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Lula editado

Cíntia Sandri

Em 1960, aconteceu nos Estados Unidos o primeiro debate entre candidatos à presidência da República, transmitido pela Rede CBS. As "cobaias" foram John Kennedy e Richard Nixon. O evento praticamente mudou as eleições presidenciais americanas. Kennedy foi eleito presidente por sua tranqüilidade durante o debate.

Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Rede Bandeirantes, assistiu a esse debate e quis fazer o mesmo no Brasil na primeira eleição direta depois de quase 30 anos, em 1989. Os debates, quatro no total, foram batizados de Encontro dos Presidenciáveis. Participaram 20 candidatos - o único ausente foi Fernando Collor. Foi quando o programa Palanque Eletrônico apresentou uma entrevista com Collor e uma semana depois com Lula. 

A Rede Globo, após muita indecisão, decidiu seguir o mesmo caminho. Ela e a Manchete, em parceria com a Bandeirantes e o SBT, promoveram um debate entre os candidatos que foram para o segundo turno: Collor e Luiz Inácio Lula da Silva.

O primeiro debate foi marcado para 3 de dezembro. Durou duas horas e 45 minutos, com ataques diretos entre os candidatos. Lula se saiu demasiadamente melhor; já Collor parecia que não estava preparado. Com esse desempenho, e graças a um resumo improvisado no horário gratuito, Lula subiu nas pesquisas eleitorais.

O segundo debate foi marcado para 14 de dezembro, três dias antes das eleições. Neste, aconteceu exatamente o contrário: a performance de Collor foi superior a de Lula. Mas o que contou mesmo foi a edição feita pelo Jornal Nacional.

Edições diferentes

Ao analisar o debate, o chefe da Central Globo de Jornalismo de São Paulo, Francisco Pinheiro, anotou os principais argumentos do debate e decretou que Collor como vencedor, como, de fato, havia sido. Fez uma edição de seis minutos, divididos igualmente entre os candidatos, e transmitiu no jornal Hoje.

Contudo, à noite, a transmissão seria diferente. Roberto Marinho em pessoa ordenou modificações na edição. Segundo ele, a impressão é que Lula e Collor haviam tido desempenho semelhante.

Ao mostrar o debate no Jornal Nacional, a Globo decretou Collor vencedor. Algumas evidências mostravam que Collor estava mais bem preparado. Mas o telejornal não foi imparcial ao fazer a edição; Collor saiu privilegiado. Alberico Souza Cruz, diretor de telejornalismo da Globo, e Ronald Carvalho, editor de política do JN, foram os responsáveis.

Uma prova foi a diferença de tempo na edição. Enquanto Lula teve dois minutos e 22 segundos, Collor falou durante três minutos e 34 segundos - um total de um minuto e doze segundos a mais, o que, em televisão, representa muita coisa. Além disso, Lula teve sete falas; Collor, oito. 

Às vésperas da eleição, aconteceu um protesto na sede da emissora, em que diversos artistas estavam indignados pela transmissão do debate. Como se não bastasse, Abílio Diniz, empresário da rede de supermercados Pão de Açúcar, foi seqüestrado e disseram que o PT estava envolvido. No dia da eleição o fato foi noticiado pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Após todos os debates e notícias, Collor venceu a disputa com 50% dos votos e Lula ficou com 44%. A diferença foi de apenas quatro milhões de votos. A eleição acabou por ser considerada a mais disputada na história brasileira. 

Até hoje, muitos creditam a vitória de Collor à malfadada edição. Boni, então vice-presidente da emissora, alegou que o debate não influenciou em nada as eleições. Mesmo assim, foi possível perceber o empurrão dado a Collor.

Na briga constante em que se encontravam os candidatos, qualquer deslize era o fim. E Collor nem precisou de um grande deslize de Lula para que vencesse - afinal tinha o apoio do dono de uma grande e poderosa emissora, que, convenhamos, foi responsável por sua candidatura.

Como o próprio Lula afirmou recentemente, "é preciso mostrar a cara". Mas se for diante das câmeras, cuidado. Tudo pode ser editado.

* Dados históricos baseados no Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti

                                        

criação: lisandro staut