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Conhecimento popularizado

Lêda Maria   

"Eu me recordo de ter lido quando criança, fascinado e emocionado, as novelas marcianas de Edgar Rice Burroughs. Viajei com John Carter, cavaleiro e aventureiro de Virgínia, até 'Barsoom', o nome que seus habitantes davam a Marte...Consegui a mão da bela Dejah Thoris, princesa de Helium. Tornei-me amigo de um lutador verde de quatro metros, chamado Tars Tarkas. Passei pelas cidades pontiagudas e pelas estações em abóbadas de Barsoom e ao longo das verdes veredas dos canais de Nylosirtis e Nephentes ... John Carter conseguiu chegar ali simplesmente pondo-se de pé em um campo, estendendo suas mãos e desejando-o. Recordo-me de haver passado quando criança, muitas horas com os braços firmemente estendidos solitário em um campo implorando ao que acreditava ser Marte, para que me transportasse até ali. Nunca deu resultado. Tinha que haver outros meios." (Carl Sagan)

Carl Edward Sagan, astrônomo, escritor e biólogo, desde a infância dava sinais de sua vocação para a ciência. Quando aos cinco anos foi à Exposição Mundial de 1939, em Nova York, ficou impressionado com as visões futuristas da época. O céu noturno o fascinava e como ninguém soubesse ou quisesse explicar-lhe o que eram as estrelas, aos sete anos sua mãe o levou à Biblioteca Pública de Nova York e ele pediu um livro sobre estrelas. Naquela época não havia nome para o que ele desejava ser: queria viajar e investigar a vida em outros planetas, estudar as estrelas e desenhar naves espaciais. 

Nascido no coração do Brooklyn, em Nova York, Sagan era filho de imigrantes provenientes da Europa Central. Seu avô, segundo conta uma lenda familiar, a fim de evitar uma condenação por assassinato, decidiu, de repente, fugir para o Novo Mundo. E o primogênito dos Sagan, que recebeu o nome da avó (Clara), que nem conheceu, tornou-se um dos maiores divulgadores da ciência e seus métodos, na imprensa e na TV. Sagan dedicou sua vida na busca de civilizações extraterrestres, o estudo dos planetas e a promoção de projetos que visavam o bem-estar da humanidade. Sempre combateu o misticismo, as superstições e a crendice, sendo um grande incentivador do pensamento científico, racionalista e ceticista.

Sagan realizou seus estudos preparatórios na Radway High School, em Nova Jersey, onde se destacou como o melhor - e mais inteligente - estudante. Ao terminar o curso preparatório, mudou-se para Chicago para estudar na universidade local. Ali teve que abandonar seu interesse por foguetes como meio para viajar pelo espaço porque a universidade não contava com um departamento de Engenharia. Então, concentrou-se em estudar o que sempre o fascinou: as estrelas. Terminou o bacharelado em 1955; em 1956 já era Mestre em Física; e o Doutorado em Astronomia e Astrofísica em 1960, sob a tutela do Dr.Gerard Kuiper, conhecido como o Pai da Ciência Planetária Moderna. 

Ensinou na Universidade de Harvard desde 1960, até ir em 1968 para a Universidade de Cornell em Ithaca, Nova York, onde se tornou diretor do Laboratório de Estudos Planetários, no Centro de Radiofísica e Investigação Espacial - cargo que, juntamente com suas aulas nesta universidade, ocupou pelo resto de sua vida.

Em 1957, Sagan divulgou os resultados de sua primeira grande pesquisa como cientista, na qual propôs um efeito estufa em Vênus. Os cálculos perfeitos, comprovados pelos dados transmitidos pela sonda espacial Mariner II, tiveram impacto e assim foi convidado pela NASA para trabalhar como cientista colaborador. Em 16 de junho de 1957, casou-se com a estudante Lynn Alexander, que também causou controvérsias com suas teorias revolucionárias sobre a evolução da vida na Terra.

Explorando o espaço

Sagan desempenhou papel influente no programa espacial norte-americano desde o início. Foi consultor e conselheiro da NASA desde 1950, participando do Projeto Apollo. Incentivou a pesquisa à procura de sinais de vida em outros lugares do universo e participou de grandes projetos de exploração do Sistema Solar como Mariner, Viking, Voyager e Galileo. Mas, ao concentrar-se em suas ambições, seu casamento entrou em crise, e em 1963 se divorciou de Lynn Alexander.

Com uma experiência acumulada em anos como professor e cientista, Sagan observou que os cidadãos comuns também deveriam ser introduzidos no mundo da ciência. E então, com grande entusiasmo se empenhou na tarefa de popularizar a ciência. Carl começa a publicar artigos de divulgação científica em revistas não-especializadas e aparecer em programas de televisão. Mas se tornaria popular por conta de uma placa. 

Em 1973, foram lançadas as sondas espaciais Pioneer 10 e 11 com a finalidade de transmitir imagens e dados de Júpiter e Saturno. Sagan e seu amigo, Frank Drake, conseguiram autorização da NASA e fundos para incluir na Pioneer 10 uma placa com símbolos, no caso de alguma civilização extraterrestre se deparar com a nave. A placa foi planejada por Drake e Sagan e desenhada pela artista Linda Salzmann, sua nova esposa com quem se casou em 6 de Abril de 1968.

