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"Eu não sou fútil"

Fabiana Amaral

Maria Cândida é jornalista há 11 anos, formada pela PUC-SP. Há oito trabalha em televisão, mas começou sua carreira como estagiária na coluna Informe JB, no Rio de Janeiro. Depois passou a rádio-escuta no mesmo jornal. Trabalhou também no Jornal da Tarde e Veja São Paulo. Passou, mais tarde, pela Rede Record como repórter e apresentadora do Informe SP.

Em 1995, convidada para trabalhar na Rede Globo, foi repórter de todos os telejornais e do Fantástico. Apresentou o Globo Rural por dois anos, passando, inclusive, por garota do tempo.

De lá, foi para o SBT, emissora em que atua como repórter e eventual apresentadora do SBT Repórter e repórter especial do Domingo Legal. Ela denomina seu trabalho como "jornalismo show".

Com tanta experiência no meio televisivo e conhecimento na área, Maria Cândida concedeu esta entrevista ao Canal, falando sobre a fusão entre jornalismo e entretenimento.

Canal - Você classificaria as reportagens feitas no Domingo Legal como jornalismo ou de entretenimento?

Maria Cândida - No Domingo Legal existem vários tipos de reportagem. Temos desde o helicóptero que cobre hardnews até matérias dentro de reality shows, como fizemos no "Quer Casar Comigo?". No meu caso específico, porque falo por mim e não pelo programa, faço o que chamam hoje de "jornalismo show". Uma mistura de entretenimento, turismo, cinema e variedades. Isso não me descredencia para cobrir hardnews, como fiz no 11 de setembro. Fui para Nova York para ver de perto a realidade americana depois de um ano.

Portanto, com experiência, o jornalista pode fazer qualquer coisa. Jornalista é jornalista em qualquer cobertura. Por exemplo, cobri a Festa do Oscar, que é entretenimento, com tanto cuidado, com tantas informações, quanto a Guerra no Iraque. Com o tempo e com sorte, o jornalista pode optar pelo tipo de matéria que prefere fazer. No meu caso, às vezes faço mais entretenimento puro, outras, como no Marrocos, faço mais turismo e variedades. "Jornalismo show" é o termo usado desde a época em que eu fazia documentários para o SBT Repórter.

Canal - Existe no meio jornalístico televisivo uma hierarquia quanto aos tipos de matérias, como diferenciar a competência de alguém que cobre uma guerra e quem cobre uma festa?

Maria - Na época em que eu comecei a trabalhar, o repórter começava na editoria Geral. Isso ainda acontece no jornalismo impresso. O dia-a-dia ensina muito. Na minha opinião, você deve ficar pelo menos dois, três anos cobrindo buraco de rua, o factual, para aprender a apurar direito, enfrentar a pressão do deadline e fazer algumas fontes.

No jornalismo televisivo, geralmente as pessoas começam na pauta, produção, para depois virarem repórteres ou editores. Esses são os primeiros passos. Depois de um bom tempo cobrindo tudo, o repórter vai perceber o que faz melhor, o que dá mais prazer, o que realmente o satisfaz. 

A partir desta descoberta, são muitos anos lutando para fazer uma coisa só. Se você gosta de fazer documentários, deverá sair do dia-a-dia e tentar entrar em um programa tipo Globo Repórter ou SBT Repórter. Só que essa passagem é muito lenta e difícil. Geralmente a transferência acontece por mérito e não pela escolha do repórter, a não ser que ele produza um material independente.

O repórter que cobre uma guerra, com certeza é mais experiente que um do dia-a-dia. Na minha opinião, ele não necessariamente é melhor que um outro que cobre o Oscar. Existe uma tendência um pouco arrogante de achar que o cara que vai para a guerra é mais sério, inteligente e melhor profissional do que o que vai para o Oscar, portanto é mais respeitado. Eu não concordo com isso. Quem é bom faz qualquer coisa. A Fátima Bernardes cobriu a Copa e apresenta o Jornal Nacional. Fez as duas coisas muito bem. Você deve impor o seu valor e isso o tempo dirá, a sua trajetória.

Canal - Nos bancos da faculdade é costume taxar as matérias feitas sobre eventos sociais, promocionais e outras do gênero de programa de auditório de inúteis e não jornalismo. O que você pensa a respeito?

