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A
vez do leitor
Allan Novaes
Carioca de nascimento, mas brasiliense por paixão, TT Catalão é um dos raros jornalistas cuja carreira profissional se confunde com a história da cidade na qual vive. Embora atualmente esteja mais afastado da grande imprensa, atuando como consultor de programas de rádio e internet na área de cultura e cidadania, TT presenciou momentos importantes da história do Distrito Federal e do Brasil na redação do diário
Correio Braziliense. Isso se deu especialmente durante a reforma gráfica e editorial do
Correio (1994-2002), período que rendeu ao jornal prestígio internacional.
Além de editor, TT era coordenador do Conselho de Leitores do Correio - órgão composto, como o nome já diz, de leitores do jornal que possuíam autonomia durante alguns meses para criticar e analisar as notícias do jornal, bem como de sugerir pautas e abordagens noticiosas. Paralelo às reuniões do Conselho, TT era responsável por uma página intitulada "Correio DO Brasiliense", feita inteiramente pelos próprios leitores, que publicavam notícias, artigos e até charges de suas próprias autorias e também editava a coluna "Desabafo", espaço dedicado às frases e pensamentos dos leitores sobre os problemas da cidade - a coluna recebia cerca de 300 mensagens por dia e tinha os seguintes dizeres: "Pode até não mudar a situação, mas altera a sua disposição."
TT ficou famoso pelo editorial, intitulado "Para que serve um jornal?", que foi capa do
Correio em setembro de 1996. O texto, que virou um cartaz imenso na entrada da redação do diário, foi escrito como resposta do
Correio ao ataque do então governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz, por ter ameaçado fechar o jornal em pleno palanque.
Demitido do Correio após a saída de Ricardo Noblat e Paulo Cabral Araújo, em entrevista ao
Canal, TT Catalão fala sobre impacto do trabalho realizado pelo Correio Braziliense nos últimos anos, alfineta o desafeto Joaquim Roriz, governador do Distrito Federal, e critica a inexpressiva participação do leitor nos produtos jornalísticos - curiosamente, no ano em que se comemoram os vinte anos de democracia no Brasil.
Canal: No ano em que se comemoram duas décadas de democracia no Brasil, uma das primeiras lembranças que vem à mente do brasileiro é a derrocada do regime militar e o fim da censura e da perseguição à imprensa. Contudo, episódios recentes mostram que a imprensa ainda não tem muitos motivos para festejar. A censura prévia praticada contra o
Correio Braziliense em 23 de outubro de 2002, por exemplo, foi considerada como o "mais grave atentado sofrido pela liberdade de imprensa" no País desde o fim da ditadura. Até que ponto a imprensa vive em uma democracia?
Catalão: Que saímos da barbárie, saímos. É um alento. Mas nenhum cidadão, com razoável dose de indignação e busca da justiça, deveria estar satisfeito com o estágio atual - para não cairmos naquele papo do cara que, na prisão, levava choque elétrico todo dia e sentia algum "alívio" quando "só" apanhava com socos. É horrível este mecanismo de consolo e sujeição ao "melhorzinho" para narcotizar nosso impulso de exigir o máximo. Na imprensa, sair da barbárie é escapar da censura explícita e cadeia literal em grades e muros.
Porém, quem é capaz de afirmar a inexistência das censuras sofisticadas que isolam e tiram visibilidade e voz das cabeças dissonantes? São as novas fogueiras que "queimam" na base, requintadamente lentas, técnicas, para isolar e não pedir trabalhos ao "alvo" (por exemplo: os repórteres não recebem mais pauta para anular figuras que não interessam ao núcleo econômico e ideológico da empresa). Funciona tão bem a maquinaria que até a desconfiança da vítima sobre tal mecanismo logo é classificada como surto paranóico.
A outra contradição é o senso de espetáculo das coberturas e a necessidade de vender mais e mais para aquecer os negócios da empresa-jornal aumentando os riscos de promiscuidade com o poder, o cinismo para justificar isto (apregoam até "liberdade" conseguida pela "independência" econômica), a baixa aptidão para investigar e manter em pauta assuntos "indesejáveis" e por fim o máximo em pirotecnias de
design "modernosos" e gracinhas de plantão para maquiar péssimos conteúdos pelo aerosol do descolado. Sem falar que a notícia quando vira mercadoria é sempre apresentada sem antecedentes, memória, contexto e muito menos com o mínimo de análise e reflexão.
Canal: A reforma editorial e gráfica do Correio Braziliense
(1994-2002) é considerada por muitos jornalistas como o grande exemplo de jornalismo independente. O
Correio daquela época foi realmente um símbolo do jornalismo livre e comprometido com a democracia ou tudo não passou de um exagero publicitário?
Catalão: O Correio 1994-2002 tem as suas contradições naturais de grande imprensa, vacilos de fechamento, carregamento de tintas inoportuno, deslizes na língua e afins, rusgas óbvias na relação patrão-empregado, condições de trabalho fora do padrão ideal, entre outras coisas. Mas sobrava um fator: a permanente celebração da inteligência e busca obsessiva de aprimoramento do trabalho. Isso é o que nos redime de inúmeros erros cometidos no percurso (até da armadilha, que caímos, montada pelo governo do Distrito Federal - GDF - em deixar o
Correio como "faccioso" e "exagerado nas críticas unilaterais" ao governo - um volume coerente com a fiel procedência das fontes e crimes cometidos pelos titulares do Buriti).
