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quem manda é o leitor
Fabiana Amaral
Tomáz Souto Correia é vice-presidente do Grupo Abril. Ele falou sobre a política da editora, preferências, censuras, profissionais, política, retratação,
lead, futebol, a respeito do futuro do jornalismo e sobre o que espera dos futuros jornalistas. Confira essa entrevista concedida ao
Canal da Imprensa.*
Canal da Imprensa - Tendo em vista o tamanho do Grupo Abril e a influência
de suas revistas, como vocês encaram esse poder da mídia impressa e da
empresa?
Tomáz Souto Correia - Uma coisa é, "ele tem o poder da imprensa". Nós estamos escudados no poder da imprensa como qualquer outra organização do gênero. No nosso caso, constituímos uma variedade tão grande de assuntos nos quais a gente se dedica, que tendemos a achar que deveríamos ter a mesma importância na
Veja ao falar de governo, como em Casa Cláudia para fazer uma seleção de moda. São poderes diferentes, mas são poderes. Eu acho que o poder do jornalismo em geral é a razão, a luta social. Eu vi uma conferência uma vez com Katerine Graham a dona do
Washington Post. Ela disse que o que mais a ajuda a tocar o jornal é que tem duas missões: fazer jornalismo e ajudar o país. Pronto. Ela estava dizendo que tinha uma razão social. Estar num negócio que ela herdou do pai dela, e que depois quando o marido morreu, ela teve que assumir. Então, se eu não ganho dinheiro é porque eu não estou investindo. Então, se eu não ganho dinheiro aqui, eu não posso investir onde eu acho que dá.
Nós que lemos a toda semana - porque a Veja é, bem ou mal, o nosso porta-voz político. Agente vê tudo pronto. Você não sabe nada do que está saindo. O nosso nível de delegação é muito alto. Quando alguém tem uma dúvida e quer uma conversa que está entrando numa área que não é muito clara, nós estamos aqui para isso. Mas a gente faz um trabalho de controle de qualidade pelo que sai, mas não antes do que saiu, porque primeiro seria impossível. Segundo, seria "burro". Nós temos quarenta redações fazendo uma centena de revistas. Se essa empresa não tivesse essa delegação explícita, não sairia do jeito que é o fechamento, toda hora, todo dia.
Canal - No caso da Veja, que é de longe a revista mais lida, tem-se uma preocupação a mais com o que é publicado,
sobretudo quando é capa?
Correia - Eu acho que essa preocupação com o que é capa ou com o que se publica é comum a qualquer revista. Entendeu? "Ah não, esse aqui vai causar mais impacto" não é uma coisa que pode acontecer numa revista. Por exemplo: A
Superinteressante vai fazer uma capa sobre a maconha. Você não acha que é uma coisa delicada, que precisa ser bem pensada? Claro. Enfim, posso te dar mil exemplos. Claro que se pensa em impacto, o que pode ser negativo. Mas isso, a gente pensa cada vez que vai fazer uma capa. Algumas são mais tranqüilas, outras são mais complicadas. Quando fazemos uma capa estamos pensando no leitor em primeiro lugar. E em segundo lugar, no impacto em que a capa pode ter na indústria automobilística, no caso da
Quatro Rodas, por exemplo. "Vão achar que está favorecendo". Eu acho que a razão fundamental dessa nossa preocupação vem de uma lei que se leva muito a sério: Quem manda aqui é o leitor. Entendeu? Ele é o nosso patrão. Não é o Roberto Marinho. Nosso patrão é ele. Se ele não gosta, a gente não vende, se não vende, não tem anúncio. Então, é o leitor quem manda em tudo. É bem assim.
Existem revistas que dependem mais de publicidades do que outras.
Então, de qualquer lado que você olhe, você bate no leitor sempre. E esta é a razão do sucesso desta empresa.
Canal - Você acha que a imprensa brasileira, tomando como parâmetro às
eleições (de 2002), amadureceu como muitos alardeiam? Está fazendo melhor?
