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Nelson Rubens - Uma questão de grandeza

Débora Carvalho

Nelson Rubens: "Eu aumento e invento."
A sociedade de massa tem fome e sede de notícias. Poucos gostam de conhecer a História Geral, dos personagens que mudaram o mundo. Mas as fofocas sobre a vida íntima de artistas têm seu público fiel. São os chamados fãs, que se alimentam das atividades e questões mais triviais da vida pessoal do artista. Esse público, sedento por "notícias quentinhas", garante a pessoas como Nelson Rubens, consagrado fofoqueiro, um lugar ao sol. Mas será que esse sol não é quente demais?

Nelson Rubens nasceu no interior de São Paulo, em Guararapes. Como não passava no vestibular para Direito, resolveu trabalhar. Seu primeiro emprego foi no Banco Francês e Brasileiro, na capital. Então, surgiu uma oportunidade para trabalhar com jornalismo na Folha de S. Paulo cobrindo turfes. Em seguida, começou a falar sobre a televisão e os bastidores, no extinto jornal Última Hora, quando trabalhou em diversas colunas sobre gente. Daí sua fama de fofoqueiro.

O fofoqueiro foi jurado do Programa do Chacrinha e do Show de Calouros. Passou pelo Aqui Agora, do SBT, e atualmente trabalha no Note e Anote, da TV Record, na Rádio Record e na revista Amiga. Ele confessa que "aumenta", mas afirma que "não inventa". Será?

Nelson acredita que a fofoca no Brasil é séria e digna de crédito desde 1979, quando assumiu o personagem. Afirma sentir orgulho do que faz. Quem já trabalhou com o fofoqueiro, conta que ele tem muitos processos em andamento. Nelson nega: "Não fui acusado de falar uma fofoca errada, até porque procuro checar bem o que vou falar ao vivo..." Segundo ele, se acontecer isso, é só corrigir. Mas será que os atores, fora de cena, concordam com isso? Se é mesmo assim, qual a razão dos processos?

Para Paulo Stein, ex-diretor da revista Contigo!, quando o artista está em início de carreira, ele só quer aparecer. "Ele se deixa inventar", e até "liga" para esses profissionais de "fofoca" avisando que estará em determinado lugar e quer cobertura. Quando o artista ganha espaço, ele já não quer mais aparecer, ser tão visado. Exige ser levado a sério, ter seu trabalho reconhecido e não tanto sua pessoa. Ao alcançar a glória, ele passa a ter sempre muita pressa, não tem tempo pra responder perguntas, e processa o "jornalista" que publica alguma inverdade sobre a sua pessoa. Sua agenda só tem espaço para programas mais elitizados.

Stein explica que é justamente nessa fase de glória que o artista acumula fãs, e estes querem saber tudo sobre ele. Os fãs não querem saber apenas da personagem. Além de admirarem o trabalho artístico, querem saber sobre as coisas mais íntimas da pessoa fora de atuação. Por isso, os "jornalistas de gente" precisam correr atrás dessas informações, para manterem o público. "Se o fã não encontra o que ele quer saber sobre seu ídolo na revista, ele passa a comprar outra". Daí a necessidade de o "repórter" ficar de plantão, simular matérias, entrar de bico, procurar "fontes" para contar o que os fãs querem saber. Isso quando não "inventam" - o que ocorre quando se tem "apenas uma frase de informação, e se publica uma página inteira" com as inferências a partir dessa frase - conclui Stein.

Os mais intelectuais podem torcer o nariz, mas há quem elogie o trabalho de Nelson Rubens. "Gostaria de parabenizar seu trabalho, pois profissionais do seu ramo muitas vezes gostam de prejudicar os famosos, mas você não. Parabéns!", foi um dos elogios que Nelson recebeu num chat do Portal Terra. Quanto a essa questão de não prejudicar o artista, Paulo Stein afirma que "o fã não gosta de ouvir falar mal do ídolo, mesmo que seja verdade".

As principais fontes de "notícias" de fofoca estão nos bastidores freqüentados pelos artistas, e também podem ser um garçom, um colega jornalista, uma produtora, ou até mesmo um outro artista que resolve "destilar o seu veneno sobre o coleguinha", conta Nelson Rubens.

Legitimando suas atividades, Nelson Rubens diz que "no fundo todo jornalista é fofoqueiro", e que no seu caso, "a fofoca é o outro lado da notícia". Defende-se argumentando que até mesmo os grandes telejornais "trazem notícias com sabor de fofoca", como fez o Jornal Nacional que dedicou dez minutos para a notícia do nascimento da filha de Xuxa. Ele diz que não se sente discriminado. Então, qual a razão de tanta justificativa? Qual o objetivo da tentativa de legitimar seu "jornalismo"?

Conforme Nelson Rubens, ninguém o suborna para não soltar uma fofoca. "Já sou muito bem pago para fazer o meu trabalho", completa. "Muita gente liga dizendo que tem uma fofoca" e quer saber quanto ele pagaria por ela. Mas ele não paga. Sua relação com esses demais fofoqueiros é de professor-aluno, com quem diz também aprender. É claro que fofocar.

Se Nelson Rubens é fofoqueiro de verdade, fora da "profissão", sua esposa e filhos talvez possam responder. Paulo Stein, que já foi seu colega, conta que ele misturava as atividades profissionais no ambiente de trabalho. Talvez seja uma questão de hábito, não? 

Para os estudantes de Jornalismo, refletir sobre o atual nível de notícias dos telejornais, como mencionou Nelson Rubens, é frustrante. O estudante acredita que jornalismo de verdade é anunciar o que importa, o que pode mudar o mundo. É fazer a diferença, anunciar a informação que pode melhorar a sociedade. É discutir idéias, fazer História.

Cabe aqui o antigo pensamento: "Grandes pessoas discutem idéias, pessoas medíocres falam sobre coisas; pessoas pequenas conversam sobre pessoas". Afinal, que atividade jornalística é realmente digna de orgulho? Está na hora de Nelson Rubens rever os conceitos e funções da notícia.


                                        

criação: lisandro staut