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Jornalista
por convicção
Bruna Marques
Referência no jornalismo brasileiro, o genovês Demétrio (Mino) Carta não se cansa de trabalhar. "Não tive a chance de me entediar na profissão", diz ele aos 71 anos. Esse italiano por
berço e brasileiro por opção é o "pai" de grandes publicações como
Veja, Jornal da Tarde, Quatro Rodas, IstoÉ,
Jornal da República e a caçula Carta Capital. Defende o espírito crítico e a fiscalização extremada do poder. Sua vida de jornalista sempre foi marcada por conflitos - sejam com patrões ou com governos.
Mino Carta veio com a família para o Brasil aos 12 anos de idade quando seu pai, Gininno Carta, que dirigia um jornal de Gênova, recebeu um convite para trabalhar no Brasil. Carta entrou com 16 anos na faculdade para cursar Direito. Neto e filho de jornalistas, formados também em Direito, ele adquiriu a intimidade com a língua portuguesa através da leitura de
Camões, Machado de Assis, Gil Vicente, Eça de Queiroz, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.
Com a Copa do Mundo de Futebol, em 1950, seu pai recebeu um convite do Il Messaggero, de Roma, para fazer uma cobertura sobre o preparo da seleção brasileira para o Mundial. Como ele detestava futebol, pediu a Mino Carta que fizesse o trabalho. Iniciava-se, então, a carreira de um dos mitos do jornalismo brasileiro.
Além do impresso
Carta era um pintor conceituado. Em 1956, recebeu um convite para trabalhar num jornal de Turim, na Itália, onde ficou por quatro anos. Aproveitou para expor suas pinturas em Milão. No Brasil, também expôs suas obras dividindo espaços com Di Cavalcanti, Rebolo e Tarsila do Amaral. Esse pintor jornalista, ou jornalista pintor, já vendeu mais de trezentos quadros.
Em meados de 1959, Victor Civita convidou Carta para comandar a revista Quatro
Rodas. Ele aceitou o convite por influência de sua mulher, Daisy, que queria voltar ao Brasil. Um ano depois, a revista começou a circular. E foi um sucesso. Em 1964, o grupo Mesquita decidiu lançar o vespertino
Jornal da Tarde e Mino Carta saiu de Quatro Rodas para dirigi-lo.
Veja
Mostrando um exímio trabalho e muito talento, recebeu, novamente, um convite dos diretores da Abril para dirigir a revista semanal, recém-criada,
Veja. Liderando a equipe, ele sabia fazer o veículo se tornar um sucesso. Era claro, objetivo e incisivo. Procurava sempre melhorar a revista, desde a diagramação até as reportagens. Mesmo durante a ditadura não deu tréguas ao poder abusivo que comandava o País. Dirigiu
Veja de 1968 até 1976.
Sua saída da Editora Abril foi traumática. Estavam em plena ditadura e o grupo Abril tinha uma grande dívida no exterior. A revista era constantemente censurada. Roberto Civita havia pedido um empréstimo ao governo federal. Esse foi negado. O governo alegou que não emprestaria dinheiro para um veículo que tinha um diretor de redação que fazia questão de mostrar todas as mazelas da ditadura. Com os ânimos
acirrados e com tanta pressão política, Mino Carta se desentendeu com Civita e pediu demissão.
Mino Carta também dirigiu a revista Senhor ao lado de Domingos Alzugaray, dono da
IstoÉ - essa última foi criada em 1976. O sucesso da revista, concorrente de
Veja, após três anos difíceis animou Carta a criar o Jornal da República. Ele acreditava que somente aliando um jornal diário a uma revista semanal seria possível superar o jornalismo praticado pela imprensa brasileira, que era dependente dos padrões norte-americanos.
Domingo Alzugaray aceitou o desafio de investir num jornal. Mesmo com os melhores profissionais do mercado, o periódico foi afetado por problemas técnicos e financeiros. O veículo circulou apenas cinco meses, e em 22 janeiro de 1980 teve seu último editorial.
Esse incansável jornalista, hoje, dirige sua criação caçula: Carta
Capital. Mino Carta não se contenta somente em dirigir revistas e
jornais: escrever romances também faz parte de seu currículo. Parcialmente autobiográfico,
O Castelo de Âmbar (2000) trata das relações da imprensa com o poder, relata como companheiros seus se venderam e sobre falcatruas
políticas. O segundo livro, A Sombra do Silêncio (2003), é uma retomada do personagem Mercúcio Parla, nome fictício dado a Mino em
Castelo de Âmbar, e conta a vida sentimental do jornalista.
Mino sempre lutou pela independência do jornalista, dos veículos e pela alta qualidade do jornalismo. Critica ferozmente o jornalismo brasileiro. "Acho o jornalismo brasileiro lamentável, muito ruim, mas excepcionalmente ruim". Ele defende com unhas e dentes o aperfeiçoamento profissional e tecnológico, apesar de não abrir mão da sua máquina de escrever Olivetti Studio,
na qual até hoje ele
escreve.
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