Correia - Olha, eu vou tentar enfocar essa questão por outro lado: a gente tem que se colocar freqüentemente na pele do leitor. Eu sou leitor dos jornais ou leitor das revistas. Eu acho que de maneira geral a cobertura política é muito superficial. Tanto que raramente tem um furo. Como você sabe, a obsessão do jornalista que trabalha em revistas noticiosas ou normais é o furo, descobrir uma coisa que ninguém sabe. E você vê poucos. Por quê? Porque que é uma maneira de ver a estrutura da imprensa. Mas, fica faltando muita coisa. O que quero dizer: Eu, como leitor, acho que todo mundo fala um pouco a mesma coisa, com ênfases diferentes. Os noticiários estão com os mesmos personagens, as mesmas fontes. Então tem uma mesmice que não acho boa.
Canal - Nessas eleições (2002) tivemos algumas revistas e jornais que declararam deliberadamente apoio a determinados candidatos. A
Veja, pelo menos de cara, não mostrou que apóia determinado candidato. Quando
alguém achava que estavam apoiando um, outro rebatia: "Não, peraí, estão falando
contra." Você acha que é salutar esse tipo de atitude para com o leitor, ou seja, falar de cara: "A gente apóia determinado candidato. Nós somos honestos. Já que tem parcialidade mesmo, então vamos falando quem a gente apóia"?
Correia - Primeiro. Continuo na regra: quem manda em mim é o leitor. Se eu tenho uma opinião a respeito de alguém, eu tenho que dizer isso ao leitor. Mas, isto não deveria acontecer. Não quer dizer que você não vá tentar fazer uma cobertura imparcial. A revista
Exame fez uma peça escrita pelo José Roberto Guzzo, "Porque o Lula não vai dar certo". A revista publicou, e o leitor, gostando ou não, leu. Eu acho que é válido e justo você dizer o que acha. Mas eu sou a favor de que o órgão de imprensa se manifeste, dando ao seu leitor a tranqüilidade de que ele não está usando isso para deturpar o noticiário.
Canal - A Veja foi criticada em alguns fóruns por mostrar uma certa omissão, trazendo capas que não
se relacionavam com política. Por quê?
Correia - Primeiro, porque a Veja não tem obrigação de falar de política em todo número...
Canal - Mas nas vésperas de uma eleição?
Correia - O mundo não pára às vésperas de uma eleição. Nós temos, eu calculo, uns quarenta milhões de leitores nesse País. Se passa pela sua cabeça, que mais de 15% quer ver eleição todo dia, você está muito enganada. Nós estamos falando de um povo cujos interesses continuam. Eu vou precisar de coisas durante as eleições que eu não quero saber. Eu quero saber o que está acontecendo no mundo. Não quero saber só de eleição. E é assim. O ser humano é assim. O eleitor é assim.
Canal - Para ser diferente então...
Correia - Sabe quais são, tradicionalmente, nas revistas noticiosas os índices mais baixos de leitura?
Canal - Política?
Correia -Quais são os mais altos?
Canal - Comportamento.
Correia - Gente. Na Veja, a sessão Radar, que são notas curtas. Mas isso é invariável. Quando você dá um furo, aí não, está valendo. E a vida continua normal. Com eleição, sem eleição. Você só tem que cumprir o seu dever de estar cobrindo aquilo toda semana. O resto continua, o futebol continua. E se naquele dia teve algo de futebol, ela é mais importante que a eleição.
Canal - Por exemplo, a cobertura do World Trade Center. A Veja fez seis capas consecutivas. Nisso aconteceram várias coisas no Brasil que não foram capa. E daí?
Correia - Olha a história que eu ouvi uns quinze dias atrás. As revistas
Time e Newsweek, que são as semanais noticiosas americanas, fizeram capas. Evidente, aconteceu no país deles. É como entrar uma bomba no Banespa. A gente ia parar. Mas eu vi o diretor da revista dizer na terceira semana, "Vou mudar. Porque estou desconfiado que o meu leitor não agüenta mais esse assunto". Ele acabou não mudando as cinco ou seis capas. Às vezes tem um assunto que passa o limite de qualquer coisa. Um atentado terrorista daquele porte mexe com a política, mexe com a economia, mexe com tudo. O maior susto da história deles em anos, o mundo inteiro tomou um susto. O que eu acho é que todo mundo ficou muito focado no Bush. E o mundo comendo o pau em volta e coisas acontecendo, ou seja, isso era complicado, porque aquilo ofuscou.
