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Destinado
ao regime
Delton Unglaub
Trinta anos atrás, em um
País submetido pela força, não se cultivavam ilusões sobre a "neutralidade" do jornalismo, tampouco os jornalistas tentavam buscar refúgio na técnica da profissão. Naquelas circunstâncias precisas os jornalistas se viam em um desserviço ao
País e a busca pela liberdade era uma utopia desejada por todos. Trinta anos atrás, Vladimir Herzog chegava às oito da manhã na TV Cultura, onde era diretor do Departamento de
Jornalismo e saia por volta das dez da noite, depois que o principal programa noticioso fosse levado ao ar.
Será que vinte anos de democracia fizeram a sombra da censura, que tanto aterrorizou as redações, desaparecer? Esta é uma pergunta sem resposta. O jornalista do século XXI é livre para escrever o que quiser e continua levantando cedo e saindo tarde. Porém, a liberdade é somente dentro da linha editorial da empresa. A censura, hoje, vem de dentro da própria casa, sem tortura, mas
via ameaça de desemprego. Logo, "Vlado" - como era conhecido - se trabalhasse ainda hoje, não teria problemas com esta censura, pois esta não seria nada comparada àquela
que friamente o assassinou.
Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, conta que o assassinato de Herzog fez o Brasil tomar uma atitude para uma realidade que revolta ainda hoje: "Foi o catalisador da abertura política e da restauração da democracia. Esse fato será sempre a recordação dolorosa de um sombrio período de repressão, um eco eterno da voz da liberdade, que não se cala
jamais."
Já o ex-presidente Ernesto Geisel - participante direto no caso, principalmente depois do assassinato - fez uma declaração em suas memórias, publicadas pela Editora da Fundação
Getúlio Vargas, em 1997, que enfureceu novamente os jornalistas: "Agora a esquerda tem um herói. De fato criaram um herói. Pegaram uma pessoa relativamente sem importância e a transformaram num herói para a
esquerda." (p. 372) Isto prova mais uma vez que a morte de Vlado provocou uma grande reação popular contra torturas, prisões arbitrárias e o desrespeito aos direitos humanos.
Depois de seu "suicídio", acusaram Vlado até de ser agente da KGB. Segundo os torturadores, ele teria se suicidado para prestar um serviço à causa comunista. Vlado não era um agente secreto, mas era "gente" que as autoridades jamais conseguiriam silenciar. Sua coragem diante de um governo ditador não veio de uma paixão por alguma ideologia, mas sim pela vontade de lutar contra a ditadura. Isto significava contrariar o aparelho de propaganda do regime.
Destinado ao regime
O judeu Vladimir Herzog nasceu na Iugoslávia e era brasileiro de coração. Sua família, que viveu também algum tempo na Itália, veio para o Brasil com o pequeno Vlado fugindo do nazi-fascismo. Mal sabiam eles que a fuga do regime seria em vão.
Vlado se formou em Filosofia pela USP, em 1959. Apaixonou-se pelo jornalismo e no mesmo ano acompanhou os pioneiros que montaram a sucursal de
O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi redator-secretário de um telejornal na TV Excelsior, depois trabalhou três anos na BBC de Londres. Também foi editor de Cultura da revista Visão antes de ser secretário de redação do Departamento de
Jornalismo na TV Cultura.
Um dia antes de sua morte, Vlado, que era ligado ao PCB, foi interrogado por soldados do regime. Eles queriam que Herzog comparecesse à sede de DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna), mas seus colegas de trabalho e amigos intercederam para que Vlado pudesse terminar seu trabalho e comparecer somente na noite
de 24 de outubro de 1975. Neste dia, mesmo sabendo que seu nome havia sido citado em interrogatórios, continuou com sua rotina de trabalho e, desta vez, não fugiu, enfrentou o regime. O jornalista, então diretor de
Jornalismo da TV Cultura, fechou o jornal noturno da emissora e foi ao prédio do DOI-Codi para nunca mais voltar.
Seu corpo foi apresentado à sociedade no dia seguinte "enforcado" em uma grade com um cinto. A grade era mais baixa que a altura do jornalista e os prisioneiros não podiam ter cintos, pois poderiam se tornar armas. A ironia, ou melhor, a cara de pau dos assassinos foi comprovada mais uma vez com a declaração do médico-legista Harry Shibata, responsável pelo laudo necroscópico que sustentava a tese de suicídio. Shibata e todos os responsáveis contavam a mesma história pela 18.ª vez, sendo que no regime houve, incrivelmente, 38 suicidas.
Mudança de atitude
O assassinato do jornalista foi a gota d'água para a indignação da sociedade.
Em 31 de outubro de 1975, foi realizado um culto ecumênico em memória de Herzog na Catedral da Sé, do qual participaram 8.000 pessoas, num protesto silencioso contra a ditadura. A luta continuou com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), além da imprensa.
