editorial | especial | debate | imprensa em foco| links
mídia eletrônica 
| cultura | perfil 
olho vivo 
canal do leitor | e-mail | expediente

anteriores
| próximas edições |
inicial


Mártir da liberdade

Paulo Henrique Mondego 

"(...) Terrível liberdade de imprensa, que clama a uns não matarás, a outros não prenderás, não substituirás o teu interesse ao dos mais; não te servirás de autoridade pública para satisfazer as tuas vinganças, não sacrificarás o teu dever ao poder! Incapazes de resistir à evidência dos argumentos positivos sobre que se apóia a necessidade de imprensa, os amigos das trevas se vestem da capa da moral e do sossego público, apontam os abusos desta liberdade, a calúnia, a difamação, as provocações diárias, os axincalhes continuados, que tornam a vida um suplício(...)." 

Já vai alta noite na Província de São Paulo. Um homem, de educação nobre, caminha pela Rua São José em direção a sua casa. Poucos metros dali, quatro alemães o abordam e pedem a publicação de uma correspondência contra um alto-funcionário do governo. O homem nega-se a entregar o material naquela noite. Um dos alemães dispara dois tiros de pistola à queima-roupa. Sua artéria foi atingida. Ele grita em desespero por socorro. Os assassinos fogem temendo ser descobertos. Pouco tempo depois, alguns estudantes levam o corpo moribundo do jornalista Giovanni Baptista Líbero Badaró.

Ele espera estirado em uma cama sua morte iminente. Levanta-se sobre um dos cotovelos e diz a célebre frase, que mais tarde estaria inscrita em seu féretro: "Morre um liberal, mas não morre a liberdade." Na noite de 21 de novembro de 1830 morria o liberal Badaró. Morreu porque falou "demais". Morreu porque falou de liberdade de expressão. Morreu porque era contra o autoritarismo de dom Pedro I, que alguns alegam ser o mandante do crime.

Nascido na Itália em 1798, Líbero Badaró teve uma educação que lhe possibilitou a publicação de algumas obras sobre fisiologia, zoologia e botânica na Europa, antes de chegar ao Rio de Janeiro em 1826. Além de médico, era um jornalista liberal disposto a trazer à tona tudo o que era contra a liberdade de expressão. Foi quando ele conheceu o publicista Evaristo da Veiga, fundador do jornal Aurora Fluminense, de quem teve a inspiração para criar, em 1829, o Observador Constitucional em São Paulo.

Com uma linha editorial que privilegiava o "liberalismo progressista", e sendo o segundo jornal da província paulistana, o periódico era contra os desmandos e os disparates das autoridades da época, ou seja, o governo. "Badaró usava uma linguagem violenta, pregando suas idéias liberais e atacando até mesmo o próprio imperador Pedro I." Assim, criou-se um clima de tensão política entre o imperador e o povo que se revoltou com a morte de Badaró levando, mais tarde, a abdicação ao trono em 7 de abril de 1831.

A morte de Líbero Badaró tornou-se um ícone da luta pela liberdade de imprensa. O seu funeral foi marcado por fortes manifestações contra o governo imperial. Quando a República foi proclamada, o povo resgatou a importância de todos estes acontecimentos. A rua em que foi assassinado passou a ter o seu nome. Hoje, um dos maiores prêmios de jornalismo também leva seu nome. Além disso, construíram um monumento para abrigar seus restos mortais. Logo depois, o povo o aclamou como mártir da liberdade. Parafraseando Badaró: Morreu um liberal, mas ressurgiu - ainda mais forte - a liberdade.