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Obsessão
"lacerdiana" pelo poder
Vanessa Candia
Nenhum codinome conferido a Carlos Lacerda se encaixa tão bem quanto o dado pela historiadora Marina Gusmão de Andrade, "o demolidor de presidentes". Se for bem analisada, toda sua vida era movida pela vontade, quase que doentia, de se tornar presidente do Brasil. Desejo que nunca negou.
Quem sentiu na pele toda essa ambição foi Getúlio Vargas, talvez o maior rival político que Lacerda teve. O conflito culminou no atentado contra Lacerda em 5 de agosto de 1954, do qual Vargas foi responsabilizado, mais conhecido como o caso da rua Toneleros.
Por sorte, o jornalista teve somente um pé ferido, enquanto que o major Rubem Vaz foi assassinado. Acendia-se o estopim de uma bomba que terminaria com o suicídio do presidente, levantando algumas dúvidas sobre um possível envolvimento - mesmo que indiretamente - de Lacerda.
Cada vez mais desejando o poder, o jornalista tentou derrubar outros presidentes como Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e Jango. Insano, alardeava que para ele "o poder não é cargo de sacrifício. O poder, antes de tudo, é uma fonte maravilhosa de alegria".
Quando conseguia um pouco do poder que desejava - sim, pois ansiava ter em suas mãos o poder designado ao presidente - Lacerda era capaz de atos frios e traiçoeiros. Ele mesmo confessa em seu livro
Rosas e Pedras de Meu Caminho (título sugestivo, não?!), que sempre colecionou inimigos, mas também amigos. "Sempre pronto a me livrar deles [dos inimigos], transformando-os em amigos. É natural, pois, que alguns amigos, às vezes, se transformem em inimigos, com compensação", narra ele.
Jornalismo e perseguição
Sua vida como jornalista começou aos quinze anos, em 1929, escrevendo à mão um jornal intitulado
O Forquilhense. Um ano depois trabalhava no Diário de Notícias, auxiliando a poetisa Cecília Meirelles. Trabalhou também em outros veículos como
Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo.
Na década de 40, Lacerda ainda prestou serviços para, entre outros, o Diário Carioca e para
O Jornal. Neste, ele chegou a dirigir a redação por algum tempo, desligando-se dele em virtude de desentendimentos com o dono do veículo, Assis Chateaubriand.
Em 1946, o jornalista passou a escrever a coluna "Tribuna da Imprensa", no
Correio da Manhã. A coluna deu origem ao jornal Tribuna da
Imprensa, fundado por ele em 1949. O jornal só possuía um objetivo: acabar com a candidatura de Getúlio Vargas. Fracassou.
Lacerda, porém, não se deu por vencido. A partir daí, a Tribuna viveu apenas para perseguir o governo de Vargas. Ah, claro, e também para brigar com o jornal getulista
Última Hora, seu principal concorrente, "dirigido" por Samuel Wainer!
Devido ao fabuloso desempenho como orador e, se aproveitando da Tribuna, Lacerda foi eleito o primeiro governador da Guanabara. Antes ocupou cargos de vereador e deputado. Mas nunca alcançou o desejado e "batalhado" cargo de presidente da República.
Prosa e verso
No entanto, poucos conhecem o lado artístico de Lacerda. Na opinião de Carlos Drummond de Andrade, amigo do jornalista, "ele era rico demais, numeroso demais para ser apenas escritor ou apenas político". Lacerda foi premiado pelo livro
Paixão e Ciúmes. Escreveu juntamente com Jorge Amado, a pedido de Dorival Caymmi, a música "Beijos da Noite". Escreveu também, em parceria com Joubert de Carvalho, "O Índio do Corcovado".
Desenvolvendo ainda seu o lado poético, Lacerda escreveu os poemas "Entre Paris e a Suécia, Entre o Céu e a Terra" e "Morte Vizinha" e o livro de "Contos Inéditos". Ele ainda se embrenhou no campo teatral, escrevendo três peças: "O Rio", "A Bailarina Solta no Mundo" e "Amapá ou o Lobo Solitário".
O jornalista morreu em 27 de setembro de 1977, deixando muitos inimigos e
amigos. Tanta sede pelo poder fez de Lacerda o terror de presidentes e de todos
os homens do presidente. Tamanha obsessão, nem Freud explica.

criação: lisandro staut |
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