O fundamental era o absoluto clima de desafio interno em se superar e praticar algo muito "fora de moda" na imprensa atual: aliar conteúdo (o mais difícil) ao elemento surpresa da linguagem, a estética. O
design no Correio não era o "estiloso" do bonitinho de butique, tinha conceito, havia
link concreto com a história que se pretendia contar. Não era nenhum truque, era vida. Tanto que depois dos prêmios ficava até difícil encaixar algumas idéias, pois o número de palpiteiros (justa vaidade, até) e ambições menores para "entrar na história" atrapalhavam um pouco o garimpo da melhor idéia. Mas não era nada grave, apenas um teor competitivo interno que também estimulante - embora eu tenha aversão à disputas intelectuais e me recolhia nos acirramentos. Tudo era potencializado pelo talento humano. E o Noblat conduzia o processo com trancos e barrancos, generosidade, talento reconhecido no meio e um belíssimo e contagiante entusiasmo.
Canal: O seu texto-editorial "Para que serve um jornal?", publicado em setembro de 1996, tornou-se um marco do bom jornalismo. Na atual conjuntura do jornalismo brasileiro, princípios do seu texto como o "jornal serve para servir" estão sendo aplicados pela grande imprensa?
Catalão: O "Para que serve" ficou, digamos, "histórico". Foi uma honra tê-lo como pôster de dois metros na entrada da redação até alguns meses após minha demissão em março de 2003 - pelo seu contexto de resposta frontal a um ataque virulento de Roriz ao jornal incitando em palanque sua população - perigosa atitude se contarmos com a sua liderança messiânica e irracional das "massas carentes". Claro que o mérito veio de todo o clima de liberdade que o jornal transpirava. Senti-me autorizado a escrever. Tanto que fiz como minha coluna editorial da semana que saía aos sábados, mas decidi mostrar ao Noblat, pois assumia uma crítica institucional e ele saltou literalmente da cadeira para transformar o texto (na verdade escrito em 15 minutos - tenho testemunhas!) em capa pela aprovação eufórica da diretoria.
O "Para que serve" é um desabafo gigante, romântico, com ares iluministas de utopia, que nem mesmo o
Correio cumpria totalmente. Mas o clima é de grande projeto a ser perseguido sem o menor pudor de arriscar - que era um outro valor do
Correio, na época.
Canal: Muito se fala de democracia e inclusão social em termos dos deveres do Estado com cidadão, mas pouco se fala do compromisso da imprensa com o cidadão. Por isso, o seu trabalho com o leitor nas seções "Desabafo" e "Correio DO Brasiliense" podem ser considerados quase que pioneiros. Quais foram os resultados da sua experiência no
Correio com seções e editorias que muitas vezes eram feitas inteiramente pelos próprios leitores?
Catalão: Era a minha razão absoluta de ser. Realmente descobri minha legitimidade como jornalista ao escancarar a ponte com o leitor - "interatividade" no
Correio não era jogadinha de marketing, mas vínculo honesto, mesmo. O que para muitos seria "um saco", para mim, uma dádiva receber e responder mesmo a centenas de leitores diariamente. E o jornal foi maravilhoso ao criar e ampliar a coluna "Desabafo" em local nobre, ao lado do editorial, e ao dar uma página inteira para o "Correio DO Brasiliense".
Canal: Quais desafios você enfrentou ao designar um espaço diário aos leitores?
Catalão: Só no começo houve resistência. Depois os leitores fotografavam, escreviam mini-ensaios, artigos, ilustravam, enviavam tiras de histórias em quadrinhos, propunham e respondiam enquetes polêmicas da semana. Esta ponte era fundamental, pois a direção havia criado especialmente para mim uma "Editoria de Pesquisa e Informação" que servia de interlocução com o arquivo geral do
Correio para dar contexto às notícias e cadernos especiais - antológicas criações para retrospectivas do ano. O ponto principal era a participação dos leitores, mesmo, em opinião e proposição e não apenas como platéia reativa.
Canal: A criação do Conselho de Leitores do Correio e a presença do
ombudsman na Folha de S. Paulo, por exemplo, são exemplos raros da participação do leitor no cotidiano das redações. Por que se dá pouco espaço a essa empreitada jornalística?
Catalão: Medo de ir fundo. Criar relações é se comprometer e isto dá um trabalho absurdo. E também falta de profissionalismo em assumir de verdade que são os leitores quem justificam produzir, imprimir e colocar no ar qualquer veículo de comunicação. Ouvidoria não é para ouvir queixas ou só dar satisfações. Conselho de Leitores é para oxigenar pautas, tirar jornalistas da redoma autoritária, mexer com os "gênios" pelo retorno do cotidiano. As empresas usam a interatividade ou para malandragem que "aponta tendências do consumo" ou para fachada que exerce o chavão medíocre da cidadania representativa. O canalha só quer "opinião pública" para pautar sua agenda de engodos e jamais para mudar sua atitude. Daí tantos discursos ocos, sem veias com o testemunho vivo.
Canal: Qual é então a perspectiva de projetos que permitem ao leitor interagir diretamente com o jornal: expansão ou extinção?
Catalão: Sinceramente, não sei. Posso estar equivocado pelo meu afastamento da área, mas nunca vi nada igual ao que fizemos no
Correio. Virou tese na USP, até. Não vejo nada igual agora, nem nada no futuro.
Canal: Qual recado você daria aos jornalistas no ano em que se comemoram duas décadas da democracia brasileira?
Catalão: Não desistam dos caminhos difíceis. Os atalhos são armadilhas que "às vezes não dão chances para a volta". Quem tem de ser especial é você, não o seu cheque. E mantenham a permanente relação entre estética e conteúdo. Jornalismo também é linguagem e se alimenta de referências culturais. Muita curiosidade aberta para tudo. Disciplina. Leituras, leituras, leituras, pois a língua tem arquitetura e repertório se amplia e renova. E bote fé que "eles" são muitos, mas não sabem voar.
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