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Ex-diretor
da Contigo! revela os bastidores
Diogo Cavalcanti
Paulo Stein nasceu em Artur Nogueira, mas ainda pequeno mudou-se para Limeira a fim de estudar. Amante da
arte, seguiu mais tarde para São Paulo, onde fez diversos cursos em teatro, literatura, história da
arte e música. Escritor, possui um livro de poesias e várias antologias publicadas, além de um livro de contos, que será lançado em breve.
Stein acumulou ampla experiência na
Editora Abril como repórter, redator, editor e, por 15 anos, diretor da revista
Contigo! - de 1978 a 1993. Foi convidado pelo Canal para falar sobre "liberdade vigiada".
Canal - Fale de sua trajetória na Abril.
Stein - Minha entrada na Abril aconteceu em 1961. Recém-chegado a São Paulo, procurei uma agência de emprego da Xavier de Toledo e recebi uma carta endereçada a
Saib (empresa que me pareceu árabe). Dirigi-me até lá, sendo recebido por Mariano Cioccoloni, diretor administrativo da empresa. Recebi o cargo de auxiliar de administração. Trabalhei até 1965 e pedi demissão. Voltei para minha cidade
natal, Artur Nogueira.
Em 1968, novamente em São Paulo, e sem emprego, fiz um teste vocacional. Resultado: jornalismo. Voltei ao meu antigo chefe. "Quero voltar a trabalhar na Abril," disse-lhe, "mas não aqui, em alguma revista". Pediu-me para falar com Luigi Carta, então segundo cargo da
empresa. Este me mandou falar com Caetano Gherardi, diretor de redação da
Intervalo. Contei-lhe minha intenção. Deu-me, de cara, uma tarefa: matéria com
Antônio Marcos, em início de carreira, em São Miguel Paulista.
De volta à redação, entreguei o texto, fui aprovado. Pouco tempo depois, ao fazer uma matéria sobre Roberto Carlos, Wanderléia e Erasmo, o chefe da redação, Carlos Coelho, quis me promover a redator. Não aceitei. Disse estar muito verde ainda, um novato, um foca. Continuei na reportagem por alguns meses ainda. Por fim, aceitei a promoção e passei a redator. Pouco depois, a editor. Em seguida, a redator-chefe e, por fim, a diretor de redação. Estas últimas fases já na revista
Contigo!. Foram quinze anos de direção. Época de muito aprendizado.
Canal - O que era pauta na revista Contigo!? O que não era?
Stein - A pauta centralizava-se em novelas. A Globo nos cedia os capítulos da semana que eram lidos por vários
redatores. Estes centravam o assunto mais importante e desenvolviam o texto. Se não houvesse um fato de atualidade mais importante, era da novela que
saía a capa. Também entravam na pauta entrevistas com artistas, perfis, shows, cinema, etc. E havia amenidades: horóscopo, cartas de leitores, culinária, saúde, além de colunas sobre economia, psicanálise, fofocas, etc.
Na abertura da revista, no painel "Flagra", apresentávamos flagrantes por nossos fotógrafos do Rio e de São Paulo. Era a sessão mais divertida, depois de
"Fotofofocas", onde, sobre fotografias (particularmente de políticos), criávamos charges, piadas, etc. Esta sessão era a última a fechar, junto com a capa. Por volta das cinco e meia da tarde das sextas-feiras, Alberto
Dines, meu superior, dirigia-se
à minha sala e dava o comando: "Vejamos capa e "Fotofofocas". Era meia hora de divertimento e, muitas vezes, gargalhadas. Findo isso, detalhes finais, arte e gráfica. Fim de expediente.
Canal - Como geralmente os repórteres conseguiam as informações?
Stein - As informações para qualquer revista de variedades, artistas, gente, esporte, ou mesmo política, são colhidas em bastidores. Seja na tevê, na indústria fonográfica, no futebol. É lá que está a matéria-prima. No caso específico da
Contigo!, os bastidores eram a mina de ouro para a realização de futuras entrevistas, perfis, artistas na intimidade, etc. Coxias dos programas musicais,
festivais e afins. É lá que se mantém contato com quem interessa, o próprio artista, empresários, divulgadores.
