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O "rei" da divulgação científica

Tiago Cabreira

Nome de prêmio científico, José Reis é o patrono de todo os jornalistas científicos do Brasil e também daqueles que acreditam que isso ainda pode ajudar a mudar alguma coisa.

Décimo primeiro filho de uma família composta por treze irmãos, desde pequeno já se destacava. Ensinava às empregadas da sua casa a ler e escrever. Seus cadernos de escola não continham apenas matérias dadas pelos professores, mas comentários que o menino fazia - muitas vezes contrários ao que era ensinado -, e um conteúdo suplementar pesquisado e descoberto por ele.

Nascido em 12 de junho de 1907, no Rio de Janeiro, o menino não se manteve no anonimato. Aos 17 anos, depois da conclusão do seu curso secundário, obteve seu primeiro prêmio, "Pantheon", conferido somente aos melhores alunos do colégio Dom Pedro II.

Não demorou muito para aquele moço ingressar na Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, na cadeira básica de Microbiologia. Paralelamente ao curso de Medicina realizou o curso de aplicação em Patologia, no Instituto Osvaldo Cruz, onde obteve, com mérito, a medalha de ouro do prêmio Osvaldo Cruz que, no entanto, não lhe foi entregue por falta de verbas.

Desde então, os convites para trabalho só aumentaram. Em 1930, concluiu o curso de Medicina e foi convidado pelo professor Thomas M. Rivers, para estagiar no Instituto Rockfeller, nos Estados Unidos. Seis anos depois, de volta ao Brasil, publicou seu primeiro livro, Tratado de Ornitopatologia, em colaboração com Paulo Nóbrega e Annita Swenson Reis.

Sua promissora carreira de divulgador da Ciência havia apenas começado. Contratado para trabalhar no Instituto Biológico de São Paulo como bactericista, o jovem biólogo passou a pesquisar sobre uma peste que assolava as galinhas da região. Ansioso por compartilhar suas descobertas com a sociedade sentiu a necessidade de divulgar seus curiosos resultados, a fim de ajudar a resolver a vida das pessoas.

Foi então que, por meio de uma linguagem fácil e acessível, no qual o conteúdo científico foi adaptado ao meio popular, que Reis passou a preparar panfletos e escrever artigos para revista agrícola Chácaras e Quintais. Esses foram artigos pioneiros no ramo do jornalismo científico.

Em 6 de abril de 1947, após participar de vários cargos do serviço público de São Paulo, José Reis inicia seu trabalho de divulgador na Folha da Manhã - responsável pela Folha da Noite e Folha de S.Paulo. Inicialmente, escreveu sobre assuntos administrativos, mas em seguida, passou a divulgar temas acerca de ciência, tornando-se o editor de Ciência do jornal. Em 8 de junho do mesmo ano, o cientista participou maciçamente da fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, e criou a Ciência e Cultura, revista de divulgação científica apoiada pela entidade.

Três anos depois, com seu registro profissional de jornalista, Reis se tornou diretor de redação da Folha de S.Paulo. Desde então, sua carreira deslanchou. Participou de palestras de norte a sul, escreveu e publicou livros, estimulou feiras de ciências e prêmios para as crianças, além de suas incansáveis lutas pela instituição das fundações de amparo à pesquisa, como a Associação Brasileira de Divulgação Científica (ABRADIC), onde foi presidente de honra.

O biólogo e cientista conquistou vários prêmios como o Kalinga, de divulgação científica; o Ciência e Cultura, do governo do Estado de São Paulo de Jornalismo Científico e o prêmio John R. Reitemeyer de Jornalismo Científico, conferido pela primeira vez pela Sociedade Interamericana de Imprensa e pela União Panamericana de Imprensa.

José Reis nunca descansou. Atuou como jornalista no jornal Folha de S.Paulo, na coluna "Periscópio" até sua morte, em 16 de maio de 2002. Da vida de José Reis é possível extrair a simplicidade de um homem que viveu a frente de seu tempo. Para o jornalista, médico, pesquisador e educador "o mais importante não é saber muito, mas saber bem". Em entrevista concedida a revista Ciência Hoje, em 1982 ele afirmou que "o leitor identifica em (meus) escritos a única virtude que eles realmente têm, a sinceridade".