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A caixa-preta de Lula

Rômulo Gomes

Como promover um candidato à Presidência que não tenha recursos nem muita influência? Visto que a televisão é o principal meio de construir a imagem de alguém, tal ato assume um valor elevado. Como fazê-lo com baixo custo e mesmo assim eficiente? Será que a efetivação de sua mensagem aos telespectadores se daria de forma correta? Como seria a abordagem?

O panorama televisivo em 1989 era burguês e elitista. Entretanto, a maioria dos eleitores não se encaixava nesse molde. Algo errado? Algumas pessoas acharam que sim. Surge, então, a Rede Povo, idealizada pela diretoria do PT e executada por publicitários, jornalistas entre outros. Era a "rede de televisão que só diz a verdade", alardeou Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro programa.

Quando as corridas presidenciais de 89 se iniciaram, poucas estratégias de comunicação estavam prontas. As leis relacionadas à veiculação de propaganda política não eram muito rigorosas e havia disputa para eleições estaduais e no Congresso. A arena estava limpa para a corrida presidencial. Os candidatos tinham muito espaço para explorar. Nesse páreo, estavam Fernando Collor de Mello, o playboy; Leonel Brizola, o tradicional; Lula, o radical; entre outros, sem muito destaque.

Lula, o "sapo barbudo" como era chamado por Brizola na época, era o "patinho feio" (ou o "sapinho desmazelado" adaptado para os vocábulos de Brizola) da televisão. O petista não tinha o porte televisivo de Collor nem sua suntuosidade de equipamentos. Contudo, no início de sua trajetória televisiva duplicou seus índices de pretensão a voto. Em contrapartida, o playboy assistia uma queda vertiginosa perdendo 36% de seu eleitorado.

Collor transparecia ser o mestre da comunicação. Entretanto, sua atuação não estava sendo das melhores. Tendo ao seu lado um bom número de profissionais competentes e aliado a uma gama de equipamentos, Collor vivia reclamando por não conseguir erguer sua campanha. Ficava perplexo ao acordar de manhã e recordar insistentemente do jingle da campanha do PT. Era a Rede Povo em ação.

Era uma vez...

Não fosse o fato desta ser uma história verídica, o presente relato se iniciaria com o clichê "Era uma vez...". Dada a forma quase lúdica da ascensão de Lula, iniciada por apenas 7% das intenções de voto e terminando no segundo turno com Collor.

O projeto da campanha foi preparado pelo jornalista José Américo Dias, sob o aval de Lula: "Zé Américo, vai lá e resolve quem é melhor para fazer a campanha." O começo não foi fácil. Várias pessoas estavam participando desta empreitada. Entre eles, Regina Festa e Roberto Santoro, ligados à TV dos Trabalhadores (TVT), o publicitário Paulo de Tarso Santos, diretor de criação da agência Denison, o jornalista Carlos Azevedo e o próprio Dias, também jornalista. Mas os interesses de cada pessoa eram diferentes entre si.

A TVT era muito voltada ao povo, com produções altamente populares. Já Santos vinha de uma linhagem oposta e extremamente politizada. Dias era o ponto neutro entre eles. Depois de várias dissensões, Regina e Santoro saíram e entrou Azevedo. Depois, o trio, que naturalmente tinha idéias afins, conseguiu engrenar a campanha com os outros integrantes.

Após seis meses, a situação era um pouco caótica. Lula havia descido de 16% para 5% nas intenções de voto. Surge então a campanha preparada por Dias, Santos e Azevedo. A Rede Povo entra com o diferencial de massificar a comunicação ao máximo, ridicularizando a elite, sendo irônica e satírica. Nos primeiros 12 dias da Rede Povo no ar, foram conseguidos 61% dos televisores ligados na emissora. Parece que deu certo. Será que a fórmula ainda não é usada hoje por outras emissoras? Deixa pra lá.

Paródias

O fato é que Lula seria o candidato dos deserdados e humilhados pelo sistema elitista vigente. Por meio de programas como Povo Repórter, Povo de Ouro - todos fazendo alusão à Rede Globo, a emissora mais conhecida no Brasil. Assim o povo foi se rendendo aos preceitos do PT. 

A fórmula estava pronta, Azevedo advertia Dias para que isso não se tornasse uma brincadeira. A Globo seria o ícone para a ascensão da Rede Povo. Até o nome da emissora deveria lembrar a rede rival. O logotipo e até mesmo o famoso "plim-plim" estavam presentes na Rede Povo.

Além disso, outro sucesso foi a Onda Lula. Comícios e eventos externos podiam ser exibidos na TV naquela época. Havendo comício em praças, era usada a chamada: "A praça é nossa" ou "Vem pra Praça você também". Eram artimanhas lembrando o programa A Praça é Nossa, do SBT, e o slogan da Caixa Econômica Federal.

Todas essas práticas contribuíram para que a Rede Povo se tornasse conhecida e para aumentar a popularidade de Lula. A intenção era colocar o PT em questão. O objetivo foi atingido.

Posteriormente, a Rede Povo colocou Lula em uma situação não muito favorável. Afinal, toda essa estratégia se baseou em manifestações satíricas, não transparecendo uma boa imagem. Com isso, sua legitimidade caiu.

A função da Rede Povo era inserir Lula na disputa. Se lembrarmos que o principal concorrente Collor fora ajudado pela Rede Globo, talvez a Rede Povo não tenha sido injusta. Não por difamar a Globo, mas pela objetividade em dizer a verdade ao povo da forma que deveria ser dita.

* Dados históricos baseados no livro Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, e no site do PT <www.pt.org.br>

                   

criação: lisandro staut