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Liberdade, e pronto!

Angélica Maffi

Julio César de Mesquita. Para os amantes do moderno jornalismo brasileiro, o fundador. Para outros, um idealizador, um ícone.

Nascido em Campinas em 18 de agosto de 1862, Mesquita foi colaborador de A Gazeta de Campinas, quando em 1888 ingressou definitivamente no jornal A Província de S. Paulo, nome de "O Estado" até a proclamação da República em 1989. O Estadão foi criado em 1975 e tinha como lema: a abolição da escravatura, a quebra do monopólio do poder e a proclamação da República.

Foi apoiado por sua família em seus estudos. Formou-se pela escola do Largo de São Francisco em Direito, em 1883. Deixou a carreira de advogado tomado por uma intensa paixão: o jornalismo e a política.

A trajetória política deu início quando foi eleito vereador em Campinas, seguido pelo cargo de secretário do primeiro governo provisório republicano de São Paulo. Foi deputado à Constituinte paulista, senador estadual e deputado federal.

Mesquita gerenciou o jornal A Província que, outrora fora fundado por adeptos do partido Republicano Paulista. O impresso tinha uma edição de quatro mil exemplares. Porém, não era conhecido fora do território paulista. Nas mãos de Mesquita, o órgão ganhou importância nacional, sendo conhecido também pelo maior parque gráfico.

No ano de sua morte, 1927, aos 65 anos de idade, o jornal sobrepujava os 60 mil exemplares diários. Mesquita julgou prudente, romper relações com o governo Campos Salles - parente de sua esposa, Lucila Cerqueira César. A decisão desagradou os acionistas do jornal. Investiu na compra de suas participações e passou a ser publisher do veículo. Orgulhava-se, pois, agora o jornal seria como sempre sonhara: livre, sem qualquer vinculo partidário. E mais do que nunca, democrático.

Nas páginas do Estadão vinculavam seus ideais. Apresentou a todos os leitores os vícios da "política dos governadores", repreendeu o caudilhismo, era a favor do voto livre e apontou a instrução pública como único meio pelo qual a democracia poderia ser consolidada. Integrou-se a campanha civilista de Ruy Barbosa, "devoto" de Olavo Bilac, apontou os erros contidos nas oligarquias. Com grande exaltação foram propagados nacionalmente seus comentários políticos.

Em 1924, durante a revolução, Mesquita foi preso e a circulação do jornal suspensa. Em 1902, era editor da série de reportagens de Euclides da Cunha sobre a Guerra de Canudos, que traria a grande obra Os Sertões, best-seller da literatura brasileira. 

Problemas pulmonares o levaram ao afastamento de suas atividades. Morreu em 15 de março de 1927. Em sua autobiografia dedicou linhas aos seus ancestrais:

"Descendo de modestíssimas famílias tramontanas que, com certeza. nunca puseram os pés plebeus nas escadas de mármore e nos tapetes vistosos e fofos dos suntuosos paços dos reis, em Lisboa. Os meus antepassados viveram e morreram esquecidos na longínqua província, talvez de enxada em punho, desde a madrugada até a noite, ao vento e à chuva, ao sol e à neve, cavando desesperadamente os seios ingratos da terra madrasta, por não morrerem de fome e por não se verem na dura necessidade de transmitir aos netos uma nódoa infamante. (Julio César Mesquita)".