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A favor da ciência e contra a insipiência

Allan Novaes

Ícone da militância acadêmica e profissional do jornalismo científico, Wilson da Costa Bueno trabalha há mais de duas décadas com a divulgação científica. Os sinais da sua militância podem ser observados pelo extenso currículo. É professor de comunicação da USP e da Umesp, já orientou cerca de 80 dissertações e teses nas áreas de Jornalismo Científico, Comunicação em Agribusiness e Meio Ambiente e Comunicação para a saúde, entre outras. Cabe a ele ainda a primeira produção acadêmica na área - a tese de doutorado defendida na ECA/USP, intitulada "Jornalismo científico no Brasil: os compromissos de uma prática dependente", em 1987. 

Soma-se a sua bagagem acadêmica, a ex-presidência da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e a elaboração da política de comunicação empresarial da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Atualmente, além das aulas e orientações acadêmicas, Bueno é editor do Portal do Jornalismo Científico (www.jornalismocientifico.com.br) e diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa.

Ninguém se surpreenda, portanto, quando Bueno define o jornalismo científico não como uma mera "opção de trabalho" ou "atividade burocrática", mas antes como "compromisso mesmo". Em entrevista ao Canal, o jornalista defende a importância do jornalismo científico para a sociedade e demonstra confiança na gestão Lula para o desenvolvimento da política de C&T (Ciência e Tecnologia) no País. Bueno também critica duramente os pecados que a imprensa comete ao divulgar a ciência e não perdoa a postura de grandes empresas, como a Monsanto, na sua relação com o meio ambiente e a mídia.

Canal da Imprensa - Por que é tão importante que a ciência seja aceita e compreendida pelas pessoas e como fazer com que a sociedade enxergue essa necessidade?

Wilson Bueno -
A ciência e a tecnologia impactam a vida dos cidadãos e, portanto, eles precisam estar em condições de incorporar os benefícios que elas trazem e de se defenderem dos prejuízos que elas lhes causam. Bem informada, a sociedade pode participar do processo de tomada de decisões e definir prioridades, investimentos em ciência e tecnologia. A sociedade (e as pessoas em particular) tem o direito de influir no processo de introdução de novas tecnologias no setor produtivo, no sistema de trabalho, na sua vida.

Canal - A gestão Lula tem cooperado para o avanço dessa causa?

Bueno - Em princípio sim, porque, na medida em que este governo abriga, mesmo no partido majoritário, opiniões divergentes, têm ocorrido debates sobre temas polêmicos (transgênicos, células-tronco, licenciamento ambiental em geral, entre outras coisas). Poderia se fazer muito mais, mas a incidência dos interesses políticos e econômicos e os grandes lobbies comerciais continuam prevalecendo, de modo a privilegiar um modelo econômico que nos mantém reféns da tecnologia importada. O discurso é mais retumbante do que os investimentos reais. Mas, especialmente, confio nele porque as opções possíveis são (já demonstraram isso) muito piores.

Canal - Apesar do Brasil apresentar um índice de crescimento de cerca de 15% ao ano, no que diz respeito à produção científica mundial, porque encontramos tão pouco espaço para matérias de Ciência e Tecnologia (C & T) nos veículos de comunicação? 

Bueno - O sistema de produção jornalística ainda tem vícios importantes e continua atrelado a espetacularização da notícia e a fontes "carimbadas". A fragilidade econômica da mídia (vide rombo fantástico da Globo),a falta de competência administrativa dos empresários de comunicação e a busca muitas vezes sem escrúpulos pelo apoio comercial empurram a mídia brasileira para pautas viciadas, comprometidas com os grandes interesses. Nesse cenário, há pouco espaço para o dia-a-dia da ciência, que apenas comparece quando há fatos e resultados sensacionais. Agrega-se a isso a pouca competência em comunicação dos nossos principais centros geradores de C & T (universidades, institutos de pesquisa, empresas de tecnologia) e a falta de visão dos editores. Mas já melhorou bastante - talvez mais por pressão do "mercado" e da sociedade do que pela conscientização dos envolvidos na produção jornalística. 

Eu diria também que falta gente capacitada nos veículos para uma cobertura competente de Ciência e Tecnologia, embora, também sob este aspecto, estejamos melhorando a olhos vistos. A gente chega lá, se a incompetência e obscurantismo dos patrões da imprensa atrapalharem um pouco menos. Mas, como jornalistas, temos que fazer o nosso papel. Com essa acomodação e essa falta de garra, a realidade mudará pouco e lentamente. Se a gente bobear, as conquistas (pequenas, mas importantes) podem até ficar perdidas.

Canal - Os estudos relacionados à filosofia da ciência mostraram que não se pode duvidar da influência da cultura, das crenças e das ideologias na maneira de se fazer (e de se divulgar) a ciência. Até que ponto a visão de mundo da sociedade é representada pela ciência? Que visão de mundo a ciência representa hoje?

