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O audacioso e destemido "inimigo do rei"

Vivian Vergilio

A história da nação brasileira se fez com grandes homens que defenderam suas idéias, lutaram por seus ideais e conseguiram mobilizar a massa na busca de sua liberdade. Muitos desses personagens que marcaram a história de nosso País eram homens destemidos e audaciosos que tinham uma grande arma nas mãos: os jornais. 

Destacam-se figuras como Cipriano Barata, único jornalista brasileiro a ser condenado à prisão perpétua por ser oposição ao governo, e Frei Caneca, ideólogo e revolucionário que se destacou nas revoluções de 1817 - conflito ocorrido no Recife entre portugueses e brasileiros - e de 1824 - conhecida como Confederação do Equador, cujo início se deu em Pernambuco. Agitadores, revolucionários e intrometidos são alguns dos títulos que estes homens receberam.

Antônio Borges da Fonseca, paraibano nascido em Campina Grande em 1808, foi mais que um jornalista liberal ou agitador das massas. Borges foi um "inimigo do rei", assim como Barata e Frei Caneca. Estudou no Seminário Episcopal de Olinda, e, por haver residido em Pernambuco e na Paraíba, foi fortemente influenciado pelas revoltas de 1817, 1821 e 1824.

Aos 20 anos, Borges começou sua carreira no mundo jornalístico fundando a Gazeta Paraibana. Este era o primeiro periódico dos 25 que ele fundaria até 1869. O jornalista ainda fez várias proclamações e folhetos que marcaram sua vida política, com sua participação em dois grandes movimentos revolucionários: na Revolta da Praieira, da qual foi um dos principais líderes, e no pronunciamento popular e militar de 6 de abril de 1831, que terminou com a abdicação de dom Pedro I na madrugada seguinte.

O destemido jornalista atacava diretamente a figura do imperador e qualquer outra forma de governo. Combateu o absolutismo por meio de um manifesto político publicado em 1828. Seus protestos subseqüentes levaram-no a pedir demissão, em 1829, do cargo de Mestre de Primeiras Letras da Cidade Alta. Neste mesmo ano publicou no Recife o jornal Abelha Pernambucana.

Em 1830, no Rio de Janeiro, saiu o primeiro número de O Repúblico, fundado por Borges e que passou por cinco fases de mudanças. Esta foi a maior contribuição do jornalista não só para a imprensa, mas para a história do Brasil. Foi publicado no lançamento do periódico:

"Saiu à luz o primeiro número de um periódico intitulado O Repúblico e a sua leitura nos enche de esperanças; contamos com mais um forte guerreiro que, acossando o despotismo e os mandões, ajudará a fazê-los entrar em seus limites. Não é preciso dizer de seu redator senão que foi o da Gazeta Paraibana e da Abelha Pernambucana. As perseguições que sofreu e a firmeza de caráter constante e rigidamente sustentada são os mais fortes documentos que abonam o seu merecimento. Oxalá que destes aparecessem ao menos cem!".

Em O Repúblico, o jornalista defendia a imagem do imperador das notícias maliciosas que este supostamente sofria; notícias que eram criadas pelo próprio Borges. Ainda surgiram outros veículos, com caráter não combatente. Borges lançou em 1833 o Publicador Paraibano.

Borges passou a combater a Regência Trina Permanente. Por meio de O Repúblico, atacou Chichorro, que assumiu o cargo de presidente da província pernambucana em 1845, e o ministro da Regência Trina permanente. 

Liberais versus coordenadores


Com as regências, a briga entre os liberais e os conservadores se intensificou. Os liberais queriam a modernização do País e a reforma da Constituição. E os conservadores desejavam um governo que seguisse os moldes absolutistas. Borges apoiou os liberais que assumem o poder e combateu toda e qualquer forma de governo conservador.

Sob o governo de dom Pedro II, Borges fundou o Correio do Norte (1841 a 1842) e o Nazarento (1843 a 1848), que interrompido várias vezes deu espaço para o surgimento de O Vigilante, O Foguete, O Verdadeiro Regenerador, O Espelho, O Verdadeiro e O Eleitor. Um dos motivos para a interrupção de O Nazarento foi a prisão de Borges da Fonseca em agosto de 1847 a março de 1848. Ele foi julgado pela acusação de usar expressões insultantes contra o imperador.

