editorial | ombudsman | debate | imprensa
mídia | cultura | perfil | nostalgia | opinião
  em tempo | olho vivo | leitor | e-mail | expediente
anteriores | próximas edições | inicial

O escritor do povo

Elisama Farias

Escrever algo que atraia a atenção do público é uma questão que não preocupa Manoel Carlos. O autor da polêmica Mulheres Apaixonadas (Globo, 2003) encontra no cotidiano sua inspiração para escrever, sendo qualificado pela crítica como um dos maiores novelistas da teledramaturgia brasileira.

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida nasceu em 14 de março de 1933 na cidade de São Paulo. Maneco, como é mais conhecido, iniciou sua carreira com 18 anos como ator, imortalizando-se como um dos pioneiros da TV brasileira, que só tinha seis meses de fundação.

Seu interesse maior não era estar na frente das câmeras. Em 1958, Manoel, que antes se interessava em escrever, decidiu fazê-lo somente. Mas sua primeira novela só foi levada ao ar em 1978, intitulada Maria, Maria. Dentre suas obras posteriores, destacam-se Baila Comigo (1981), Felicidade (1991-1992), Por Amor (1997-1998) e Laços de Família (2000-2001), todas na Globo.

Devido ao sucesso das telenovelas produzidas pelo autor, muitas entrevistas e reportagens foram dedicadas a ele a fim de compreender o motivo de tanta repercussão no Brasil e em vários lugares do mundo. Dentre os pontos destacados conclui-se que a simplicidade, a realidade social e individual do brasileiro é fundamental para a repercussão positiva de suas histórias. Outra de suas características marcantes, iniciada em Felicidade e repetida até hoje, é o nome da protagonista, Helena, peculiaridade que causa maior receptividade por parte do telespectador.

Vida real

O Brasil pára diante das telenovelas de Manoel Carlos, pois se identifica e encontra nelas seus desejos e medos apresentados pelos personagens que os retratam. O autor encontra inspirações nos casos reais e procura informar-se de tudo o que acontece para poder retratar de modo real a vida de seus personagens. Dessa forma, consegue abordar aspectos que atingem seu público-alvo e "vender" serviço social e cidadania.

Temas como câncer, violência urbana, idosos, problemas psicanalíticos, universo feminino, entre outros, despencam de suas obras. Entram no mesmo caldeirão assuntos polêmicos, como infidelidade, homossexualismo, virgindade, julgo desigual e distúrbios de comportamento. Estes, claro, rendem maiores de comentários e reportagens de diversos especialistas sociais e científicos.

A influência que esses temas trazem à sociedade é profunda e notável. Conforme a psicanalista carioca Eny Lacerda, em entrevista à Folha de S. Paulo (1.º/6/03), "o público faz terapia através da TV. A partir dos problemas dos personagens, as pessoas se dão conta dos próprios problemas, e isso é válido. Tenho muitos pacientes que falam das novelas nas sessões".

Mulheres Apaixonadas foi inspirada na sensibilidade do universo feminino e suas problemáticas. A trama acarreta muitos pontos no Ibope devido à identificação dos telespectadores. Porém, Maneco afirma ser esta sua última telenovela, antes de se aposentar. Segundo ele, depois só fará minisséries. 

Sua carreira de sucesso foi construída, mantida e invejada, devido um motivo que passou desapercebido por vários autores: o ser humano. Isso o fez se destacar dentre os outros, mas, acima de tudo, transmitiu a lição de que a realidade social e individual é um mistério a ser "cutucado" e trabalhado para uma suposta melhoria do bem-estar social.

Os dados históricos desse artigo se embasaram nas revistas Veja (10/1/01) e Época (21/4/03) e no caderno “Ilustrada” do jornal Folha de S. Paulo (1.º/6/03)

                    

criação: lisandro staut