Bueno - Com certeza, a ciência é refém do seu tempo e reflete o momento no qual vivemos. A ciência de hoje é uma ciência atrelada a grandes interesses (comerciais, militares, etc) e a divulgação científica reflete isso. A ciência, sobretudo a chamada big science, depende de grandes patrocinadores e está umbilicalmente amarrada a empresas e governos necessariamente não-comprometidos com o bem-estar da sociedade. 

Temos uma ciência e uma tecnologia que definem prioridades, escolhem objetos de estudo em função destes apoios e que, por isso, quase sempre dão as costas às verdadeiras demandas sociais. Há muito mais recursos para a pesquisa sobre disfunção erétil do que sobre doenças endêmicas do Terceiro Mundo e a biotecnologia (considerada a salvação da fome, equivocadamente), por exemplo, vai ser canalizada para culturas de exportação de soja, milho e algodão, em detrimento das culturas alimentares. Por trás de tudo, há o monopólio das sementes, o interesse da indústria agroquímica, entre outras coisas.

Estamos na era da ciência e da tecnologia de inspiração militar do Governo Bush e dos grandes interesses comerciais (leia-se Monsanto [empresa multinacional de agrotóxicos pioneira na manipulação genética de plantas e alimentos], Nestlé, Microsoft, etc).

Canal - Nesse caldeirão de ideologias e motivações científicas, o que se pode exigir dos jornalistas que divulgam a ciência?

Bueno - Deve-se exigir militância, compromisso, atenção redobrada. O conselho básico é: "não tem almoço grátis". Desconfie sempre. Atrás de uma Monsanto, muitas vezes se encontra o capeta mesmo. Na verdade, santo e capeta são apenas palavras, já que no discurso da ciência não cabem santos e capetas, pelo menos com a mesma acepção que deles têm os religiosos. O que vale sempre é a suspeição, a vigilância. Este é um lugar onde cão come cão.

Canal - Quais são os grandes pecados da imprensa ao divulgar a ciência?

Bueno - Praticar o sensacionalismo, desconsiderar o background sócio-cultural, econômico e lingüístico da audiência, não ter espírito crítico (para conseguir enxergar além da notícia), não estar capacitada para cobrir temas complexos, ser seduzida pelos interesses comerciais e pelas fontes oficiais, hoje apoiadas por agências de assessoria e de propaganda competentes, mas não obrigatoriamente éticas. Mas grave mesmo é achar que o debate não é importante ou só deve ser feito a partir de representantes que integram a elite brasileira. 

Como sempre digo, citando um caso específico, o debate sobre biodiversidade não pode ficar restrito apenas aos professores e doutores, porque eles têm, quase sempre, uma tendência a pensar como as grandes corporações. Eles estão mais próximos da Monsanto do que do povo da floresta. Evidentemente, há exceções maravilhosas, que precisam ser festejadas.

Canal - Diante de tantos desafios, como você define o papel do jornalista científico no século XXI?

Bueno - O jornalista científico deve ser um militante, uma pessoa comprometida com os interesses da maioria. Não deve fechar o foco e enxergar apenas a notícia como forma de conquistar a audiência, mas estar atento para enxergar a que interesses ela serve. O importante não é divulgar qualquer ciência e qualquer tecnologia, mas a boa ciência e a boa tecnologia, as que não desempregam, não mantêm os privilégios de grupos e governos, não afrontam a ética, não penalizam a sociedade. 

O jornalista cientifico deve perceber que, numa sociedade como a nossa, ele é um privilegiado, que tem voz e acesso à opinião pública. Não pode jogar no lixo esta responsabilidade. Ele precisa cumprir o seu papel: democratizar o conhecimento científico e incluir os menos favorecidos no debate. Ciência e tecnologia, definitivamente, não são coisas que devem ficar restritas às pessoas ricas, às pessoas cultas, às pessoas que freqüentam os lugares refrigerados da sociedade. A história tem demonstrado que os poderosos tendem a se apropriar das boas coisas para perpetuar o status quo que lhes mantêm no topo. 

É preciso enxergar a ciência e a tecnologia como instrumentos de libertação, de transformação. Esta é uma utopia da qual o jornalista científico não pode abrir mão. Caso contrário, ele vai acabar dormindo no colo da bruxa "Roundup" [herbicida produzido pela Monsanto]. E vai começar a defender o monopólio das sementes, a transgenia a qualquer preço, o derramamento irresponsável de veneno na agricultura e por aí vai. 

O jornalista científico tem que ter, além de competência profissional, ética e olho vivo. Jornalismo científico, como qualquer jornalismo a que se agregue adjetivos (ambiental, de saúde, etc), é muito mais do que uma atividade burocrática ou uma opção de trabalho. É compromisso mesmo. Nessa área em particular, sem esse compromisso, ele não passará de boneco de ventríloquo.