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"Crente"
no jornalismo
Thiago Campossano
O que você acha de uma grande urgência jornalística sendo recusada por um
repórter? Mais bombástico seria a justificativa apresentada ao chefe de redação: motivos religiosos! Talvez, no próximo dia em que viesse trabalhar receberia as contas, ou simplesmente teria um ponto a menos na "moral" dentro do trabalho. Esse é um fato não muito comum, porém não é impossível de ocorrer nessa área. Portanto, o preconceito religioso entre os profissionais é muito real.
Em qualquer espécie de atividade remunerada, a diversidade entre os profissionais acarreta grandes confrontos, problemas e desavenças se não forem contornados com compreensão e paciência. Essa diferença se torna difícil quando se discute o aspecto religioso dos indivíduos, tanto dentro, quanto fora do trabalho. Há sempre o "crente" da turma do colegial. Também não deixa de ser na redação de um jornal.
Casos e mais casos surgem de ambos os lados nesse estudo. Pessoas que se sentiram constrangidas e forçadas a mudar seu estilo de vida por pressão profissional. Geralmente, por seguir uma religião
diferente da maioria.
Quase uma parábola
Com mais de um século de existência, o jornal mais influente do mundo possui em sua história um exemplo de profissionalismo e de princípios. Foi em 1965 que McCandlish Phillips, repórter no
New York Times, obteve reconhecimento do veículo.
Após terminar o segundo grau, Phillips recebeu o seguinte conselho de um idoso editor: "A faculdade é uma perda de tempo." Foi então trabalhar numa publicação semanal de
esportes e mais tarde galgou para a função de repórter geral de uma pequena cadeia de jornais. Lá, conheceu um homem cristão que trabalhava no departamento de publicidade
e o convidou para ir à igreja com sua esposa, no domingo pela manhã. Phillips aceitou o convite. Gostou tanto das palavras ditas pelo pregador que aceitou vários outros convites, até se tornar um evangélico.
Pouco tempo depois foi convocado pelo exército, tornando-se sargento. Comprou uma passagem de trem para Boston, mas ficou em Nova York. Logo que amanheceu,
comprou um exemplar do New York Times e do
Herald Tribune. Viu nos classificados do Times uma vaga para trainee editorial. Começava ali sua carreira no
New York Times.
Mérito reconhecido
Em 20 de outubro de 1965, o Times publicou uma matéria que revelava o nome do líder da Ku Klux
Klan em Nova York, e que também era membro do partido nazista americano. Seu nome era Daniel Burros. Mas, dois dias depois, Rosenthal,
editor local, recebeu uma carta de um amigo que trabalhava numa instituição judaica,
dizendo que Daniel era um judeu. Rosenthal precisava apurar a notícia e para isso
necessitava de um profissional com credibilidade inquestionável. Ao passar os olhos pela redação, parou o olhar sobre Phillips.
A essa altura, Phillips era conhecido por seus princípios cristãos. Enquanto não estava trabalhando numa matéria, ficava lendo sua Bíblia ou então orava. Tinha senso de humor, era um homem de dignidade e conhecimento. Com toda essa "bagagem" foi escolhido por Rosenthal para desenvolver a reportagem.
Sua competência foi provada uma semana depois ao confirmar com o próprio
Burros sua origem judaica. Numa conversa, frente a frente com o acusado, foi ameaçado de morte. Mas contornou a situação e conseguiu as informações. A repercussão da matéria de capa foi gigantesca.
Casos como esse comprovam que numa sociedade marcada pelos valores pessoais ao capital, os profissionais que
mantêm a sua integridade, mais cedo ou mais tarde são reconhecidos. A competência profissional não
se relaciona diretamente à etnia, sexo, naturalidade ou fé do indivíduo, mas ao seu preparo e compromisso ético.
criação: lisandro staut
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