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O
beijo que transformou
o sapo em príncipe
Mani
Maria Pereira
As eleições para presidente sempre reservam surpresas em solo tupiniquim. As de 2002 não fugiram à regra. Houve candidata eleita musa eleitoral, só para logo depois ser deposta; houve presidenciável que quase se elegeu por causa da mulher, famosa atriz; houve evangélico pedindo aos crentes para ajudá-lo a financiar a campanha; houve, ainda, candidato da situação se bandeando para a oposição, prometendo "continuidade sem continuísmo".
Contudo, pode-se dizer que a grande surpresa das eleições de 2002 foi o petista Luiz Inácio Lula da Silva, hoje, presidente eleito. Lula sempre cultivou o estereótipo de ex-líder sindical, revolucionário e briguento, uma imagem que "amedrontava" a muitos. Mas era outro o protótipo de candidato exposto na capa da revista
Veja de 4/7/01, com a chamada "Lula light" - um homem sereno, tranqüilo e que merecia muito respeito por sua barba branca. A dança da sucessão já dava seus primeiros passos.
Depois de três tentativas frutadas, Luiz Inácio Lula da Silva entrou nessas eleições com apenas um objetivo: ganhar. Tudo foi trabalhado e moldado para que isso acontecesse. A equipe de campanha foi escolhida a dedo e as "exigências" do marqueteiro político Duda Mendonça foram enfatizadas e agora aceitas pelo partido e pelo candidato.
No primeiro momento, uma aparente mudança no discurso e ideologia foi o que mais chamou a atenção da imprensa. A imagem e a aparência de Lula, também. Tudo programado pelas técnicas de marketing de Duda Mendonça. Um dos recursos adotados pelo publicitário, segundo a revista
Época (16/9/02), é o "cara sete". Quando alguém diz essas palavras pausadamente, "as maçãs do rosto se deslocam, os dentes aparecem e a anatomia de um sorriso emerge à face".
O tom da voz até o terno que o candidato usava viraram notícia. Em 28/10/02, o
Jornal do Brasil publicou o artigo "Quanto vale um terno bem cortado?", de Iesa Rodrigues. A autora argumentou que ninguém vence uma eleição apenas porque se veste bem. "Tem um certo peso o fato de o candidato se apresentar arrumado, até impressiona acompanhar o esforço de quem procura manter uma aparência condizente com seus objetivos. (...) Mas que chama a atenção de quem pouco entende de propostas e programas de governo, é inegável", escreveu ela.
Posicionamento
Na contra-mão da maioria na imprensa brasileira, que evitava pronunciar-se a favor deste ou daquele candidato, a revista
Carta Capital deu seu grito de independência, declarando-se favorável à eleição de Lula, em 2/10/02. "Ele [Lula] representa a chance de mudar a política econômica que nos conduziu ao desastre. Tem autoridade para gerir tensões sociais crescentes. É o negociador adequado nas cortes internacionais, onde goza de maior prestígio do que gostaria quem o ataca e o denigre", garante o editorial assinado por Mino Carta, diretor de redação do periódico.
Estudo do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) mediu a quantidade e a qualidade das menções de cada um dos presidenciáveis nos jornais diários. Os dados foram coletados entre 20 de fevereiro e 28 de junho de 2002. Em entrevista à
Folha Online (14/7/02) o coordenador do estudo, Marcus Figueiredo, diz que Lula recebeu destaque da imprensa por dois motivos: era a quarta vez que disputava e era o nome que mais os eleitores identificavam à oposição.
Para Figueiredo, o jornal O Estado de S. Paulo, "chama a atenção por ser mais benevolente com o candidato de sua preferência". Vale lembrar que em junho de 2002, o jornal paulista declarou-se a favor de José Serra. Dessa forma, sobraram para Lula apenas menções negativas.
Agora, um ano depois de eleito, o presidente Luis Inácio Lula da Silva é acusado pela imprensa de não dar entrevistas e/ou privilegiar alguns veículos. Villas-Bôas Corrêa, jornalista e colunista do site
No Mínimo, fez um levantamento sobre as coletivas, encontros, conversas e audiências com jornalistas que o presidente teve nos primeiros sete meses de governo. Foram ao todo 19. O que é considerado pouco para o jornalista, mesmo tendo em vista que esse número é maior do que qualquer outro presidente no mesmo período, em qualquer época.

criação: lisandro staut
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