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Jesus, um astro na TV

Ana Paula Ramos

Márcio Dias Guarda, pastor há mais de 30 anos e jornalista há mais de 20, é o editor de Mídia Digital da Casa Publicadora Brasileira. Nesta entrevista concedida ao Canal, discorre a respeito da polêmica que envolve as aparições de Jesus na mídia. A partir desse gancho, fala sobre as caricaturas de personagens criadas pela TV e sobre os fenômenos religiosos, como o padre Marcelo Rossi.

Canal - Jesus na mídia é um assunto que levanta muitas polêmicas e vem trazendo muitas mudanças na religião. Que influências você acredita que a mídia tem sobre a imagem de Cristo?

Dias - Jesus Cristo é a personagem mais importante da história universal. Os ensinos de Jesus continuam influenciando o mundo e as pessoas, inclusive quem se diz ateu, materialista ou adepto de religiões não cristãs. Por isso, é natural que as questões, principalmente as relacionadas com o Jesus histórico, sejam sempre consideradas como "pautas quentes".

Quanto a "levantar polêmicas", creio que isso se deve geralmente às abordagens sensacionalistas ou tendenciosas, ou seja, é produto muito mais da forma do que do conteúdo.

Acredito que isso não "provoca mudanças na religião"; a religião não tem origem na mídia e transcende à mídia. Portanto, a influência da mídia se restringe unicamente à forma como muitas pessoas percebem a religião, principalmente aquelas que pouco conhecem a religião ou têm uma prática religiosa superficial.

Canal - Que tipo de imagem de Cristo a TV apresenta para os telespectadores? Esta imagem pode gerar alguma mudança na religião?

Dias - As TVs de orientação não-religiosa apresentam uma imagem distorcida ou incompleta, que pode ser fruto da desinformação, às vezes, insolente por parte dos comunicadores em geral; do preconceito (que, em parte, se fundamenta na mesma desinformação); do potencial lúdico do inusitado ou sensacional, na busca de um "ibope" fácil, etc.

Isso não afeta a religião em si, mas é claro que influi nas opiniões que as pessoas têm sobre a religião (principalmente aquelas que dependem da mídia para formar seus conceitos sobre a religião). Na realidade, a mídia não é uma boa fonte de conhecimento quase de qualquer espécie, muito menos de religião. A mídia (como o próprio nome já diz) é um intermediário e a religião (como o próprio nome define) depende de um relacionamento (no caso do cristianismo, direto com Deus).

Canal - Até que ponto as caricaturas criadas pela TV, como beatos rebeldes, anjos caídos, fanáticos, refletem a realidade? Ao seu ver, quais as razões para a criação destes personagens polêmicos?

Dias - Há uma idéia generalizada de que "notícia boa não dá ibope"; em vista disso, é compreensível a preferência da mídia pelo estranho, rebelde, assustador, fanático, intangível, etc.

Outra razão é a carência natural do ser humano pelo sobrenatural. A forma adequada de preencher essa necessidade é através do espiritual, mas isso não pode ser partilhado por quem não tem, então o que, em geral, a mídia partilha é o misticismo ou a paródia do espiritual. Quem pensa que isso tem algum valor, cedo ou tarde, vai descobrir que esteve se alimentando de palha ou veneno.

Canal - Como você vê a exploração da imagem de Jesus na mídia, que cria fenômenos como o padre Marcelo Rossi?

Dias - Essa é outra característica da mídia: criar mitos. A falência da idéia de que o materialismo, a ciência, seria capaz de fornecer todos os elementos necessários para o bem-estar humano tem feito a mídia se voltar para a religião como outra fonte de mitos. Hoje, os mitos são construídos ou destronados com extrema rapidez. 

No caso de Jesus, a sua permanência e transcendência, através dos séculos, demonstram claramente que Ele não é um mito e independe de qualquer mitificação imposta pela mídia. Aliás, percebo até que isso incomoda um pouco à mídia, feita principalmente por céticos, humanistas ou racionalistas, capazes para manipular tantas coisas, mas impotentes diante dos valores eternos, que são os elementos fundamentais da religião.

Canal - Que tipo de força religiosa emissoras como a Rede Record, mantida pela Igreja Universal, têm sobre as pessoas?

Dias - Ao responder à segunda pergunta, particularizei a situação das TVs de orientação não-religiosa exatamente porque creio que a religião também pode e deve fazer uso dos meios de comunicação de massa. Note que isso é exatamente o inverso do que estivemos discutindo até a pergunta quatro: a mídia usando a religião. Acho que o correto e lícito é a religião se utilizar da mídia. 

É claro que os meios atuais facilitam tremendamente o acesso às pessoas. A mídia em si não tem que alterar ou influir sobre a religião. Como qualquer instrumento, depende das pessoas que o utilizam, por isso, um meio tão poderoso como a TV, dirigia por pessoas bem esclarecidas e dedicadas a Deus pode realizar um bem enorme.

Canal - Existem vantagens na criação de uma TV mantida por uma religião?

Dias - Se houvesse menos preconceitos e tentativas de manipular conteúdos nas TVs comerciais, creio que o melhor seria utilizá-las prioritariamente para divulgar a religião. Mas como esses óbices são extremamente poderosos, resta à religião a alternativa das TVs denominacionais, que geralmente vão ter um alcance mais limitado com custos possivelmente mais elevados.

                                        

criação: lisandro staut