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Imprensa à luz da história

Fernando Torres

O acervo bibliográfico da história da imprensa brasileira atende as necessidades básicas que o jornalismo requer hoje. Contudo, nada melhor do que despregar do livro de história e perguntar diretamente a seu autor qual sua opinião sobre a influência que o jornalismo exerceu nos eventos históricos do Brasil.

Foi isso que o Canal fez com Isabel Lustosa, autora dos livros Insultos Impressos - A Guerra dos Jornalistas na Independência e Histórias de Presidentes - A República no Catete, entre outros. Sua contribuição à memória da imprensa vai além da bibliografia. Nos últimos dois anos, em parceria com Alberto Dines, atuou como co-editora da edição fac-similar do Correio Braziliense, primeiro jornal a circular no Brasil.

Isabel é formada em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Lançou recentemente O Nascimento da Imprensa Brasileira, da Coleção Descobrindo o Brasil. Atualmente é pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, também no Rio de Janeiro. A seguir, a palavra é dela.

Canal da Imprensa - Por que a imprensa demorou tanto tempo para ser inaugurada e realmente institucionalizada no Brasil, em comparação com as colônias espanholas e inglesas?

Isabel Lustosa - Porque fazia parte da política colonial portuguesa manter o Brasil, sua mais importante colônia, isolado do mundo, não só impedindo que aqui existisse imprensa como também fábricas e universidades. 

Canal - Qual a relevância de Hipólito da Costa para o jornalismo brasileiro?

Isabel - Hipólito da Costa foi o primeiro jornalista brasileiro. Mesmo chegando ao Brasil de maneira precária, para circular entre muito poucos leitores, seu jornal reunia as mais recentes e completas informações sobre o que estava acontecendo no mundo, iluminadas pelas suas brilhantes análises. Isto foi um sopro de ilustração e de novidade numa colônia que vivera até então isolada do mundo.

Canal - Qual o papel efetivo dos jornais Revérbero Constitucional Fluminense e A Malagueta para a independência do Brasil? Por quê? 

Isabel - O Réverbero foi o jornal da Maçonaria de linha francesa, que era no Rio liderada por Joaquim Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa. Tinha uma matriz originalmente republicana, mas que nunca se mostraria por inteiro por conta das circunstâncias que recomendavam uma adesão ao projeto de monarquia constitucional que acabou prevalecendo. Sendo, quando surgiu, em setembro de 1821 o mais radical e também o jornal de discurso mais apaixonado, o Revérbero acabou seduzindo muita gente.

A Malagueta, por sua vez, era redigida por um personagem contraditório, Luís Augusto May. Suais idéias liberais eram avançadas e até mesmo lúcidas para o tempo, mas as atitudes oportunistas acabaram por comprometer a credibilidade do jornal e do jornalista. Mesmo assim, A Malagueta foi bastante popular em seu tempo. 

Canal - José Bonifácio entrou para a história como o patrono da independência. Contudo, o historiador Nelson Werneck Sodré, em História da Imprensa no Brasil, trata-o como perseguidor e censor da imprensa libertária. Qual sua opinião sobre a personagem? 

Isabel - José Bonifácio é a maior figura da história de nossa Independência. Seus projetos para o Brasil e a coragem com que enfrentou Portugal e conduziu o governo durante o ano de 1822 foram decisivos para o desfecho. No entanto, José Bonifácio era também um homem autoritário, e cioso de seu poder, ele acreditava que o poder do imperador devia ser maior do que o do Legislativo. Ele, de fato, cometeria excessos na política contra os adversários e usaria o seu poder para perseguir jornalistas e fechar seus jornais. No entanto, suas atitudes devem sempre ser lidas e interpretadas à luz da realidade em que ele viveu. Aliás, como as de qualquer figura da história. 

Canal - Que importância tiveram os virulentos pasquins do período regencial? Na sua opinião, eles são vistos sob uma ótica construtiva ou negativa? 

Isabel - É difícil julgar manifestações políticas e culturais tão antigas. Creio que nem cabe ao historiador esse papel. Os pasquins que circularam durante a Regência foram uma expressão da realidade cultural e política que se estava vivendo. Como tal, são uma fonte preciosa para entender aquela importante fase de nossa história. Deste ponto de vista sua existência hoje tem valor inestimável como documento e sim, podem ser considerados construtivos, pois só apareceram porque houve liberdade de imprensa para tanto.

Canal - A mídia eletrônica tem papel secundário na história recente do País? Por que, já que a televisão e o rádio alcançam muito mais pessoas do que a mídia impressa? 

Isabel - Sim. Creio que porque a televisão e o rádio ainda são veículos mais democráticos e de caráter mais social, digamos assim. O computador isola, os outros dois reúnem. A família ainda pode se reunir em torno do rádio e da TV, mas não se vê ninguém se reunindo em torno do computador. Isso, no entanto ainda pode mudar. Acho as conquistas da informática o mais importante avanço para a humanidade do último século.

                   

criação: lisandro staut