Pentacampeonato de futebol: Foi capa de algumas revistas por três semanas. Por quê? Porque era o assunto que emocionava o povo naquele momento.
Canal - A preocupação então é o que vai vender, ou o que o leitor
deseja?
Correia - A preocupação é: o que o meu leitor quer. Há uma outra regra que eu gosto: se eu for atender o meu leitor naquilo que ele está querendo naquele momento, eu estou fazendo um mau serviço. Porque no meu bom serviço, eu tenho que estar um pouco na frente dele. Tenho que dar alguma coisa que o ultrapasse, senão, ele não precisa me comprar. Então, mesmo que eu vá fazer uma matéria com alguém, eu tenho que dar coisas que ele nunca ouviu falar. Agora, por exemplo, a revista que põe celebridade na capa. Tem celebridade que vende, e tem celebridade que não vende. Nem por isso a gente deixa de pôr as que não vendem ou as que não vendem tão bem. Da mesma maneira, a gente põe alguém na capa e tem uma surpresa que ninguém imaginava que fosse acontecer: estoura as vendas. É o nosso dia-a-dia. E isso vale pra tudo: revista de decoração, saúde, revista de notícias, negócios, celebridades, fofoca, tudo.
Canal - O leitor vê o jornalista na maioria das vezes como culpado por determinadas coisas. Às vezes acontecem erros grotescos na imprensa. Determinado jornalista tem a culpa porque fez isso ou aquilo e acaba eximindo seus superiores, o dono do veículo, o redator-chefe, da culpa que eles deveriam ter. Você vê essa culpa só do jornalista ou dos superiores que têm o poder de
editar?
Correia - Isso é simples e complicado. Na vida real é complicado. A Folha semana passada disse que o Estado de São Paulo ia dar um calote no governo, e não era exatamente isso. Errar acontece. Acontece com médico, piloto de avião, nutricionista. A questão do erro para mim é: Quando há um erro factual a publicação tem que se retratar. O erro é uma coisa que é impossível não ter, acontece e você tem que ter uma atitude com relação ao erro. E a atitude é: errou, vem e se desculpa, vou fazer o possível para não errar mais.
Canal - Você acha que nesses casos a culpa é dividida por toda a redação?
Correia - Não. A culpa é dividida entre o repórter e seu chefe imediato. Às vezes, você só vê que está errado quando aparece a verdade. Há coisas restritas. O dono do jornal não está sabendo. Ele está sabendo qual é o editorial, mas não está sabendo tudo o que vai sair.
Canal - Você fala em pedir desculpas ao leitor. Existe um relacionamento de afetividade com o leitor?
Correia - Determinadas publicações.
Canal - Sentida como uma Cláudia.
Correia - A Cláudia recebe cartas de leitoras assim: "Querida
Cláudia". É uma relação quase pessoal, então depende muito. Ninguém lê revista para se irritar, ninguém faz isso. Você pega isso porque está lhe dando algum serviço. Algum benefício você está tirando. E quando você erra com essa pessoa você tem que ter a transparência de dizer que errou. E vai errar.
Canal - Li num site uma frase: "Primeiro a gente enlouquece, pra depois ver no que dá". Daí pensei na imprensa.
Correia - Essa frase é atribuída a mim (risos). É bom saber.
Canal - Você disse que passou por censura aqui na Abril. O que vocês consideram censura hoje?
Correia - Não poder publicar o que a gente quer publicar.
Canal - Além da censura interna, como você vê o caso do Correio
Braziliense? Está camuflado hoje em dia? Tem mais? Tem menos?
Correia - Eu estava falando da revista não publicar alguma coisa. Isso não é censura. É uma análise de custo benefício. Por exemplo: Segredo de guerra. Pode publicar? Ou: Eu descubro agora que o ataque é hoje à meia noite. Ponho no site?
