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Formar para o mercado

Wendel Lima

Laerte Lanza é graduado em Jornalismo pela Universidade de Santo Amaro (Unisa). Além de coordenador do curso de Comunicação Social do Centro Universitário Adventista, ele é o âncora do telejornal Semana em Foco, da TV Novo Tempo. A turma de formandos em Jornalismo deste ano leva o nome do professor. A gestão de Lanza consolidou o curso do Unasp. Em entrevista ao Canal, ele falou sobre os desafios de alunos e professores de fazerem de um diploma universitário um passaporte para o mercado de trabalho.

Canal - Durante anos, muitos jornalistas foram formados pelo próprio mercado, já que não passaram pelos bancos universitários. Hoje isso é possível? Qual é o papel da faculdade na formação do jornalista contemporâneo?

Lanza - Creio que hoje é fundamental o jornalista passar pela universidade porque é ali que vai receber know-how dos professores, vai poder criar e errar, receber críticas que vão dar rumo profissional, descobrir caminhos antes desconhecidos, receber uma visão da sociedade e da comunicação que não receberia em nenhum outro lugar. Entendo também que, antigamente, em função da dificuldade de se encontrar um curso de Comunicação, era mais fácil alguém iniciar a carreira sem ter um curso superior. Mas hoje não. 

Canal - Qual é o peso do prestígio de uma faculdade na hora de se contratar um recém-formado? O que é mais importante para o mercado de trabalho no currículo de um graduando?

Lanza - O prestígio de um curso bem-estabelecido e famoso no mercado pode ajudar na contratação do recém-formado, porém não vai mantê-lo empregado. O que vai garantir a permanência do jornalista naquele emprego é a competência. E isso será percebido na primeira pauta que receber. Se for incompetente, será demitido ainda no período de experiência.

Canal - Qual é a relevância do estágio para a formação profissional do jornalista? 

Lanza - Este é um assunto importantíssimo e que está relacionado com a pergunta anterior. O aluno de jornalismo deve buscar desde o primeiro ano encontrar um veículo de comunicação para estagiar - quer seja remunerado ou não. É ali que ele vai se enraizar e mostrar a sua competência. Muitos deles permanecem no emprego depois de formados. Então, o estágio além de amadurecer o aluno e fazer com que ele já esteja praticando a profissão, também servirá como portifólio na busca do primeiro emprego. 

Canal - Como lidar com a aparente dicotomia, teoria e prática?

Lanza - Na verdade as duas coisas são importantes. Nos dois primeiros anos do curso de Comunicação o aluno vai receber toda uma formação teórica, que servirá para a vida toda. Já nos dois últimos estará mais envolvido com a prática. Neste caso, a teoria vai embasar a produção prática dos alunos. Deve haver perfeito equilíbrio neste assunto.

Canal - O senhor é a favor do curso "pleno" de Jornalismo? Quais seriam as vantagens ou desvantagens?

Lanza - Sem dúvida, sou a favor do currículo pleno porque dá mais identidade à habilitação. Mas, sinceramente, não vejo muita diferença para o aluno entre um currículo tronco comum (quando alunos de duas ou mais habilitações fazem um ou dois anos juntos na mesma sala) e um currículo pleno (salas separadas desde o primeiro ano). Não há muita diferença quando as habilitações estão em perfeita harmonia entre si, trabalham e desenvolvem projetos juntas. Devem ter desde o primeiro ano projetos específicos para as habilitações porque é isso que vai amadurecendo e contribuindo para a formação da identidade do curso.

A opção pelo tronco comum é feita por uma questão financeira a fim de viabilizar o curso. Se não fosse assim, correríamos o risco de ter classes desde o primeiro ano com um número muito baixo de alunos colocando em risco a continuidade da habilitação. E a justificativa para esta opção é que 50% das disciplinas das diferentes habilitações de Comunicação são idênticas. Mas, mesmo com esta justificativa, os cursos que são de tronco comum devem tomar muito cuidado para não descaracterizar as habilitações. 

Canal - Quais mudanças no perfil das próximas turmas são esperadas após a reformulação da grade da habilitação em Jornalismo do Unasp? 

Lanza - Esperamos um perfil mais preocupado com a vida acadêmica. Que não se encante apenas com o glamour da profissão, mas com a importante função de se noticiar bem e amar o que faz.

Canal - Como o senhor avalia a produção dos projetos experimentais da turma de 2004? O curso amadureceu?

Lanza - Foi de excelente nível. Encantei-me ao ver os alunos apresentando de forma profissional seus projetos. Só pelo simples fato de enfrentarem um público de quase duzentas pessoas e com uma postura de verdadeiros comunicadores, já mostra que são vencedores. Os trabalhos apresentados no ano passado foram muito bons e os desse ano superaram aqueles. Isso mostra claramente um amadurecimento do curso para as produções científicas e para projetos em comunicação.

Canal - Quais são as maiores qualidades e carências do curso de Jornalismo do Unasp?

Lanza - O curso de Jornalismo do Unasp tem muitas qualidades. Dentre elas, destaco:
- Todos os professores (jornalistas) já trabalharam como profissionais em suas áreas;
- Todos eles são de dedicação exclusiva ao centro universitário;
- São muito acessíveis;
- Participam constantemente na construção de um curso melhor dando opiniões, ajudando-se mutuamente, manifestando interesse em ter um curso voltado para o futuro;
- Estão estudando, melhorando assim a titulação do corpo docente;
- Buscam participar de congressos e eventos de comunicação;
- Existe um espírito de equipe extraordinário no grupo;

Canal - Por que o Unasp não participa do Canal Universitário? Quais são as parcerias que o curso já tem e pretende realizar?

Lanza - Porque existe um custo muito alto para se manter o espaço. Além do valor que é rateado entre as universidades, é necessário contratar um número grande de profissionais e ampliar o número de equipamentos. Muitas universidades que participam do Canal Universitário não dão acesso aos estúdios e oportunidade de crescimento aos alunos de Jornalismo como deveriam. Ao invés do aluno estar produzindo, gravando e experimentando, tem um grupo de profissionais ocupando os estúdios com gravações de programas para o Canal Universitário enquanto o aluno só observa. Aliás, muitos desses programas são puramente marketing para a instituição. O aluno que deveria ser o maior beneficiado, é o maior prejudicado. Isso está errado. Então, não havendo possibilidade financeira para se manter um espaço no Canal Universitário, propusemos que o aluno de Jornalismo do Unasp participe assiduamente das produções e gravações no estúdio e fora dele de reportagens, entrevistas, documentários e telejornal para a TV Novo Tempo. Acredito que o crescimento acadêmico será maior.

Canal - Nos Estados Unidos, os cursos de Jornalismo costumam ter suas próprias mídias concorrendo no mercado. Isso é possível no contexto universitário brasileiro, em especial no Unasp?

Lanza - Temos interesse nisso. Creio que só com o tempo teremos condições de chegar a este ponto. Mas, a partir do ano que vem, teremos uma rádio educativa em nosso campus. Com o tempo, poderemos ter uma revista e um jornal impressos, quem sabe até uma TV educativa. Agora é o momento de continuarmos dando uma boa estrutura ao curso, escrevermos os projetos e darmos tempo para que sejam realizados.