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O povo brada: "Queremos Jesus!"

Fernando Torres

Já se foram os dias de Barrabás. Hoje, se Pilatos ordenasse à multidão que escolhesse entre o salteador e o Cristo, a resposta seria certa: "Queremos Jesus!"

É nessa linha que se orienta Adriano Silva, diretor de redação da revista Superinteressante, da Editora Abril, desde 2000. Além de jornalista, Adriano é publicitário e mestre em marketing internacional pela Universidade de Kyoto. Sob sua direção, a revista só cresceu. Desde então, o periódico abordou com mais freqüência temas de cunho religioso, colocando-os sob um prisma científico. Em dezembro de 2002, a Super veiculou a chamada "A verdadeira história de Jesus", uma suíte da matéria "A Bíblia passada a limpo", de julho do mesmo ano. Ambas alcançaram recordes de venda.

Na entrevista a seguir, Adriano diferencia matérias científicas de religiosas e alega que a Super é uma revista laica, sem qualquer posicionamento e que respeita a inteligência do leitor. Ele também explica por que a mídia explora tanto a imagem de Cristo: o povo pede. Realmente, já se foram os dias de Barrabás.

Canal - Desde que você assumiu a diretoria de redação da Superinteressante, o número de matérias de temática religiosa praticamente dobrou, incluindo questões referentes a Jesus. Religião vende?

Adriano - A capa de Jesus, de dezembro de 2002, bateu o recorde histórico da revista: 220 mil exemplares em banca. A segunda capa mais vendida na história da Super é a da Bíblia, de julho de 2002, com 162 mil exemplares. Mas nenhuma das duas é de religião. Elas são matérias de história, de arqueologia pura. Ou seja, são matérias científicas e não religiosas.

Canal - Por que a imagem de Jesus vem sendo tão explorada pela mídia atualmente?

Adriano - Porque Jesus interessa às pessoas. Quem manda na mídia são seus interlocutores. O dia que os leitores da Super quiserem ler sobre o ciclo de procriação do Ornitorrinco, não terei nada a fazer senão fazer uma senhora reportagem a respeito. Quem escolhe as capas, nas melhores revistas, é o que chamamos de interesse presumido do leitor.

Canal - Ao compor uma reportagem sobre Jesus, o jornalista certamente anexará sua posição religiosa a ela. A matéria não corre o risco de perder a imparcialidade?

Adriano - A posição da Super é não ter posição. A boa matéria, a meu ver, é aquela em que o leitor termina de ler sem saber a opinião pessoal do repórter sobre o tema. O importante é apresentar todos os lados relevantes de um tema, da forma mais justa e equilibrada possível, e deixar o leitor formar a sua própria opinião. É preciso separar bem a opinião da apuração, o artigo da reportagem. A Time faz isso como ninguém. No Brasil, acho que a Super é uma das raras publicações que se preocupam em fazer um jornalismo que respeita a inteligência do leitor.

Canal - Em dezembro de 2002, tanto a Super como a Veja decidiram colocar Jesus em suas matérias de capa. Porém, o que se viu foram dois personagens distintos. Por que isso ocorreu, levando em conta que ambas as revistas pertencem à mesma editora?

Adriano - Não há sinergia editorial necessária entre as revistas da Editora Abril. Todos temos completa autonomia para fazermos as matérias que quisermos, do jeito que quisermos - atendendo sempre às expectativas de seus respectivos públicos. Em assuntos polêmicos, a escolha diferente de fontes, por exemplo, pode direcionar a reportagens com informações diferentes e até mesmo conflitantes. Faz parte do jogo que seja assim.

Canal - A capa da edição de dezembro/2002 trazia a chamada "A verdadeira história de Jesus". As outras histórias não são verdadeiras? 

Adriano - Na confecção de uma capa há, é verdade, um certo espaço para a licença poética. Uma chamada tem que vender a revista da melhor forma possível, obviamente dentro do escopo fornecido pela matéria. Existem as chamadas criativas, agressivas. Outras, bem diferentes, são as chamadas que cometam estelionato editorial - prometer e não entregar. Acho que a Super está longe disso.

Canal - Quando o assunto é religião, a polêmica é certa - o que significa maior número de vendas. Foi o caso da reportagem "A Bíblia passada a limpo", publicada pela Super em julho de 2002, que virou notícia no meio religioso. Isso pode causar declarações deturpadas e sensacionalistas apenas com o fim de polemizar, virar notícia e, claro, vender mais?

Adriano - De maneira alguma. A coisa mais burra que um editor pode fazer é dilapidar a confiabilidade e a reputação de sua revista. É preciso prometer e cumprir, editorialmente falando. E entregar ao leitor a melhor informação possível dentro do diapasão de expectativas que ele tiver. Jamais trocaria o longo prazo da revista por ganhos de curto prazo. Seria atirar nos dois pés.

Na Super, temos leitores que procuram - e acham - pêlo em ovo. No caso da matéria de Bíblia, a maioria das críticas que recebemos tinha cunho religioso. Nesse tipo de terreno a Super não entra: somos, por definição, uma revista laica. Repito: aquela não era uma matéria teológica. Era uma matéria científica.

Canal - Em geral, quando a Super faz uma matéria sobre Jesus, as ilustrações correspondentes incluem pinturas renascentistas e tipos gráficos antigos. Levando em consideração a teoria da semiótica, há o perigo de que as imagens possam formar estereótipos no leitor antes que ele leia a reportagem? Seguindo esse raciocínio, por que relacionar infográficos medievais à figura de Jesus?

Adriano - A função do design é tornar as páginas mais agradáveis. Uma revista tem que ser sexy. Claro que há limites de adequação e propriedade. Mas há também espaço para licenças poéticas. O bom senso aí é fundamental. (E viva Roland Barthes, cujo livro Mitologias foi uma das minhas leituras de cabeceira na época da faculdade!)

Canal - Em seu depoimento no vídeo do CD comemorativo Super 15 Anos, você afirmou que os leitores que interessam à Super são aqueles que têm mente aberta para novos conhecimentos e que colocam à prova aquilo que acreditam. Essa definição de leitor não pode se transformar em uma postura questionadora contra dogmas, crenças e posturas religiosas?

Adriano - A visão questionadora é sempre bem-vinda. Dentro e fora do mundo editorial. É ótimo ter gente curiosa e interessada em saber mais sempre. Gente que não admite dogmas e verdades eternas. Que bom que o mundo tivesse mais gente assim. Disposta sempre a perguntar "por quê?", a questionar antigas convicções.

                   

criação: lisandro staut