Revoltado com o partido liberal, de 1847 a 1848 Borges ligou-se aos gabirus movimento de oposição. Nesse período, fundou O Tribuno, que também foi interrompido por mais uma prisão do jornalista em 1848. Ao sair da prisão, Borges ataca tanto um partido como o outro e se ocupa em falar da nacionalização do comércio. Depois, volta às origens no partido liberal.

Em novembro de 1848, explode em Pernambuco mais uma luta entre os liberais e os conservadores: a revolução praieira. Foi assim chamada porque o Diário Novo, jornal que apoiava os liberais, situava-se à rua da Praia, em Recife. A base do Diário se tornou a sede do partido e nela se destacou o grupo radical "Cinco Mil", liderado por Borges.

Com o monopólio exercido pelos Cavalcanti e Rego Barros e a recusa dos comerciantes em empregar brasileiros, em dezembro de 1847 e junho de 1848 a população saiu às ruas do Recife saqueando armazéns e espancando e matando portugueses. Nesta briga estavam envolvidos agricultores, políticos, militares, profissionais liberais, escravos e comerciantes. Borges estava preso no Recife quando houve a investida de junho.

A revolta tomou forma quando foi nomeado para a presidência da província o conservador Herculano Ferreira Pena, que ocupou o lugar de Antônio Chichorro da Gama. Chichorro era aliado dos praieiros e com seu apoio, o Partido da Praia chegou ao poder e desalojou os conservadores do clã Rego Barros.

A maior contribuição de Borges nesta revolução foi o "Manifesto ao Mundo", onde ele reivindicava dentre outros, uma reforma na Constituição e a nacionalização do comércio, coisas pelas quais ele lutava há muito tempo. Em 2 de fevereiro de 1849, quando os praieiros atacaram o Recife, Borges entrou no bairro Santo Antônio, passando por artilharia pesada de 400 homens em guerra, subiu num chafariz e proclamou a força do Governo. Ele saiu ileso do tiroteio. 

Borges foi preso, e em agosto de 1849 foi julgado e condenado. Cumpriu pena em Fernando de Noronha e ilha da Rata. Em 1852 foi solto ao receber anistia que o imperador deu a todos os revolucionários. 

Ainda em Recife, publicou A Revolução de Novembro. Na quinta fase de O Repúblico, explicou aos leitores o que significava o nome do jornal: "'Repúblico' queria dizer o amigo da coisa pública, o amigo do povo, da liberdade e da paz, pensamentos homogêneos em relação à ordem e a paz." 

Combate ao imperador


Nesta última fase, ele atacou com todas as suas forças a família imperial, recorrendo às cartas abertas destinadas ao imperador. Chegou a falar audaciosamente até sobre as necessidades fisiológicas do imperador. Não podendo mais lutar, publicou o último número de O Repúblico em agosto de 1855, com um artigo intitulado "Estado do País, minha despedida".

Ao voltar para Paraíba, dedicou-se à família e tentou novamente uma vaga no Senado e na Câmara. Sem sucesso algum, orientou no Rio de Janeiro a publicação do pasquim A Matraca, lançou na Paraíba o Prometeu e transcreveu do Correio da Tarde, do Rio de Janeiro, o manifesto "Ao País", publicado depois no Diário de Pernambuco. Neste ínterim Borges foi vítima de cólera-morbus.

O incansável jornalista deixou a família para viajar à Europa cursar direito numa universidade alemã. Ao retornar ao Brasil em 1859, abriu um escritório de advocacia e declarou-se monarquista ao ver a chance de alcançar as reformas que queria sob o governo do Imperador. Em 1860 publicou no Diário de Pernambuco mais um manifesto, que além de moderado, era monarquista e defendia a "causa da humanidade, do povo e do rei".

Em 1861, publicou o Constituinte, uma campanha pela reforma constitucional. Em 1866 ele retomou a publicação de O Tribuno. O destemido e audacioso jornalista morreu na cidade de Nazaré, Pernambuco, em 1862, deixando para trás uma história de luta pela liberdade de um povo.

                                        

criação: lisandro staut