editorial | ombudsman | especial | imprensa
mídia  | cultura | perfil | nostalgia | opinião
  em tempo | olho vivo | leitor | e-mail | expediente
anteriores | próximas edições | inicial

O observador da imprensa *

Rômulo Gomes

Foto/Jornal do BrasilNascido no dia 19 de fevereiro de 1932, no Rio de Janeiro, Alberto Dines, 71, é uma das mais proeminentes personalidades do jornalismo atual. Atua como jornalista desde 1952, sendo que sua principal característica é a crítica feita à própria mídia. Tal fato se justifica por ter realizado trabalhos como a criação da coluna "Jornal dos Jornais", na Folha de S. Paulo, o livro O Papel do Jornal, e o site e programa Observatório da Imprensa.

Mas nem só de crítica de mídia viveu Alberto Dines. O jornalista teve uma vida cultural bem eclética, o que lhe rendeu maturidade para seu envolvimento com media criticism. Aos 14 anos, por exemplo, Dines deixou a escola para militar no Movimento Socialista Sionista, ligado ao Partido dos Trabalhadores do Sion na Palestina.

Cinéfilo por natureza, Dines era muito amigo do cineasta Alberto Shatovski, desde quando estudava no colégio Andrews, no Rio de Janeiro. Tal envolvimento fez com que o futuro observador passasse horas em bibliotecas tendo contato com música erudita. Escreveu vários roteiros, como o de O Craque, com Carlos Alberto e Eva Wilma, e dirigiu alguns documentários. Dines chegou à imprensa como crítico de cinema de A Cena Muda.

Foi repórter cultural em Visão, editor em Manchete, e, a convite de Samuel Wainer, obteve sua primeira experiência com jornal; dirigiu a edição matutina da Última Hora. Dines, porém, estreou mal no jornal Última Hora: colocou uma foto de um imenso navio na capa do jornal e escutou de Wainer, que visitara o jornal naquele dia à meia-noite, que "aquilo não era uma revista". Foi demitido.

Em seguida, no início dos anos 60, Dines trabalhou com Assis Chateaubriand, no Diário da Noite (carioca). Mais uma vez, teve problemas. Ao reportar várias vezes o seqüestro do navio lusitano Santa Maria, por anarquistas e trotskistas em protesto à ditadura do português Antônio Salazar, foi demitido.

Após o ocorrido, trabalhou para Adolfo Bloch na revista Fatos & Fotos. Em 1962 José Antônio do Nascimento Brito, dono do Jornal do Brasil o convidou para dirigir o veículo. Dines aceitou a função, mas impôs uma cláusula: conciliar o trabalho do jornal com o da revista.

Em 1964, o jornalista fez um curso de três meses realizado no World Press Institute, na Universidade de Columbia. Lá, conheceu várias personalidades do jornalismo sul-americano que enriqueceram seu aprendizado. Quando voltou, consolidou-se no Jornal do Brasil, tornando-o muito prestigioso. Dez anos depois, tornou-se professor convidado da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos por estar sob uma espécie de exílio profissional. Também foi professor da PUC, onde criou a cadeira de Jornalismo Comparado.

Precursor do media criticism

Dines foi um dos responsáveis pela reestruturação do JB. Porém, segundo Mário Sergio Conti, em seu livro Notícias do Planalto, após 12 anos de trabalho como editor-chefe deste jornal, Dines e Brito, já estavam "cansados" um do outro. 

Numa reunião quinzenal na mansão de Brito, em dezembro de 1973. Dines foi despedido. Era acusado de ser o "chefe da indisciplina na redação", pela criação de reuniões entre os integrantes da redação, onde um criticava livremente o outro. Ele também foi um dos criadores do "Caderno de Jornalismo e Comunicação" do JB. Baseado em um projeto realizado nos Estados Unidos, o caderno discutia o modo de se fazer jornalismo.

Antes de dirigir a sucursal da Folha no Rio de Janeiro (de 1975-1980), Dines escreveu o livro O Papel do Jornal. E foi na Folha que ele inaugurou a coluna "Jornal dos Jornais", de 1975 a 1977. O projeto não foi exatamente um sucesso. Os tempos eram outros e o próprio Dines não tinha maturidade suficiente para criticar a mídia de forma ética. (
saiba mais)

Todas estas experiências foram fundamentais em sua sistematização de media criticism e para a criação do Observatório. O principal alvo, segundo ele em entrevista para a revista Reescrita, é "o sistema", o qual jornalistas e leitores não podem mudar. Ele afirma que o "Jornal dos Jornais" era algo além do que faz o ombudsman, conceito que não existia na época. Era a primeira coluna de crítica à imprensa no Brasil e o início do seu trabalho como crítico de mídia.

Enfim, o Observatório

Depois da experiência com o "Jornal dos Jornais" e como docente da PUC, bem como o embasamento cultural adquirido em contextos acadêmicos e profissionais, Dines estava pronto para criar o Observatório da Imprensa, em 1996. A idéia surgiu a partir do sucesso conseguido com o Observatório português em associação com o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Um dos principais objetivos era atuar junto à sociedade, fazendo com que ele discuta, observe e questione os assuntos relacionados à mídia. (
saiba mais)

Sendo este, seu trabalho mais representativo de seu idealismo como jornalista, Dines conseguiu um feito inédito. A iniciativa online transportou-se para a televisão, sendo exibida nos canais TVE, TV Cultura e Rede Minas. O programa estreou em 5 de maio de 1998.

O Observatório, tanto na internet como na TV, sucede as duas etapas realizadas pelo Labjor (a docência de cursos de pós-graduação e especialização e a criação de projetos e programas de treinamento voltados para o mercado de trabalho). No site, os debates são feitos de forma aberta e passíveis a todas as interpretações possíveis, desde que não "ofendam".

Com certeza, o principal ícone do Observatório é Alberto Dines, não importa o quanto ele tente deixar de transparecer. "Não é personalizado, não sou eu. Eu dou a minha opinião. Existem dez, vinte, trinta pessoas fazendo isso também", declarou ele em entrevista já citada. Para ele, tudo deve ser passível à análise do jornalista, que deve ser um "analista da sociedade, capaz de ver o que está certo e o que não está".

De fato, o postulado de Alberto Dines merece ser lembrado e reconhecido por todos os que zelam pela imprensa. Aqueles que não temem promover e observar a transparência da mídia.


* Os dados históricos deste artigo basearam-se em trechos do livro Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, e nas entrevistas concedidas por Alberto Dines à revista Reescrita (ECA-USP), em 1999, e aos organizadores do projeto "Memória da Imprensa Carioca", da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), em 2002

                    

criação: lisandro staut