Então, eu acho que existe um limite que é muito difícil definir, mas o limite é assim: O bem do país. Tem uma hora que eu posso fazer algo que coloque o país em risco. Daí, não faço. Então vamos detalhar o que se pode fazer de bem ou mal e posso resolver na base.
Canal - O senhor falou sobre as capas polêmicas da Superinteressante. Ela é uma revista de caráter científico e
evolucionista. Não se pensa numa publicação que atacasse menos o criacionismo? Ela já cometeu erros grotescos, desde informações arqueológicas até de jornalismo mesmo. Como vocês vêem isso? Tudo bem que é reinante o
criacionismo. E neste caso?
Correia - Eu acho que nesse caso, nós não temos por definição. Nenhuma definição de coisas que não possam ser feitas. Então se você vai falar de religião, a gente tem que respeitar sua crença. Enfim, é o respeito ao leitor. Nós temos leitores católicos, umbandistas, evangélicos, etc. Então esses assuntos têm que ser tratados com muito cuidado. Invariavelmente, quando você trata de um assunto polêmico - e esse foi um. Houve reação de alguns setores que disseram:
"Opa, não é bem assim, pra nós isso não é bem assim." Não dá pra sair fazendo tudo pra todo mundo. É bem assim. Não tem uma instrução evolucionista. Não é só o científico, tem um pouco de tecnologia, ciência, está entrando muito em história - que foi uma coisa que o leitor adorou -, está entrando um pouco na vida espiritual também. A capa mais vendida foi Buda. Então a
Super está tentando entrar no universo do conhecimento lato
sensu. Ela já foi uma revista mais científica. Agora ela está mais humanizada. Daí, falar de Bíblia, de Buda.
Canal - O livro "Notícias do Planalto" é referência nas faculdades de
Jornalismo...
Correia - Eu não li.
Canal - Sério! Não leu? Por quê?
Correia - Porque eu peguei o livro em alguns pedaços e achei que a visão não batia com a minha.
Canal - Era aí que eu queria chegar. Mino Carta revelou algumas coisas da
Abril. Como vocês encaram isso aqui?
Correia - Não tem porque encarar nada, até porque não aconteceu nada.
Canal - Não teve nenhuma censura, nenhuma retaliação?
Correia - Nada, nada.
Canal - Você acha que no livro houve muita veracidade?
Correia - Muita veracidade.
Canal - A gente fica naquela dúvida: "Será que é aquilo mesmo que aconteceu lá dentro ou em determinados veículos?"
Correia - É o seguinte: se ninguém falar que não foi, fica sendo. Assim é a história da humanidade. Você escreve uma besteira, e ninguém fala nada. Pronto, aquela besteira fica valendo.
Canal - Como você vê a formação acadêmica do jornalista hoje?
Correia - A visão que eu tenho da formação do jornalista hoje é pelo Curso Abril de Jornalistas. Todo ano a gente abre aqui uma temporada de inscrições. Esse ano quase duas mil inscrições do Brasil inteiro.
Canal - Mais concorrido que o vestibular...
Correia - É. E acaba um grupo de apenas sessenta pessoas entrando. Eu noto um avanço na atitude, mas não noto um avanço no conhecimento. Quer dizer que eu acho que nós, as empresas de comunicação, ainda não chegamos perto das universidades eficientes para ajudá-las a dar uma visão mais prática, que acabamos tendo depois. Nos EUA é comum as grandes empresas terem pontes com as universidades - nós temos com a USP, nós damos aula na USP, fazemos oficinas na USP. Nossos profissionais na área de revistas dão aula na USP - então, eu acho que está faltando essa aproximação para dar um caráter mais formativo, prático. Por outro lado, eu não sei o que os cursos dão. O que a gente vê na chegada é um despreparo para a profissão. Esse é o poço que a gente tem que tapar.
Canal - Então a escolinha de jornalismo da Abril é uma espécie de formatação para a profissão ou para o grupo?
