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Ainda temos David Nasser?

Leandro Oliveira

Nascido no interior de São Paulo em 1.º de janeiro de 1917, David Nasser teve uma infância difícil. Passando a morar em São Lourenço, Minas Gerais, sempre teve que trabalhar para conseguir estudar. Ao completar 13 anos, Nasser mudou-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceu até sua morte, em 1980.

Sua trajetória profissional apresenta pontos interessantes, como a idade em que começou a trabalhar em jornal, aos 18 anos. Isso lhe proporcionou traçar uma importante e histórica passagem no jornalismo brasileiro. Nasser também é lembrado como um excelente escritor e letrista, tendo como especialidade o samba.

Mas quem se lembra de David Nasser dificilmente deixa de prestar atenção ao lado negro de sua carreira. Este lado profissional foi o tema do livro Cobras Criadas, escrito por Luiz Maklouf Carvalho. Com um trabalho incluindo muitas pesquisas e investigações, Maklouf mostra Nasser e sua trajetória dentro da revista O Cruzeiro.

Nasser passou por muitas dificuldades, pois teve origem humilde. Mas se tornou um dos jornalistas mais importantes da imprensa brasileira nas décadas de 50 e 60, sendo citado até hoje. Seus limites de influência não se barravam na redação da revista O Cruzeiro. Ele possuía um poder incrível dentro da política nacional, devido à sua arte de falar, escrever e divulgar suas idéias.

Seus contatos iam dos simples informantes ao Presidente da República. "Uma de suas jogadas fez de Delfim Netto ministro. Nasser indicou Delfim ao presidente Costa e Silva para participar de seminários no Rio, nos quais se discutia a economia no País", revela Maklouf em Cobras Criadas

Em contrapartida, "o jornalista teve forte atuação no lobby da categoria (musical), em busca de isenção fiscal, à exceção do imposto de renda, obtida durante o governo Costa e Silva, com o beneplácito do ministro da fazenda, Delfim Netto", comenta Maklouf na mesma obra.

Falsa morte

Uma de suas grandes especialidades, a política, atraía cada vez mais simpatizantes quando escrevia. Entre eles, o ex-ministro Mário Andreazza, para o qual redigia, e obtinha informações confidenciais do governo.Os textos produzidos por David Nasser, dificilmente não se tornariam tema para discussão nacional no dia seguinte.

A exemplo, a falsa matéria publicada em 6 de maio de 1944 em O Cruzeiro, intitulada de "A vida dos mortos". Assim dizia: "Morreu Jean Manzon! Atropelado por uma auto na avenida Atlântica. Um carro em disparada atropelou o repórter Jean Manzon. Em estado desesperador, a vítima foi levada ao hospital Miguel Couto, onde, pouco antes de morrer, pediu ao médico que o assistia para que os seus amigos o enterrassem com sua máquina".

Continua. "O féretro saiu da residência do extinto, à rua Bolívar, para o cemitério São João Batista. Não houve discursos, mas duas mulheres foram vistas chorando sobre o túmulo. Uma delas era a cozinheira que o servia há três anos". 

O início desta matéria publicada na revista comoveu grande parte dos leitores, fazendo que enviassem telegramas de condolências para pessoas próximas a Manzon. Entre eles, o presidente Getúlio Vargas, alvo constante de Nasser e Manzon. Vargas chegou a mandar até algumas coroas de flores para o túmulo.

Mas o que poucos desconfiavam é que atrás de sua influência e qualidade, fatos importantes eram encobertos por esse repórter envolvido em grandes controvérsias devido ao que escrevia e às intrigas que arrumava. 

Seu jornalismo de duas faces conseguiu enganar a muitos e manter muitas amizades, além de fazer sua ilustre trajetória. Apesar de tudo que sabemos sobre Nasser, é injusto acusar de falta de credibilidade somente a ele e seus fotógrafos. Todo o corpo editorial da revista O Cruzeiro, comandada por Assis Chateaubriand, teve sua parcela de culpa (
saiba mais).

O repórter, apesar de sua influência dentro de um contexto do cenário nacional, nunca poderia ter autonomia para escrever e pôr o que achasse melhor em uma revista como O Cruzeiro. Mas ele só escrevia por que era autorizado. Era evidente que as vendas aumentavam. Havia um público formado, enganado com estas historinhas chamadas carinhosamente por David Nasser de "reportagens ficcionistas". 

Para estudantes e profissionais do jornalismo, a biografia de David Nasser deve servir apenas como o bom exemplo a não ser seguido. Mesmo assim, muitas redações ainda escondem muitos David Nasser.

                                        

criação: lisandro staut