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"Paparadoxalismo"

Paulo Henrique Mondego

Paradoxal. Essa é a principal característica da história de Eugênio Pacelli. Não fosse o título que possuía, talvez não seria tão polêmico. Simplesmente, o papa Pio XII. Sua história se confunde entre ações contra doutrinas totalitárias e concordatas com o mais cruel genocida que a humanidade já teve, Adolf Hitler. Não se sabe ao certo o pensamento do pontífice. Ao que tudo indica, era um farsante que usou da sua habilidade diplomática para conseguir benefícios políticos e econômicos.

Prova disso foi o Tratado de Latrão, em que Pacelli* se vendeu por 750 mil liras compactuando com a ideologia fascista de Mussollini. "A mão que abençoava os cristãos apertou a mão de quem sufocava as liberdades." Assim, a igreja tornava-se autoritária tal qual o Estado.

A afeição de Pio XII com os bávaros era nítida, tanto que fora chamado de il tedesco, "o alemão". Além disso, considerava-se germânico por adoção. Justificando então o idioma tedesco como sua segunda língua. Como bom filho da pátria adotiva, recusou-se denunciar as barbáries cometidas pelo nazismo, mesmo dispondo da única rádio independente de toda Europa ocupada. 

O silêncio do último papa representante da nobreza, justificava-se pelo fato de não suportar a idéia do fim de sua linhagem nobre, atingida pelos "bolcheviques ateus". Implacável anticomunista, viu-se como única alternativa aliar-se a Hitler e Mussolini. Pois, somente as tropas "nazi-fascistas" poderiam aniquilar os responsáveis pelo padecimento da igreja e nobreza.

Conspiração?

Há quem discorde. O cardeal Georges Cottier, teólogo da Casa Pontifícia, afirma com todas as letras que tal acusação é uma calúnia, fruto de excessiva injustiça. E usa como argumento, que "a busca da verdade histórica não se consegue alimentando polêmicas e suspeitas". 

Outra defensora de Pio XII foi Golda Meir, ministra do Exterior do Estado de Israel, na época, que reconheceu a voz do papa para condenar os perseguidores dos judeus. Assim, a omissão de que o papa fora acusado perde sua força, pois nota-se que seu silêncio não fora absoluto.

Algumas publicações divulgadas também mostraram-se a favor de Pacelli. Em Three Popes and the Jews (Londres, 1967), o judeu Pinchas E. Lapide "estima que Pio XII e vários padres e freiras tenham salvo em torno de 850 mil judeus da fúria nazista até a custa da própria vida". Em sua obra relata o fato de um judeu se converter ao catolicismo em função do livramento dos judeus por parte dos católicos.

Pelo visto há muitas contradições no período que marcou o papado de Pio XII. Parece que a verdade foi ocultada na sepultura do pontífice. Talvez o mistério do paradoxo papal jamais seja desvendado.

* Pacelli foi núncio apostólico do Vaticano na Alemanha durante a ascenção de Hitler.

Ver também A conspiração do silêncio (22.ª edição).