Correia - Não. A brincadeira antigamente era que as pessoas queriam se formar em jornalismo no Brasil para serem editorialistas do
Le Monde. Então, você fazia uma faculdade de Jornalismo, e o mínimo que se aceitava era ser editorialista do
Le Monde em francês. Eu sempre quero saber se já tem gente trabalhando, e tem gente trabalhando apesar de ser proibido por lei. E as pessoas estão trabalhando em revistas de cimento ou numa revista sobre passarinhos lá não sei aonde, ou seja, as primeiras oportunidades de vida não são muito profissionais porque acabam acontecendo em editoras muito pequenas.
O que a gente faz é tentar mostrar o que é uma revista, como se faz uma revista, qual é o estilo de cada revista para que eles tenham oportunidade de se posicionar, de preferência, profissionalmente. Isso a faculdade não faz. A minha primeira recomendação era a obra completa de Eça de Queiroz. A minha segunda recomendação era a obra completa de Machado de Assis. Por quê? Porque você tem que conhecer o que é um bom estilo para poder fazer um bom estilo. E se o teu padrão vir a chegar naquilo, você não pode dar errado. É melhor eu chegar a ser um velho Eça, do que chegar num... sei lá.
Canal - Isso não acaba colocando o jornalismo contemporâneo inferior ao que aconteceu, ao que
foi, como se o que fosse produzido antes fosse melhor?
Correia - Não tenho muita dúvida disso. Quando falamos de literatura, não sei quem é o Eça de Queiroz contemporâneo. Quem são os jornalistas que você admira?
Canal - Além dos colunistas, eu gosto muito do Fernando de Morais.
Correia - Fernando de Morais é um escritor, ele não está assinando nada em jornal, ele está assinando livro. E esse é o tipo do cara que escreve bem.
Canal - Você gosta de Fernando de Morais?
Correia - Gosto, leio com prazer. Qual é a questão aí? As pessoas têm que gostar de ler. É a formação da escrita. E a formação da escrita não tem nada a ver com papel. Eu quero que os jornalistas escrevam bem para que eles possam ser lidos onde quer que seja: papel, tela do computador, plástico, pano, não interessa. Mas que sejam bons. Que a gente leia onde quer que seja. E eu estou vendo que tem uma queda muito forte.
Canal - Não é por causa da pressa? Por exemplo, a gente vê Eliane
Catanhede, Clóvis Rossi, Carlos Heitor Cony, são todos textos rápidos.
Correia - Isso não tem nada a ver com a pressa. Lembra que os jornais são fechados à noite pra circular no dia seguinte. Acho que a pressa não faz isso, ao contrário. Por exemplo: Nelson Rodrigues. Quando fui perguntado sobre como gostaria de terminar a revista, eu disse que gostaria de terminar com o Nelson Rodrigues. Eu quero um folhetim semanal. Daí quem vai escrever o texto? Os caras da telenovela são candidatos, mas não tempo para isso. Esse seria o ideal, está certíssimo, são ultracompetentes. Mas quem vai escrever meu folhetim? Não tem.
Canal - Você acha que não tem nada a ver? Por exemplo: Em jornais mais antigos, as coisas não pareciam acontecer tão rápido. Não tinha tanta coisa acontecendo. O jornalista podia ver um artigo e dava impressão de que ele viu tudo e que ainda falta coisa para ele escrever...
Correia - A facilidade de acesso à informação trazida pela informação eletrônica - rádio e televisão. Tem a internet, que é enlouquecedora, você não consegue ler tudo o que você quer ler. Então os leitores (estamos falando de uma parcela pequena da população), são bombardeados por tanta informação. Na hora eu sei que está acontecendo. Você ligou a CNN e viu um avião atingir a torre e você foi avisado que o primeiro já tinha atingido o outro prédio. O que o jornal faz num dia assim? O dia inteiro tinha notícia acontecendo. Isso é um acontecimento. O jornal fecha às dez horas da noite. Eu recebo o jornal às sete e meia, oito horas. Na primeira página já sei de tudo o que o que está no jornal, porque eu vi no jornal da noite na televisão, eu li na internet quando saia do trabalho. Eu vejo na internet antes de dormir. O acesso à informação é tão grande que eu acho que estamos passando um momento meio indefinido, "como é que eu noticio?". Então não é a pressa que faz isso. É uma insegurança. Nós temos que analisar o futuro do
lead.
Canal - Não seria esse o culpado por jornalistas medíocres ou por textos medíocres?