Certa vez me foi dada a incumbência de fazer uma reportagem sobre uma possível gravidez de Nice, mulher de Roberto Carlos. Preocupado, me dirigi ao prédio onde ele morava, em Higienópolis. Perguntei ao porteiro em qual apartamento ele morava. Informou-me que Roberto não permitia entrada de estranhos pela porta social. Dirigi-me então ao elevador de serviço. Desci e apertei a campainha.
A empregada abriu e dei de cara com Roberto e Nice almoçando. Pediu-me para entrar. Entrei, sentei-me na cadeira,
entre eles, e começamos a conversar. Lá pelas tantas, Nice dirigiu-se a Roberto:
"Benhê, tô com vontade de comer morango." Foi a deixa que eu queria. Mulher quando manifesta desejos é sinal de gravidez. Simulei uma matéria, despedi-me e fui embora.Chegando à redação, dei a boa-nova ao meu chefe. "Segundinho vem aí", entrei gritando na sala dele. Contei a ele o que apurei e fiz a matéria. Matéria de
capa, chamada: SEGUNDINHO VEM AÍ.
Canal - A edição de matérias do gênero é diferente do jornalismo comum? Havia algum tipo de "peneira" para preservar a intimidade das pessoas?
Stein - Não há diferença, a meu ver, entre a edição de uma matéria para uma revista de variedades, a uma outra revista qualquer. Cada uma dentro do seu estilo.
A questão da intimidade, já em Contigo!, era um ponto de honra da revista para com seu público-alvo. Os leitores querem saber da vida privada do artista. Com quem ele está namorando, como é a casa onde mora, qual é o seu carro, qual a sua cor
preferida e mil outras bobagens mais. Ele quer saber tudo sobre seu ídolo, sem exceção. E se ele não encontrar o que ele quer saber na sua revista, ele passa a comprar outra.
Canal - O leitor deveria acreditar em tudo o que lê? Seria possível arriscar uma porcentagem para o que é "verdade" nas revistas do gênero?
Stein - Em princípio o leitor acredita em sua revista, senão não a compraria. Ingenuidade? Provavelmente. Este tipo de leitor acredita em tudo o que falam de seu ídolo. Só não acredita quando falam mal. Aí questiona, se aborrece.
A mentira, muitas vezes, pode ser fatal para um artista. Existe um caso célebre inclusive, ocorrido há muitos
anos. Numa coluna no jornal Última Hora, do Rio, Carlos Imperial, inventou uma história escabrosa sobre Mário Gomes. Dizia ele que o galã havia sido internado num hospital carioca para retirada de uma cenoura entalada no ânus. Foi um escândalo e Mário Gomes sofreu sérias conseqüências. A Globo
não o chamou por muito tempo para trabalhar em novelas. Esperneou, processou, mas o mal estava feito.
Canal - Em sua experiência houve problemas com pessoas que se sentiram lesadas? Por
quê?
Stein - Não, até onde eu saiba, nunca a revista Contigo! foi processada por ninguém.
Canal - Como a revista se relacionava com os "mais" e os "menos" famosos?
Stein - Nunca fiz distinção entre os mais ou menos famosos. Todos tinham o mesmo
tratamento. Fosse Roberto Carlos, fosse Zé das Couves. A única diferença era o espaço reservado a cada um. O
"rei" poderia receber duas, três ou mais páginas e mais capa. Já o menos famoso poderia receber uma página, meia ou apenas uma citação dentro do
"Flagra", por exemplo.
Canal - Pensando em casos como o da princesa Diana, quais seriam os limites do jornalismo dos famosos?
Stein - A princesa Diana foi um caso à parte. Nunca uma personalidade foi tão visada pela imprensa internacional. Se ela vivia cercada por câmeras,
paparazzi, etc,
foi porque era muito carismática, nobre, bonita, elegante, simpática. Podia chorar em público, rir, gargalhar. E o público a queria nas revistas. Por isso foi tão assediada. Até a noite fatídica de sua morte precoce. Uma pena.
criação: lisandro
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