A chave para decifrar a placa consistia em entender o elemento mais comum no universo: o hidrogênio. Este elemento vinha ilustrado na parte esquerda da placa em forma esquemática. Qualquer ser proveniente de uma civilização, com conhecimento científico suficiente para compreender o hidrogênio deveria ser capaz de interpretar a mensagem. Estava indicada também a posição da Terra no Sistema Solar. Tudo isto teria passado despercebido não fosse o fato de que também foram incluídas gravuras que mostravam um homem e uma mulher nus. 

A mídia se apressou em mostrar imagens da placa em jornais, revistas e televisão, revolucionando a tradicional América do Norte. A placa tão simples provocou as mais diversas reações. As redações dos jornais recebiam cartas furiosas, que acusavam a NASA de desperdiçar dinheiro, mandando obscenidades para o espaço. Também haviam feministas ofendidas porque consideravam que a mulher da placa parecia ser uma subordinada do homem. Enquanto muitos idignaram-se pensando que, ao mostrar a localização da Terra no Espaço, seria muito mais fácil para civilizações bélicas conquistarem ou destruírem o planeta.

Mais tarde quando foram enviadas as naves Voyager I e II, Sagan e Drake enviaram outra mensagem interestelar. Mas, como a tecnologia havia avançado bastante, não foi enviada uma placa, e sim, um disco contendo 118 fotos, sendo que 20 delas eram em cores, saudações em 55 idiomas e sons da Terra: 19 sons diferentes e 27 melodias de todas as partes do mundo. 

A jovem encarregada de conseguir os sons incluídos no disco, Ann Druyan, era amiga do casal Sagan. Mas ao trabalhar tão junto a Carl, acabaram perdidamente apaixonados. Embora Ann e Carl fossem comprometidos, em pouco tempo Carl abandonou sua esposa para viver com Ann, com quem permaneceu até sua morte.

Sua participação no projeto SETI (Busca de Inteligência Extraterrestre) e no projeto de observação espacial dos planetas obteve um vasto número de condecorações: medalha da NASA de Serviços Públicos Distintos, prêmio de Astronáutica John F. Kennedy e prêmio Leo Szilard da Física no Interesse Público, devido a sua descoberta do inverno nuclear. 

Um projeto de vida

Em 1979, Carl empreendeu um dos maiores desafios de sua vida: escrever, produzir e apresentar um audacioso programa de televisão. A série televisiva Cosmos: uma viagem pessoal, com treze capítulos, levou três anos para ser produzida e incluiu filmagens em 12 países. O conteúdo do programa abordou a questão dos prováveis 20 milhões de anos de evolução do Universo; a exploração de Marte, Vênus, Júpiter e Saturno; a possibilidade de vida extraterrestre; a vida e a morte das estrelas; o perigo que representam para a Terra as armas nucleares; a destruição do meio ambiente e o possível destino da humanidade. 

Cerca de 140 milhões de pessoas acompanharam a estréia do programa, que foi ao ar em setembro de 1980, e tornou-se a série científica de maior êxito de todos os tempos vista em mais de 60 países. Cosmos rendeu a Carl e sua equipe os troféus Emmy e Peabody, e o livro que resultou da série foi um grande bestseller, que se manteve nas listas dos mais vendidos por vários anos. 

Carl escreveu vários livros, entre eles Os Dragões do Éden, que trata da evolução da inteligência e valeu o prêmio Pulitzer. O romance Contato narra o suposto primeiro contato com seres inteligentes de outros mundos. Cometa, em comemoração ao regresso do cometa Halley, e O Mundo Assombrado pelos Demônios, onde defende a divulgação da ciência e da tecnologia pelos meios de comunicação como forma de desmistificar a pseudociência e difundir o conhecimento. 

Para Sagan, os meios de comunicação de massa deveriam ser aproveitados na divulgação científica. Segundo ele, a ciência precisa ser mostrada como atuante em todos os campos de interesse do público banindo aquele estereótipo de cientistas loucos e, mostrando como a ciência e a tecnologia podem auxiliar no bem-estar humano.

Em 1981, Carl deixou os projetos de exploração planetária e se concentrou em temas mais terrestres, como a deterioração do meio ambiente e o cuidado da Terra. Seu maior interesse era uma área específica da biologia, a "exobiologia" que tem por objetivo descobrir e estudar a vida extraterrestre. Sagan foi um dos pioneiros nessa área de estudo. 

Ao final de 1994, uma mancha escura no braço de Carl anunciava o princípio de uma doença rara do sangue: mielodisplatia. Depois de dois transplantes de medula Carl Sagan morreu em 20 de dezembro de 1996, aos 62 anos de idade. Ele que com dedicação levou milhões de pessoas pelo caminho da ciência e do pensamento lógico e racional. 

Cético por natureza, nem no leito de morte, Sagan deu sinais de crença no sobrenatural. Ann Druyan, sua esposa falando à revista Newsweek disse: "Não houve conversão no leito de morte. Nenhum apelo a Deus, nenhuma esperança sobre uma vida pós-morte, nenhuma pretensão que ele e eu, que fomos inseparáveis por vinte anos, não estávamos dizendo adeus para sempre". Quando lhe foi perguntado: "Ele não queria acreditar?", Ann respondeu enfaticamente: "Carl nunca quis acreditar. Ele quis saber".