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Contadores de história

Victor Drummond


O jornalista Marco Uchôa formou-se nas Faculdades Integradas Alcântara Machado (Fiam). Seu primeiro trabalho foi aos dezessete anos na Folha de S. Paulo, sendo um dos mais novos repórteres do jornal. Atuou em O Estado de S. Paulo durante cinco anos e foi colaborador da revista Marie Claire. Posteriormente, foi para a Rede Globo, onde atua como repórter do Fantástico e colaborador do Jornal Nacional, Globo Repórter e do canal Globo News.

Em 1997, Uchôa escreveu um livro chamado Crack, O Caminho das Pedras, da Editora Ática, que está na quarta edição. A obra ganhou o prêmio Jabuti, como melhor livro-reportagem. É o primeiro livro a abordar o crack no Brasil e tem um caráter totalmente social.

Uchôa tem trilhado os caminhos do jornalismo investigativo. Na edição de 11/5/03 do Fantástico, fez uma matéria sobre um presídio de Osasco que mais parece uma colônia de férias; nele os presos têm liberdade de ir e vir. Neste domingo, 25, a matéria do repórter mostrou os criminosos envolvidos com a fraude conhecida como "Dossiê Cayman", nas ilhas do Caribe. Uchôa concedeu esta entrevista ao Canal por telefone.

Canal - Quais são as técnicas que envolvem o jornalismo investigativo?

Uchôa - Em primeiro lugar há a questão ética. Para falar de um crime ou algo que esteja errado, no jornalismo investigativo você não pode cometer um erro. Este é o princípio básico: o jornalista tem que ser muito ético, muito correto. Tem que primar exatamente por isso para que seu trabalho surta o efeito. E que efeito é esse? Um jornalista é um contador de histórias e precisa de bons elementos para que sua história seja bem contada, seja compreendida. E esses bons elementos passam exatamente por esses princípios de conduta que são o de levar a ferro e fogo essa questão ética.

Quando você vai conversar com um bandido, com um policial, com um promotor, o que seja, a sua postura de seriedade para checar a informação tem que ser a mesma. Quer dizer, sem turbinar as informações, ter em mente que você precisa checar várias vezes a mesma informação, ter certeza, para que sua história seja a mais verdadeira possível.

Canal - Para que essa história seja verdadeira, é necessário que o repórter investigue os dois lados da história e a partir daí tire as conclusões ou ele deve deixar que o público extraia suas próprias conclusões?

Uchôa - Para que a história seja verdadeira é fundamental ouvir o outro lado. Isso é básico no bom jornalismo; você tem que ouvir o outro lado sempre. Você pode até dizer: "estou fazendo uma matéria que vai ser exibida ou publicada no dia tal, esse é o enfoque da matéria". Enfim, você tem que informar a pessoa e abrir espaço para que ela se manifeste. O que você não deve é emitir opiniões. O que nós fazemos na verdade, é apresentar para o nosso público, seja ele quem for, todos os elementos daquela história e ele vai tirar a conclusão. Você não vai fazer um texto em primeira pessoa, ou fazer uma passagem, no caso de televisão, tecendo a sua opinião a respeito do assunto. Você vai oferecer para o seu telespectador todos os pontos daquela história e, ao final, ele vai chegar a alguma conclusão.

Canal - Você acredita que o jornalismo é investigativo por natureza?

Uchôa - A premissa do jornalismo investigativo é a curiosidade; você é muito curioso, você quer checar, você investiga. É a curiosidade que move o jornalismo investigativo. E quem opta por essa carreira, quem traça esse caminho, lá no fundo é aquele cidadão ávido por contar histórias, louco por contar novidades. Pode ser boas notícias, coisas de cultura, esportes, economia, enfim. Na verdade, o nosso papel é informar da melhor maneira possível. 