Após a morte de Vlado, o Sindicato dos Jornalistas realizou assembléias e iniciou uma "vigília em defesa da integridade física dos jornalistas". Também foram feitos contatos com as autoridades militares e contratados advogados para os jornalistas detidos.
Tanto o Sindicato dos Jornalistas como a família de Vlado receberam mensagens de solidariedade de diversos sindicatos estaduais e da Federação Nacional dos Jornalistas. Foi decretado luto oficial. A Associação Brasileira de Imprensa pediu ao governo uma investigação rigorosa de morte do jornalista. O Sindicato dos Atores Profissionais de São Paulo e diversas outras entidades, como a Frente Nacional do Trabalho e o Movimento Feminino pela Anistia trabalharam na divulgação do trabalho de Vlado. Os alunos da Universidade de São Paulo, onde ele era professor, paralisaram suas atividades em protesto e luto.
Evidências do terror
Em 1978, o legista Harry Shibata confirmou ter mentido no laudo necroscópico de Herzog, pois sequer viu o corpo. Por ser judeu, o corpo de Herzog foi encaminhado ao Shevra Kadish (comitê funerário judaico) e, ao verificarem as marcas de tortura no corpo do jornalista, a história de suicídio foi desmentida.
No IML foi proibido que o corpo fosse reconhecido. E, segundo os responsáveis,
tratava-se de "ordens superiores". O general Ednardo D'Ávila Mello, comandante do II Exército, foi intimado a mudar de atitude pelo presidente e
general Ernesto Geisel pessoalmente. Mas, aparentemente, Ednardo não cumpriu
as ordens de "sigilo" e foi substituído. No ano seguinte, o DOI-Codi repetiria a mesma história para família de Manuel Fiel Filho.
O ditado popular de que a verdade tem pernas razoavelmente curtas ficou provado
em 27 de outubro de 1978. Este foi o ano em que o processo movido pela família do jornalista mostraria justiça na morte de Vladimir Herzog. A União foi responsabilizada pelas torturas e pela morte do jornalista e, assim, entrando para a história como o primeiro processo vitorioso movido por familiares de uma vítima do regime militar contra o Estado.
No entanto, somente 18 anos mais tarde, no governo Fernando Henrique Cardoso, as famílias receberam seu direito à indenização. O decreto beneficiou as famílias de mais sessenta presos políticos assassinados nas cadeias do regime militar - mortos ou desaparecidos - entre setembro de 1961 e agosto de 1979.
O movimento Tortura Nunca Mais, em um levantamento, contabilizou 240 mortos e 144 desaparecidos durante o regime militar, e o Brasil Nunca Mais chegou a
1.843 casos de tortura e 136 desaparecimentos.
Repercussão atual
Em 18 de outubro de 2004, o Correio Braziliense publicou duas fotos que supostamente seriam de Herzog antes de sua morte no
DOI-Codi. As fotos mostravam Herzog nu e com a cabeça baixa, portanto, reforçaram a tese de que o jornalista havia sido torturado antes de ser morto. A viúva do jornalista, Clarice Herzog, confirmou ao
Correio que as fotos seriam de Vlado.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou uma retratação por parte do Exército e do Ministério da Defesa. No entanto o exército afirmou não querer "ficar reavivando traumas da sociedade brasileira", garantiu o general e comandante Francisco Roberto de Albuquerque.
Em 22 de outubro, a Folha de S. Paulo publicou uma entrevista com o homem que seria o personagem das fotos divulgadas pelo
Correio. Entretanto, a identidade do homem nu foi colocada em dúvida quando fontes anunciaram que a foto seria do padre canadense Leopoldo d'Astous, da Igreja de São José Operário, em Brasília. Astous foi investigado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) de 1972 a 1974 por envolvimento com grupos de esquerda. Após uma reunião com o ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), Nilmário Miranda, no dia 28 de outubro, a viúva de Herzog, Clarice, voltou atrás e negou que as fotografias divulgadas fossem de seu marido - será que o ministério também voltou atrás e usou métodos do período negro para esclarecer este fato?
Mais recente ainda foi o caso do estudante Pedro Malavolta, da ECA/USP. Malavolta fez parte dos manifestantes que prepararam adesivos azuis impressos com o nome do jornalista Vladimir Herzog, para serem colados sobre a inscrição "Roberto Marinho". Segundo o estudante esse "ato simbólico" mostrou mais uma vez que a sombra da ditadura nunca desapareceu e a mudança do nome Água Espraiada para o de alguém que esteve diretamente ligado à
ditadura militar mostra isto de forma clara.
Em um breve flashback dos anos 1970, um soldado da PM puxou a escada em que o estudante Pablo Ortelar tentava colar o nome de Herzog na placa. O soldado estava com uma base móvel, dois carros da
força tática, duas picapes e quatro motos para impedir que o estudante cometesse este crime. O estudante Pablo ficou pendurado na placa, e quando desceu apanhou, foi algemado e levado para a 96.ª DP. Minha pergunta é: será que vinte anos de democracia fizeram a sombra da censura que tanto aterrorizou as redações desaparecer?
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