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O outro lado do poder

Fabiana Amaral

Paulo Moreira Leite é jornalista e atual diretor de redação da revista Época, da Editora Globo. Ele trabalhou por 17 anos na revista Veja, passando por quase todas as editorias e terminando como redator-chefe. Antes de ser cotado pela Época, então com três anos de vida, trabalhou como correspondente nos Estados Unidos para a Gazeta Mercantil. Com a autoridade de quem conhece a imprensa brasileira e ganhador de três prêmios Esso de jornalismo - em equipe -, ele fala sobre jornalismo em revista, parcialidade e poder aos leitores do Canal.

Canal - A revista Época, em sua campanha de lançamento, se colocava como a sucessora da revista Veja, fazendo alusão a outras revistas que foram superadas em determinado período. Hoje, porém, Veja continua sendo a revista de maior tiragem no Brasil. O que mudou em relação à campanha? É ainda o objetivo da Editora Globo que a Época venha a ocupar o lugar da Veja

Leite - Minha avaliação é que hoje Época se tornou a melhor revista semanal de informação do País. Estamos longe da perfeição, precisamos fazer diversas melhorias, mas estamos à frente das demais pela qualidade de nossas reportagens, pela independência de nossas análises, pela capacidade de sair na frente. Em geral, as reportagens de Época repercutem mais, influenciam mais, provocam mais. Para dar um exemplo: as revistas semanais deram três grandes furos na campanha presidencial de 2002. Época publicou dois.

Levantamentos de leitura do Marplan mostram que nós ganhamos leitores, enquanto as outras revistas ficaram paradas ou até perderam em termos relativos. Isso demonstra que, com muito esforço, enfrentando dificuldades imensas, estamos conseguindo mostrar aos leitores a qualidade de nossa revista, ponto de partida para outros avanços. É com satisfação que posso ler nos concorrentes reportagens que publicamos com várias semanas de antecedência.

Temos de melhorar muito, é verdade, mas estamos no caminho certo. Tanto que há anos somos a segunda revista, pelo critério de circulação, embora Época tenha sido lançada há apenas cinco anos (1998). Nenhuma concorrente tem menos de 25 anos na praça. 

Canal - Dentro de um grupo grande e poderoso como as Organizações Globo, qual o real poder de fogo de uma revista semanal como a Época?

Leite - As Organizações Globo não constituem um grupo unificado, com um comando central e planejamento que todos seguem à risca. Como todo grupo de comunicação, tem princípios e valores, mas é bom saber que ali funcionam empresas separadas, com histórias diferentes e condição econômica diversa. Tenho certeza que Época é uma publicação importante dentro das Organizações, ainda mais no Brasil, onde as revistas semanais têm uma força que não se vê em outros países, nem nos Estados Unidos. Mas se você prestar atenção irá reparar que nossas reportagens repercutem mais no programa do Gugu, que é do SBT, do que no Faustão, que é da Globo.

Canal - Atualmente, o que se vê é a imagem tomando a frente, principalmente em revistas, sendo o chamariz e principal fonte de informação. Como o poder da imagem é tratado em Época e como você vê a supremacia da imagem, muitas vezes em detrimento do texto?

Leite - Discordo dessa avaliação. A principal fonte de informação das revistas semanais é a notícia, em especial notícias exclusivas. As imagens - como boas fotos - são importantes como ilustração, como um fator a mais na decisão de comprar ou assinar uma revista. Mas o leitor compra conteúdo.

Canal - Nos bancos universitários, prega-se o fim do lide e de informações rápidas ou notícias propriamente ditas em veículos impressos, principalmente nas revistas. A regra é adotar a "interpretação" da notícia. Essa tendência é verdadeira? Se for, quais suas vantagens e desvantagens?

Leite - Penso que não é uma tendência verdadeira. Uma matéria bem escrita é uma matéria com senso de hierarquia: você coloca o mais importante no começo e assim por diante. Quando mais cedo o leitor perceber o que você tem para entregar, mais estimulado ficará para ler sua matéria até o fim. A não ser nossos parentes, ninguém tem paciência de ir até a última linha do último parágrafo para descobrir uma idéia genial.

Canal - Normalmente são atribuídos aos veículos das Organizações Globo certa parcialidade e comentários do gênero, rótulo criado devido às eleições de 1989. Todavia, nessas eleições, a revista Época chegou a ser considerada pelo Instituto Brasileiro de Estudos da Comunicação (Ibec) a que melhor cobriu as eleições. Como se deu esse reconhecimento? 

Leite - Nossa cobertura em 2002 foi exemplar. Tentar ser imparcial é um desafio imenso. A maioria das pessoas imagina que uma revista imparcial não desagrada ninguém, mas ocorre justamente o contrário. A imparcialidade é uma guerra contra todos - porque todo candidato quer que você seja parcial a favor dele. Uma hora você desagrada X, depois, Y, depois Z, porque sempre está publicando notícias que ferem interesses e críticas que nem todo mundo queria que fossem divulgadas. 

Passamos o ano de 2002 sob grande pressão de candidatos. Até jornalistas sem preparo chegaram a escrever bobagens, quando tomavam um furo e não conseguiam saber o que tinha acontecido. Mas no final houve o reconhecimento geral por nosso trabalho e isso é o que importa. 

Canal - Certa revista, comandada por um italiano, se proclamou em alto e bom som partidária de um candidato. Afinal de contas, essa atitude é honestidade para com o leitor (que sabe sempre haver uma predileção) ou vai contra as regras do bom jornalismo?

Leite - A imprensa que vale à pena ler precisa ser livre. Carta Capital anunciou apoio ao Lula e O Estado de S. Paulo definiu apoio a José Serra. Se uma revista - ou jornal - tem preferência por determinado candidato e resolve dizer isso para seu público, parabéns. Se tiver essa preferência, mas não quer dizer, tudo bem. Não acho que é uma questão de honestidade, de moral, mas de engajamento político.

A imprensa pode preferir um candidato e achar que tem o dever de pedir ao leitor que vote nele. Mas também pode achar que deve guardar sua opinião para si. Também pode pensar - por que não? - que os candidatos se equivalem nos efeitos e virtudes e não apoiar ninguém. Achar que todo veículo sempre tem uma predileção escondida é acreditar numa suposição que nem sempre é verdadeira.

Canal - A imprensa utiliza uma hierarquia para classificar as revistas brasileiras? 

Leite - Se você quer saber como eu classifico as revistas, diria que Época está em primeiro lugar.

                   

criação: lisandro staut