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Daniel Pearl - Mártir da notícia

Neanis Lutzer

Daniel Pearl: repórter investigativo do Wall Street JournalCorrespondente internacional e chefe regional do Wall Street Journal, no Sul da Ásia, Daniel Pearl entrou para a lista dos jornalistas que morreram em busca da notícia. Nascido em Princeton, Nova Jersey, Pearl era um homem inteligente, engraçado e muitas vezes distraído. Com 38 anos, era também um repórter que tentava se manter longe dos riscos. 

Formou-se em Comunicação pela Universidade Stanford. Começou a trabalhar no WSJ como repórter, em Atlanta. Em 1993, mudou-se para Washington para cobrir o setor de transportes, sendo enviado três anos depois para Londres e, logo após, em 1998, transferido para o escritório do jornal em Paris. Em dezembro de 2000, mudou-se para Bombaim, na Índia, onde trabalhou nos dois anos seguintes. Permaneceu no WSJ por 12 anos de sua vida.

Pearl escrevia muito sobre política e economia - assuntos que caracterizavam o jornal -, mas também gostava muito de histórias do cotidiano, retratando sempre o lado humano das pessoas. Escritor, contador de histórias e músico, Daniel era reconhecido também por sua sensibilidade e por ser um homem muito apaixonado. 

Nos últimos meses de sua vida, morou em Karachi, cidade paquistanesa considerada uma das cidades menos seguras do mundo, com a mulher, Marianne, que estava grávida de sete meses. Infelizmente, seu primeiro filho não chegou a conhecê-lo.

O jornalista recebeu a incumbência de investigar ligações da rede Al-Qaeda, de Osama bin Laden, com o terrorista Richard Reid, que levava uma bomba escondida em um sapato durante um vôo comercial da American Airlines, em dezembro de 2001.

Seqüestro e morte

Pearl falou com um oficial da ISI, a agência paquistanesa de inteligência, que o pôs em contato com Ahmed Omar Saeed Sheikh, ligado a grupos extremistas e responsável pelo seqüestro de quatro ocidentais em Nova Délhi em 1994. O jornalista agendou então uma entrevista com Sheikh. Aconteceu o pior: em 23 de janeiro de 2002 foi seqüestrado.

Após a descoberta de seu desaparecimento, as autoridades paquistanesas e americanas juntaram-se para investigar o caso. O sofrimento de sua mulher foi tão grande que ela chegou a se oferecer em troca da libertação do marido. Foram enviados e-mails dos seqüestradores aos meios de comunicação com exigências que se não fossem aceitas colocavam em risco a vida do jornalista.

O grupo que assumiu o seqüestro e se identificou como Movimento Nacional para a Restauração da Soberania do Paquistão, havia exigido melhores condições de tratamento para os prisioneiros detidos pelos Estados Unidos na base de Guantánamo, em Cuba. Queriam que os presos tivessem acesso a advogados e que os de origem paquistanesa pudessem voltar ao seu país.

A polícia paquistanesa intensificou seu trabalho de busca após receber mais mensagens eletrônicas dizendo que o jornalista estava morto. Sua morte só foi comprovada quando uma fita foi enviada ao Consulado dos Estados Unidos com imagens de Pearl sendo executado.

No vídeo, apenas as mãos do assassino aparecem decapitando o jornalista. Antes de morrer, porém, Pearl foi obrigado a pronunciar suas últimas palavras: "Sou judeu."

Cordeiro da vez

"Sua morte foi um tanto macabra", avalia Peter Popham, repórter do jornal inglês The Independent. "O vídeo foi entregue na véspera do feriado muçulmano de Eid. A principal prática desta data é o sacrifício de cabras e carneiros pela degola", explica Popham, confirmando que Daniel foi o cordeiro da vez. O caso se propagou na imprensa paquistanesa e norte-americana, tendo pouca repercussão na mídia mundial. 

Como ocorreu com Daniel Pearl, muitos jornalistas já perderam suas vidas por ignorância do próprio meio jornalístico. Várias mortes poderiam ser evitadas se uma maior atenção fosse dada à segurança do profissional da área.

Daniel Pearl foi um caso de extrema displicência. Sendo judeu, o jornal em que trabalhava poderia ter poupado tal afronta. Num país onde ainda existem conflitos religiosos, era evidente que a segurança do jornalista podia estar comprometida. A justiça paquistanesa anunciou a culpa de quatro réus responsáveis pela morte de Daniel, entre eles, Omar Sheikh, condenado à morte por ser o mentor do crime.

Apesar do caso Daniel Pearl ter sido aparentemente solucionado, o sofrimento de seus amigos e família permanecem.

A pessoas estão tão acostumadas a receber os jornais em casa e ler notícias a respeito de guerras e outros conflitos, que não avaliam o trabalho e o perigo por que passaram o jornalista para angariar um minuto de atenção do leitor. A dignidade de um jornalista está na sua vontade de informar o leitor; dignidade de um leitor é ter em mente que uma das funções do jornalista é buscar a notícia, e não ser o alvo dela.

                                        

criação: lisandro staut