O jornalismo investigativo não é aquele que acompanha a polícia, que só ouve os bandidos ou que cava matérias desse tipo. No caso da investigação focada para a violência, você tem que colocar uma lente de aumento nestas mazelas das grandes cidades. No fundo no fundo, o que você traça é o comportamento, o perfil, de uma comunidade, de uma pessoa, de um casal, de uma criança, enfim. É a curiosidade que te move e o jornalismo investigativo consegue congregar todos esses aspectos: a curiosidade, a boa investigação, um comportamento, um perfil. É isso que me chamou a atenção na escolha desse caminho.

Canal - Que diferença você diagnostica entre o jornalismo investigativo do Brasil e o norte-americano? Acredita que ainda estamos muito atrás dos Estados Unidos?

Uchôa - A questão não é nem se estamos atrás. O resultado é positivo seja aqui, seja lá, na Colômbia, na Venezuela, pouco importa. O que é mais difícil nessa área é você convencer os seus editores, os seus diretores, de que vale a pena o investimento naquele assunto. É tudo muito imediato hoje. Você sai de manhã e está colocando a matéria no ar à noite. Começa na quarta-feira uma matéria enorme que vai ao ar no domingo. É tudo muito expresso. Na verdade, nessa área, a relação com o tempo é bem diferente. 

Imagino que os americanos tenham mais espaço, consigam muito mais tempo para investigar. Aqui é uma batalha insana para conquistar uma semana a mais para ficar no caso, um dia a mais para contar melhor a história. A diferença básica pode ser, imagino, a questão do investimento e do tempo gasto. Quando você vai investigar algo, pode ser uma matéria excelente, mas também pode não ser nada. É uma operação de risco acima de tudo.

Canal - Como fica a relação do jornalista investigativo com suas fontes? No caso de uma investigação no Ministério Público, você acha que pode acontecer algum lobby do jornalista com o governo para conseguir as fontes que ele precisa? No caso de um jornalismo policial, como você se porta perante suas fontes?

Uchôa - Da forma mais transparente possível. Esta semana mesmo passo por uma situação atípica, uma situação curiosa, que, no caso de trabalhar no Fantástico, a gente se depara de tempo em tempo. Acontece um factual, um assunto que na semana inteira todos os jornais dão absolutamente tudo e o Fantástico, que é o último programa da semana, tem que abordar esse assunto. Mas o que falar, se todo mundo já disse tudo? O que mostrar, se tudo já foi visto? Esse é o desafio do programa.

Quando você entra numa história dessas, tem que ser o mais transparente possível. É colocar a sua situação, porque você já sai na desvantagem por ser o último, e que você precisa de um elemento novo para que esse assunto mereça espaço no programa. A relação com a fonte, seja ela no Ministério Público, um juiz, um promotor, pouco importa, tem que ser o mais transparente possível. As coisas precisam estar claras. Você precisa dizer abertamente o que você quer, não deixar dúvidas, porque a dúvida pode te colocar numa situação muito delicada. Uma contra-informação, como "Ah! Não foi bem isso que eu disse! Não foi isso que eu combinei!". Tem que deixar tudo muito claro e assim, você vai seguindo seu caminho.

Canal - O jornalismo investigativo tem sido responsável, em grande parte, pelo movimento que leva as verdades a não serem escamoteadas. Você acredita que a nossa sociedade está longe de tomar providências sérias sempre que houver um crime transmitido ou descoberto pela própria imprensa?

Uchôa - A gente não pode pensar nisso, porque aí não tem mais sentido o seu trabalho. Tem que acreditar que algo de positivo vai acontecer, que vai ter alguma repercussão. Acho que quando você investiga algo e aponta todos os lados de uma história, no fundo o que você quer é que, primeiro, todos tenham interesse e tenham aquela informação que você investigou. Segundo, você espera que algo aconteça. A gente não está aqui brincando de teatro, que termina, a gente aplaude e vai embora. Você está falando com vida, com história, com medos, com situações que merecem e que precisam ser investigadas. Então, quem trabalha nesta área sempre acredita que valeu a pena o esforço. E o resultado disso é a repercussão, seja ela qual for.

Canal - No caso de suas reportagens, que resultados você tem diagnosticado?

