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“Por
que deixar de ser mulher?”
Fernando Torres
Por
maior que seja a emancipação feminina, não é fácil ser mulher em meio
a um mercado de trabalho machista. É esse o desafio enfrentado
diariamente pela brasiliense Eliane Cantanhêde, colunista e diretora da
Sucursal da Folha em Brasília. Ela, no entanto, não se acanha e aborda temas
políticos com a mesma tenacidade masculina, sem deixar de lado, porém,
a sensibilidade e a suavidade características. À seguir, confira uma rápida
entrevista concedida ao Canal.
Ah, antes que me esqueça: nunca a chame de senhora.
Canal
- Em entrevista à revista
Imprensa (março/2002), a senhora afirmou que entrou no jornalismo com armas masculinas. Cite algumas das dificuldades e preconceitos enfrentados no início da carreira.
Eliane
- Só uma ressalva: não me chame de senhora. Jornalistas nunca se chamam
de senhor e senhora e você já é quase um.
Como "armas masculinas", entenda-se o jeito de ser.
Tive que ser durona, implacável, não aceitar elogios ou gracinhas. De preferência, usar roupas escuras e sóbrias, até falar um pouco grosso.
Às vezes, até um palavrãozinho daqui e outro dali. É competição, é dureza, é impessoalidade.
Porém, nós sabemos que a mulher é mais doce e mais sensível mesmo. Então,
por que deixar de ser assim?
Canal - Você já presenciou discriminação salarial ou impedimento de cumprir determinadas reportagens?
Eliane - As pesquisas e tendências, inclusive internacionais, mostram que há uma relação direta entre mulheres na profissão e salários mais baixos. Ou, em outras palavras, as mulheres entram em massa justamente em profissões que começam a pagar menos. Isso, em tese. Na prática, acho que as mulheres jornalistas têm salários iguais e estão ocupando cada vez mais lugares estratégicos dos órgãos de imprensa.
Canal - Como diretora de uma
sucursal, seu papel inclui dar ordens. Os homens se sentem constrangidos com isso?
Eliane - Como temos um diretor-executivo, o Valdo Cruz, que cuida das
pautas, das contratações e demissões, sou uma diretora "para
fora". Dou entrevistas, faço palestras, participo de programas de
rádio e televisão, vou a jantares e almoços de serviço nas embaixadas,
por exemplo.
Mas já ocupei cargos executivos no
Jornal do Brasil, em O Globo e na Gazeta Mercantil.
No início, havia constrangimento, sim. No
JB, quando virei coordenadora de política em plena ebulição dos
anos 80 (colégio eleitoral, Tancredo, governo Sarney...), houve colegas
homens, mais velhos, que ficaram indignados. Depois, tudo foi entrando nos
eixos. Uma vez testada e aprovada, ficou mais fácil os colegas homens me
aceitarem nos cargos de chefia seguintes.
Canal - A imprensa vem dando grande destaque para a análise política feminina. Qual o segredo
desse olhar analítico?
Eliane - Na verdade, vivem me perguntando isso e eu não sei dar
uma resposta minimamente inteligente ou convincente. Apenas acho que a
presença da mulher na cobertura política aumentou muito, muitíssimo, em
20 anos, e que a chegada às colunas acabou sendo um processo natural.
Canal - A editoria de esportes vem abrindo espaço para a produção feminina.
A maior parte dos departamentos de fotografia e cinegrafia, no entanto,
continua a ser demarcada como "trabalho de homem". Você acha que o futuro reserva espaço para as mulheres nessa área?
Eliane - Com certeza. Aliás, uma das melhores e mais prestigiadas
fotógrafas da
Folha é uma mulher, Ana Carolina Fernandes, que acaba de receber
o Prêmio Folha de Fotografia de 2002.
Para
saber um pouco mais sobre Eliane Cantanhêde, confira a seção Identidade,
publicada em 30/10/02

criação: lisandro staut |
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