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Mártir Ambiental

Milenna Vieira

Tentar sintetizar a trajetória de Francisco Alves Mendes Filho, mais conhecido como Chico Mendes, é uma tarefa um tanto quanto impossível. Um homem que liderou grandes manifestações tentando conscientizar o mundo para a preservação da floresta Amazônica e do meio ambiente.
 
Ao chamar a atenção da mídia nacional e internacional para o desmatamento no Acre, conquistou importantes aliados e conquistou muitos benefícios para os seringueiros de sua região, mas também despertou a ira dos proprietários das fazendas que começaram a ameaçá-lo. E, mesmo diante das ameaças, seguiu sua vida normalmente, até que, ao ser assassinado, tornou-se um mártir do ambientalismo brasileiro.
 
Na época de suas lutas em defesa dos direitos dos trabalhadores rurais, Chico foi amigo pessoal de grandes personalidades do mundo político, entre elas, Lula. Agora, presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, assinou, em setembro do ano passado, um decreto que insere Chico Mendes na galeria dos "Heróis da Pátria", como símbolo da luta pela preservação do meio ambiente. Nela estão escritos nomes de personalidades históricas como Tiradentes, Marechal Deodoro da Fonseca e D. Pedro I. 

Embora não tivesse nenhuma formação acadêmica, o acreano e seringueiro-ecologista, nascido em 15 de dezembro de 1944, em Porto Rico, Xapuri, lutou de todas as maneiras para concretizar, ainda em vida, seu maior sonho: a criação das primeiras reservas extrativistas no Estado do Acre. Tal realização foi o marco de sua importante participação nos avanços da política ambiental do País.

Conquistas em vida

Seguindo os ensinamentos de seu pai, começou a trabalhar aos nove anos. Aos 11 começou a ler jornal. Como líder sindical, sua atuação foi intensa. Em 1975, com 31 anos, foi escolhido secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia. 

Na luta dos seringueiros pela defesa e posse de terras, em 1976, liderou vários "empates" - manifestações pacíficas que consistiam em abraçar as árvores e impedir o corte e o desmatamento. Teve participação ativa na fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e do Partido dos Trabalhadores (PT) no Acre, além de ser eleito vereador pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) da Câmara Municipal local. 

Em 1985, criou o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). Em contrapartida, foi fundada a União Democrática Ruralista (UDR) com a finalidade de combater seringueiros, especificamente de Xapuri. Começaram os primeiros conflitos e ameaças de morte por parte dos fazendeiros. 

A partir deste momento, as ações e reivindicações de Chico Mendes ocuparam páginas nos principais jornais nacionais e internacionais. Suas realizações foram reconhecidas e por cinco vezes premiadas. Destaques para o Prêmio Global 500 da ONU, em Londres e o Diploma de Ecologista do Ano, no Acre, ambos em 1987. Foi homenageado em Nova York com a "Medalha Ambiental" da Better World Society da CNN norte-americana, em setembro do mesmo ano. Prêmios oferecidos, até então, somente a ecologistas.

Mau presságio

Pressentindo que iria morrer, Chico Mendes escreveu o seguinte:

"Eles vão me matar. Os nomes deles eu digo: Darly e Alvarino Alves da Silva. Eles já mandaram matar mais de trinta trabalhadores e a Polícia Federal não fez nada. Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta, até que valeria a pena. Mas a experiência nos ensina o contrário. Então eu quero viver. Ato público e enterros numerosos não salvarão a Amazônia. Quero viver". (fonte: http://www.novae.inf.br/nomes/chico_mendes.htm)

Na manhã de 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi brutalmente assassinado em frente a sua casa quando saía pra comprar leite para seu filho, na época com apenas um mês de vida. Deixou a esposa, Izamar Mendes e dois filhos, Sandino, e Elenira.

Conquistas póstumas

Após sua morte, o Seringal Cachoeira, motivo de discórdia entre Chico Mendes e o principal acusado de sua morte, Darly Alves da Silva, foi a primeira reserva extrativista criada pelo governo federal batizada em sua homenagem como Reserva Extrativista Chico Mendes. Até hoje, foram criadas 19 reservas extrativistas no Acre, Amazonas, Maranhão, Rondônia, Pará, Amapá, Rondônia, Tocantins, Bahia, Santa Catarina e Rio de Janeiro. Os seringueiros de Xapuri, estado-símbolo da luta pela preservação da floresta, obtiveram, em março de 2002, o selo verde, o mais importante do mundo concedido pelo Conselho de Manejo Florestal. Tornou-se, assim, a primeira comunidade brasileira a explorar madeira dentro dos padrões ambientais autorizados.

Doroty Mae Stang

Dezesseis anos após a morte de Chico Mendes outro crime chocou o mundo. Dorothy Mae Stang, de 73 anos foi assassinada em 12 de fevereiro de 2005, em Anapu, região oeste do Pará. A missionária americana, naturalizada brasileira, em mais de quatro décadas de atuação constante ao lado de posseiros só conseguiu respostas após sua morte, semelhantemente a Chico Mendes. Seu falecimento forçou autoridades do mundo inteiro a responder ao crime, bem como punir aos criminosos. 

Três dias após sua morte, um abaixo-assinado foi enviado ao presidente Lula por organizações da sociedade civil. O documento chamava a atenção das autoridades para dois pontos principais: o primeiro pedia um basta a impunidade e a violência de criminosos que se beneficiam da exploração do patrimônio público. O segundo apontava que o crime contra a missionária americana é o mais recente de cerca de 125 outros crimes que vitimaram líderes e apoiadores dos movimentos sociais rurais. 

Tarefa contínua

A preservação do meio ambiente não é papel somente do governo, mas, sobretudo, de cada cidadão em suas atitudes diárias. Aprendemos que se não usarmos racionalmente as riquezas e benefícios que a natureza oferece, as futuras gerações não terão um futuro garantido. Ainda assim, muitos não entendem tamanha importância, talvez porque moram na cidade e acham que não dependem diretamente das florestas e reservas biológicas. 

Até quando essa luta será efêmera? Quantas ONGs mais ou quantos outros projetos serão formulados visando a conservação das condições de vida no planeta? E pior, quantas pessoas terão que morrer para que medidas definitivas sejam tomadas? Essas são algumas dentre muitas perguntas sem a menor condição de resposta.