Uchôa - Sempre tem uma repercussão. Eu trabalho em um programa que é um dos mais vistos na TV brasileira. Um programa que vai fazer 30 anos no ar. Não existe no mundo nenhum programa como o Fantástico, com esse formato, com esse caráter de revista que tem absolutamente de tudo ali dentro. Então sempre tem uma repercussão. A gente tem matérias humanitárias, de comportamento. Nós sabemos que aumenta muito a nossa responsabilidade que sempre alguma coisa vai acontecer. A gente vai mexer em alguma situação, vai alterar, vai motivar, incomodar. Trabalhar num programa como esse, que dá 36 pontos em média no Ibope, que é extremamente alto, a gente sabe muito bem que alguma repercussão vai ter.

Canal - O caso Tim Lopes chegou a te intimidar?

Uchôa - Não que intimida. É um susto muito grande. Você não imagina tamanha crueldade, que seriam capazes de fazer o que fizeram. Com a morte dele, a gente morreu um pouco. Cada um que trabalha no jornalismo sério, não importa a área. Do jeito que ele se foi, a maneira como tudo aconteceu, é como se um pouco de nós também tivesse ido, com certeza.

Mas não me amedronto, não. Dá muito mais coragem, muito mais força. A gente não pode se intimidar. Temos em mente que não somos super-homens, não somos investigadores. Somos contadores de histórias. Acho que as pessoas que fizeram isso com o Tim, não entenderam. Ele incomodou muito. Eles agiram da pior maneira possível. Mas não dá para se intimidar. Se isso acontece, se você ficar com medo de apurar certas coisas, de investigar tais pessoas, aí não tem muito sentido.

Canal - Um oficial da justiça chegou a precisar de uma autorização prévia para subir na favela onde o Tim Lopes foi encontrado. Como seria possível dissolver essa narcoditadura no Brasil por meio do jornalismo investigativo?

Uchôa - É complicado. Esse esquema todo existe por um motivo muito simples. Onde o Estado formal não está presente, o traficante dita as regras, domina e dita as leis. É exatamente isso. O que você pode fazer é com jeito, de uma maneira segura, sempre, contar essas histórias, mostrar para as pessoas o que está acontecendo em determinado local. Não existe uma fórmula para acabar, não existe uma regra para eliminar. Se nós tivéssemos isso, o Rio de Janeiro não estaria no jeito que está. E a periferia de São Paulo também não.

Na verdade, você lida com as situações e cada uma delas exige de você um posicionamento. Cada história é uma história, cada fato é um fato. Então você se posiciona e trabalha de uma determinada maneira. Com os traficantes, todo cuidado é pouco, é natural, porque eles sabem que estão errados. Nós vamos contar a história ouvindo todos os lados, o bom e o mal. E eles sabem muito bem de que lado estão.

Canal - Você afirmou que os jornalistas investigativos não são super-heróis. Mas você acredita que o jornalista investigativo pode ser considerado um "herói social", no sentido de que ele conta uma história que acaba tendo uma repercussão que vai provocar uma nova reação na sociedade?

Uchôa - Ele é mais um cidadão que contribui. A pessoa que mora na periferia e que está atenta ao seu quadrado, ao seu bairro, à sua quadra, à escola em que trabalha, onde o filho estuda, enfim, essa pessoa também contribui tanto quanto o jornalista. Na verdade, o que fazemos é colocar uma lente de aumento. Cada um com o veículo que trabalha, com suas potencialidades, com suas ferramentas. Nós colocamos essas ferramentas a serviço daquela história para ampliar o foco. É como se a gente colocasse uma lente de aumento mesmo para que isso tenha uma repercussão. E isso é completamente positivo. 

Mas também é positivo aquele cidadão que está atento ao seu bairro e que tenta fazer alguma coisa. Na verdade, nós temos ferramentas mais poderosas do que aquela pessoa. Mas os dois são completamente importantes e fundamentais para que a ordem ali aconteça e esteja estabilizada, para que a história seja contada da maneira correta e devida. Não somos heróis, somos provocadores. Provocamos uma reação. Outras pessoas fora do jornalismo também conseguem isso de uma maneira anônima, silenciosa, mas são tão importantes quanto nós.

                   

criação: lisandro staut