Maria - Eu já respondi alguma coisa nas duas anteriores. Mas voltando ao assunto, não concordo. Tudo depende do enfoque, do programa, do repórter, da edição. O entretenimento é tendência que veio dos Estados Unidos. E lá, eles sabem fazer. Aí está a diferença! Muitos programas brasileiros não sabem fazer entretenimento com qualidade.

Se você fizer uma pesquisa nas maiores redes americanas, ABC, CBS e NBC, vai perceber que a partir das seis da tarde a grade semanal é: um jornal tipo JN, um programa de entretenimento na faixa das 19 horas e sitcoms. Depois vem um documentário, tipo 48 Hours e um jornal das 23 horas. O entretenimento tem muito espaço no horário nobre nas TVs abertas. E mais: os programas jornalísticos da manhã têm muito "jornalismo show" e prestação de serviço com saúde, moda, literatura, cinema e turismo.

Canal - Já ouvi "boatos" de que você queria se tornar apresentadora de televisão. Isso é verdade?

Maria - Eu sou uma apresentadora de TV. Comecei como rádio-escuta no Jornal do Brasil e depois de muitos lugares e funções virei repórter de TV. Já apresentei o Informe SP, na Record, o SPTV, o Globo Rural, o quadro do tempo no JN, o SBT Repórter, o Jornal do SBT e estou à disposição da empresa para outras funções na apresentação.

Meu objetivo agora não é a apresentação de um jornal, tanto que não tenho feito isso, mas tudo que tem mais a ver com a linha show da casa. Você deve ter ouvido que eu quero ter um programa meu. Isso sim! Gostaria muito de ter um programa, em que eu poderia unir as duas coisas: apresentação, reportagens e experiência.

Canal - Na sua opinião a ascendência de repórter a âncora é um caminho natural de um jornalista badalado?

Maria - Não sei se é o destino do repórter ser um apresentador. Tenho muitos amigos que não querem ter programas. O meu caminho está sendo esse e acredito muito que, com o tempo, terei o meu programa. Como disse antes, a pessoa tem que correr atrás e fazer acontecer, mesmo que demore um pouco.

Canal - Qual são os maiores prejuízos e benefícios de misturar o jornalismo com entretenimento? É natural e indiscriminado o uso de um pelo outro e vice-versa?

Maria - O prejuízo é gente despreparada fazer por achar que entretenimento não tem informação. O benefício é que quando existe qualidade, temos a chance de entreter informando, o que é maravilhoso. Além de abrirmos um novo campo para nós mesmos, jornalistas.

Canal - Afinal de contas, a programação da televisão brasileira é de baixo nível ou só retrata uma cultura, uma sociedade?

Maria -
A audiência reflete o que o público está querendo assistir. Infelizmente muitas coisas de péssima qualidade ainda têm audiência. Claro que não podemos apresentar um documentário "cult" numa TV aberta. O telespectador do sertão nordestino, analfabeto, não vai entender nada. Isso não quer dizer que temos que oferecer "lixo" para ele. 

Por exemplo, quando fui para o Marrocos, tentei mostrar o país de uma forma bem simples. Muita gente humilde me parava na rua para falar que tinha adorado e que sentia falta de matérias de viagem como aquela. Esse telespectador não tem dinheiro para viajar e quer assistir coisas diferentes. Mas a TV não dá muito espaço por ter medo de não dar audiência.

TV aberta hoje precisa ter patrocínio, comerciais, para sobreviver. As fórmulas que estão aí ainda dão audiência. Por isso, ninguém muda nada. Mas quando o telespectador cansar e desligar a TV, algo precisará ser feito.

Canal - É correto pensar que o futuro da televisão é mais de entretenimento, com pouca informação?

Maria - TV sempre foi mais entretenimento. Novelas, filmes, programas de auditório...

Canal - O fato de colocar celebridades na função de repórter, como em vários programas, atrapalha a concepção do que é jornalismo?

Maria - Particularmente, sou contra colocar celebridades nesta função. Mas não existe mais respeito e temos que lidar com o fato. Até as faculdades gostam de ter essas celebridades momentâneas no quadro de alunos. É facílimo entrar em uma faculdade. Agora, essas pessoas não conseguiriam cobrir algo mais consistente e a própria direção veria isso.

                   

criação: lisandro staut