levar em conta os princípios de respeito nas relações humanas, lembrando-se do chavão "minha liberdade termina onde começa a sua".

Quando respeita essas premissas, o estudante encontra espaço para a livre produção jornalística. "A universidade, como o local que abriga a universalidade de idéias, deve proporcionar ambiente, por excelência, para a liberdade de expressão", opina Martins.

                    

criação: lisandro staut