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Sinais
de mudança
Victor Drummond
Barulho. Estresse. Máquinas de escrever que não param. Pilhas de papéis rabiscados. Canetas espalhadas. Latas de lixo lotadas de papéis amassados. Copo sujo sobre a mesa com o resto da cerveja de ontem. O frango do almoço aguarda sua vez para ser devorado na madrugada. Hora para dormir, não existe. Tosse, espirro, pigarro. Poeira e fumaça de cigarro. Olhos cansados e irritados. Olheiras contam como foi a última noite. Seja bem-vindo às redações de jornalismo dos anos 50, 60 e 70. Nas rádios, tevês, jornais e revistas imperava a famosa boemia e desorganização. Qualidade de vida e cuidados com a saúde soava estranho para qualquer jornalista. De certa forma, até se orgulhavam de tanta baderna. Era uma imagem: para ser bom jornalista, tinha que ser assim.
Ou você acha mesmo que as redações de TV sempre foram bonitinhas e limpinhas como são as atuais. Ledo engano. Muita coisa só começou a mudar a partir de meados dos anos 80. O início da televisão brasileira foi marcado por ambientes de trabalho tumultuados onde quase todo mundo fumava como forma de escape das agitações do dia-a-dia. "O cigarro era a válvula de escape. O trabalho era muito pesado. A gente tinha que fazer de tudo. Mas o cigarro trazia o alívio que precisávamos",
relatam alguns jornalistas que começaram há mais de trinta anos.
Os que não se refugiavam no cigarro saiam altas horas da noite para beberem no botequim da esquina mais próxima que encontrassem abertos. Ali as horas passavam por meio de jogos de baralho, doses de cachaça e goladas de cerveja. A redação no outro dia era o reflexo dessas bebedeiras. As irritações e discussões com o colega de trabalho eram constantes. E um ambiente de trabalho tumultuado implicava em menor qualidade de trabalho também.
Jornalistas daquela época revelam que a produtividade era muito menor. A cabeça ficava confusa e a capacidade de agir com rapidez e exatidão era limitada. Com certeza, isso implicava em perdas para o bom jornalismo. Se você fosse um leitor daquela época e tivesse conhecimento que um jornalista teria péssima saúde e trabalhava sob essas condições você creditaria confiança às reportagens desse profissional? Imagino que não.
Mas esse ritmo de vida e de trabalho fez com que os próprios jornalistas se conscientizassem que era necessária uma mudança. Tornou-se impossível trabalhar em um ambiente carregado de fumaça e com cheiro de cigarro. Sair para as bebedeiras todos os dias ficou cansativo e sem sentido. Houve uma conscientização em prol da saúde. "Chegou um momento que meu corpo não agüentava mais. Tive problemas respiratórios e larguei o cigarro. Agora produzo mais e melhor", conta um repórter cinematográfico com mais de trinta anos de profissão e que largou o cigarro há 17 anos.
A tendência hoje é encontrar redações com profissionais da "geração saúde". Muitos deles freqüentam academias, fazem algum tipo de esporte e preocupam-se com a alimentação. Eles são os novos reflexos das redações mais saudáveis e enxutas. Enxutas não só de profissionais, mas da fumaça que enlouquecia e escamoteava as informações.
criação: lisandro staut
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