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O sonho de relatar a guerra
Ana Paula Ramos
O grande sonho da maioria dos jornalistas é cobrir uma guerra. Klester Cavalcanti, editor especial da revista
Terra, não é uma exceção. Formado em Jornalismo pela Universidade
Católica de Pernambuco, Klester gosta de viver perigosamente. Nos dois anos em foi correspondente de
Veja na Amazônia, o jornalista apurou sérias denúncias, que culminaram em seu seqüestro.
Nem por isso ele pensa em abandonar seu natural espírito aventureiro. Atualmente, negocia com a revista
Época sua viagem para o Iraque como correspondente. O projeto, porém, ainda não saiu do papel. Na entrevista abaixo, Klester traça seus planos e objetivos para a cobertura da guerra e segreda: "Só vou contar para minha família um dia antes de
ir." Agora é só torcer para que eles não descubram.
Canal - O que o motiva a ir para a guerra?
Klester - Eu sempre quis cobrir uma guerra. Tentei ir para o Afeganistão, mas não foi possível. Não penso em alcançar o topo da carreira de jornalismo com isso - no meu caso, parece que tenho um
ímã para confusão. Quero saber que guerra é essa, se realmente existiu uma guerra, entre outras coisas. Não confio na imprensa internacional. Depois do que os afegãos mostraram como a CNN trabalha, vimos como tudo é manipulado. Eu acredito em mim, naquilo que eu vi. Quero mostrar o que vai acontecer realmente.
Canal - Que características qualificam um correspondente de guerra?
Klester - É evidente que coragem. Não me considero corajoso, mas encaro tudo que vier. Desprendimento também é muito importante. Por mais que eu acredite e prefiro pensar que nada de ruim vai acontecer, não posso descartar esta possibilidade. Não dependo de ninguém neste
sentido. Se eu tivesse uma esposa e filhos, eu não iria cobrir uma guerra.
Canal - O fato de estar no "terreno inimigo" não o coloca em risco?
Klester - Vejo esse desafio como qualquer outra reportagem. Não quero ficar em Bagdá, onde ficam praticamente todos os jornalistas do mundo em hotéis assistindo
à guerra de camarote usando os boletins oficiais e imagens de governo. Isso eu posso fazer dentro da redação onde trabalho, em São Paulo. Eu quero informar, ver os dois lados da guerra viver este momento retratando e escrevendo aquilo que eu mesmo estou vendo. Vou pegar um carro ir para o interior, no
Norte do Iraque, onde tropas americanas já estão instaladas. Estarei trabalhando entre as comunidades menores. Talvez algumas delas nem saibam que existe uma guerra e estão na linha de fogo. Quero sair pelo deserto e ver tudo bem de perto.
Canal - Como você vai trabalhar por lá?
Klester - Como já disse, vou estar na Região Norte do Iraque entre as comunidades menores. As tropas americanas já estão lá, portanto, além de estar bem perto dos combatentes, vou procurar retratar os lugares onde a guerra nunca existiu para alguns. Vou com alguém que fale o idioma árabe. Tenho contato com uma pessoa que mora lá e vai ser meu tradutor e guia. A guerra em todo mundo será mostrada ao vivo pela mídia, como foi a do Golfo, mas isso todo mundo mostra. Não vejo méritos nisso; pra mim são apenas imagens oficiais sendo repassadas.
Eu admiro um americano que cobriu a guerra do Afeganistão. Ele estava cobrindo a guerra com a Al
Qaeda e acabou sendo assassinado por eles mesmos. Este sim estava cobrindo a guerra.
Canal - Que tipo de dificuldades você pensa em encontrar?
Klester - Eu acho que algumas coisas podem complicar um pouco. Quando fui para o Egito, para a revista
Terra, eu tinha duas pautas para fazer, uma em Israel e outro próximo
à Gaza. Não me deixaram entrar em Israel, pois faltavam dois dias para as eleições. Teríamos que ficar presos até o fim das eleições e perderíamos o vôo. Eu, com essa cara de árabe, já fui bastante confundido; posso morrer por causa disso. Assim que me virem, podem pensar que sou um homem-bomba e não pensarem duas vezes em atirar.
Canal - E quanto à família, amigos, você tem apoio?
Klester - Só vou falar um dia antes de ir. Vou mandar um e-mail avisando, senão não me deixariam ir. Só alguns amigos bem chegados sabem que posso ir para a guerra; acham que eu sou um louco.
Canal - Quando pretende voltar? Você teria algum motivo para voltar antes do fim da guerra ou desistir da cobertura?
Klester - Nada me faria voltar. Quero ficar mais ou menos um mês. Não acho que a guerra vai durar muito tempo, vou chegar antes e sair depois dela terminar.
Canal - Tem medo de não voltar?
Klester - A morte não tem volta. Não terei contato com o Brasil.
Se isso acontecer, vai ser por lá mesmo, estarei fazendo o meu trabalho.
Canal - Para o Brasil, o que você quer trazer ou representar? Pretende entrar para a história?
Klester - Não sonho em entrar para história como um herói de guerra. Pretendo marcar a história como relator desta guerra. Quero fazer parte da história e não entrar nela. Quando falarem da guerra do Iraque, quero dizer que estava lá e não estava sentado no sofá assistindo tudo. Quero ver as coisas de perto. Não sei até que ponto a guerra é tão tecnológica, a preocupação da mídia é muito grande, mas nas guerras mais recentes todos ficam em centros de imprensa protegidos e recebendo informações prontas. Quero fazer diferente. Já vi muita coisa cruel acontecendo. Desgraça por desgraça, não muda muita coisa. Quero enfrentar o que puder e cumprir meu propósito.
Canal - Cobrir uma guerra é o maior trunfo para qualquer jornalista. O que pode ser um desafio profissional para você depois disso?
Klester - Depois da guerra, só trabalhando em uma revista feminina. Quero entender a mente das mulheres, isso é um desafio!
criação: lisandro staut |
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