Correia - O que eu acho é assim: Vamos pegar o leitor normal. Onde ele trabalha tem um computador, e ele seguramente entra na internet. Seguramente ele vê o Jornal Nacional. Seguramente ele liga o rádio no carro. Então, como eu faço o jornal de amanhã? O jornal de amanhã diz assim "Atentado ao Word Trade Center". Nossa, novidade, eu não sabia disso. Ou assim: "Hoje decisão da Copa". Você não esquece que hoje é decisão da Copa. Você sabe que existe um desvio de função e de missão "para que sirvo na vida". Nós estamos em m período de mudança.
Canal - De impressos, de colunistas, quem você considera bom?
Correia - Não conto nem a pau!
Canal - Sério? Por que não?
Correia - Acho o Joelmir bom, um bom colunista. Gosto do jeito que ele se aproxima da coisa. Já colunista político, não sei dizer.
Canal - Não tem ou há muitos?
Correia - Tem, mas eu não sei dizer.
Canal - Você bota fé nos jornalistas que estão vindo?
Correia - O que acontece é aquilo que respondi antes. Talento não tem idade. Os sessenta que vêm aqui todo ano possuem talentos interessantes. O mundo gira e esse leitor eletrônico está tomando conta do mundo. Como é que nós vamos montar esse jornalismo multimídia é a grande questão que se discute. Não há mais jornalismo monomídia, todos os jornais têm sites, então nós vamos ter que começar a preparar um profissional que aceite andar com uma mochila eletrônica nas costas pela qual eu filmo, ouço, entrevisto e escrevo. O que eu vejo na juventude que chega aqui, é que estão mais maleáveis nesse sentido, o que é uma esperança para um futuro não muito remoto. Essa é a diferença. Fui visitar a redação de um jornal em Nova York. O jornalista estava na frente do computador com um microfone, porque a qualquer momento ele entra ao vivo no rádio. Enquanto ele está fazendo notas para o
site, recebe o aviso de que vai entrar no ar em dois minutos, ele pára e conta o que está escrevendo. Esse já é o jornalismo multimídia. Em algum momento, um desses caras me entrevistou na televisão. Ele sabe entrevistar na televisão, sabe falar na rádio e sabe escrever.
Canal - Tendo em vista toda essa bagagem prática e de vivência, você é a
favor da abolição do diploma de jornalismo?
Correia - Eu sou a favor da obrigatoriedade do diploma pra trabalhar. Não sou contra o curso de jornalismo. Mas eu tenho que achar gente que saiba escrever, gente que saiba sobre assuntos específicos. E eu quero contratar, seja jornalista ou não. Como o resto do mundo faz. Então eu acho que a obrigatoriedade do diploma é uma besteira, porque você está nivelando por baixo. Se você é o último aluno da sua classe, formado você pode ser jornalista. O engenheiro genial que escreve bem e que eu quero não pode. Me explica, por quê.
Canal - A escolinha da Abril faz isso?
Correia - A gente não gosta de lei, mas respeitamos a lei. É verdade, a
Folha não respeita. Claramente. Mas nós respeitamos. Mas somos contra, acho que é uma bobagem. Porque, por outro lado, as escolas de jornalismo teriam mais foco se tivessem essa concorrência. "Não preciso passar por uma escola de jornalismo para ser jornalista, então eu vou ter que formar melhor essa gente, senão eles não vão arrumar emprego e eu vou ter que fechar as minhas portas". Vão prestar mais atenção no programa, no mundo real. Você vai procurar essa ponte com a empresa, mais interesse, porque você está formando um tipo de gente que tem concorrência. O número de jornalistas que se formam no Brasil é absurdo.
É uma fonte de frustração.
Canal - Isso é para me animar ou para que eu desista do curso?
Correia - É pra animar, eu quero que você seja muito boa! Quem se dá bem nessa? Quem tem alento. Sem talento não dá. Melhor ir fazer outra coisa.
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Entrevista concedida há
mais de dois anos na torre da Abril. Perdida, as fitas da gravação só
foram encontradas há um mês na casa da aluna, agora jornalista.
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