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Doutor
em revistas
Fernando Silva
Novaiorquino. Milanês. Novaiorquino novamente. Victor Civita (1907-1990) teve uma trajetória considerável antes de ancorar no Brasil. Aos dois anos de idade saiu do continente americano em direção ao país do famoso Coliseu, Itália, terra natal de sua família. Durante o período da Segunda Guerra Mundial, a família cruzou o Atlântico em direção à Nova Iorque. Não por muito tempo, pois numa viagem ao
Brasil em 1949, não retornou ao lar. Pediu para que sua esposa fizesse as malas e voasse para o
"País do futebol".
Ao perceber que o País tinha um mercado inexplorado no setor de revistas, decidiu investir. Sem perder tempo, mandou um telegrama à esposa dizendo para vender tudo o que tinha em Nova Iorque. Quinhentos mil dólares foram o montante que Civita tirou do bolso para montar uma redação em São Paulo - semelhante à editora que seu irmão mais velho César tinha em Buenos Aires. Era o começo do maior império editorial da América do Sul, a
editora Abril. Aliás, editar revistas estava no sangue. Quando adolescente, enquanto ajudava o pai na oficina de automóveis, criou uma revista sobre carros para os clientes da loja.
Civita começou a carreira de empreendedor com o mundo dos quadrinhos. Trazendo os direitos de Walt Disney para o Brasil, Civita arrancou lançando em julho de 1950 a revista
O Pato Donald - com um total de 82.370 exemplares. Em seguida, veio Mickey e Zé Carioca. Os anos 50 foram dedicados mais para a produção dos famosos da Disney. Somente duas revistas foram criadas:
Capricho, em 1952, e Manequim, em 1959.
Em 1960 naturalizou-se brasileiro e lançou a revista Quatro Rodas. Isso virou motivo de chacota para alguns. Recebia telefonemas na redação dizendo: "Seu Victor, o País têm seis estradas. O que o senhor vai fazer na sétima edição?" Confiante, "mandava seus repórteres desbravarem o Brasil em Kombis e motos". Foi com o sucesso de
Quatro Rodas que começou a investir em hotéis e pontos turísticos.
Dentro de uma ditadura que censurava todo e qualquer meio de comunicação, Civita tinha sua mente voltada para um futuro não muito distante. No mesmo ano do AI-5, 1968,
saiu o primeiro número da revista
Veja. O lançamento deu ao empresário italiano um grande prejuízo nos primeiros anos.
Com sua poderosa gráfica instalada na Marginal Tietê em 1964, Civita criou em 1960 as revistas
Cláudia - nome que daria a uma filha mulher, caso tivesse - e Realidade. Em 1970 e 1980, outros lançamentos se juntaram ao conglomerado editorial. Uma delas foi a
Playboy, considerada por muitos, superior à versão americana.
O poderoso dono da editora Abril era um homem que enxergava além dos difíceis anos ditadura. Civita sempre esteve cercado por profissionais competentes "que garantiram o êxito das publicações".
Ao findar os 40 anos de árduo trabalho, "a Abril de Victor Civita editava cerca de 130 publicações e rodava 150 milhões de exemplares por ano". Nenhuma nova edição ia para às bancas sem passar pelas mãos do detalhista editor. De acordo com o jornalista Paulo Markun, "não há editor na Abril que não tenha recebido seus bilhetinhos escritos com caneta tinteiro azul, comentando a capa ou uma foto qualquer".
Simples por natureza, o ítalo-brasileiro costumava dizer que a árvore de 12 folhas -símbolo da Abril - lhe dava sorte. Segundo um antigo jornalista "era modéstia
dele". "Às vezes, ele entrava na redação e recolhia as bitucas de cigarro do chão". "Ninguém poderia acusá-lo de ser mau administrador". Victor Civita, com sua simplicidade e competência, construiu o maior parque gráfico da América Latina. Tornou-se um
connaisseur - provador de vinhos - do veículo revista.
Walt Dysney sempre lembrava sua equipe dizendo que o universo da Disney havia começado com um camundongo, Mickey. Civita, no auge de seu sucesso, costumava parafrasear o editor americano. Ele também falava para sua equipe: "Não esqueçam que tudo aqui começou com um pato, Donald". Victor Civita faleceu em 24 de agosto de 1990, vítima de um infarto fulminante. Na mente das pessoas que conviveram com ele ficou a lembrança de seu modo inconfundível de saudar alguém: "ciao, caro!".
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