O mundo das celebridades sempre se preocupou em elogiar e destacar os melhores em suas respectivas áreas. A música encontra seu auge na célebre premiação do Grammy Awards. Para o mundo do cinema, existe o badaladíssimo Academy Awards, mais conhecido como Oscar. Do mesmo modo, a indústria televisiva também consagra seus escolhidos.
O Emmy Awards[1], prêmio concedido pela Academia de Artes e Ciências da Televisão desde 1949, é considerado o “Oscar da televisão mundial”. Atores e produtores de TV sonham em receber o símbolo máximo da academia, a famosa estatueta de uma mulher alada segurando um átomo. A figura feminina, nesse contexto, representa as artes, enquanto o átomo reflete a ciência.
Sendo esse evento dedicado exclusivamente a premiar programas americanos, foi criado, em 1969, pela Academia Internacional de Artes e Ciências da Televisão, o International Emmy Awards[2], que se preocupa em avaliar a televisão internacional. Eva Obadia, representante de Marketing e Relações Públicas da premiação, reflete a importância do evento para as produções audiovisuais. “É a única competição global que reconhece a excelência de produções televisivas fora dos Estados Unidos”, orgulha-se.
Os trabalhos concorrem em várias categorias, desde programação de arte até documentários e séries de TV. O Brasil já concorreu a esse prêmio diversas vezes. Somente entre 2005 e 2009 foram 27 indicações em dez categorias diferentes.
Apesar de tantas indicações, o Brasil ganhou o prêmio apenas cinco vezes[3]. Em 1981,1982 e 1983 com o especial A arca de Noé, Morte e vida severina e na categoria direção com o jornalista Roberto Marinho, respectivamente. No ano de 2004, a produção de José Padilha sobre o sequestro do ônibus 174, foi aclamada como o melhor documentário e este ano, Caminho das Índias, da Rede globo, levou a estatueta como melhor telenovela.
Qualidade é fundamental
O Reino Unido, diferentemente do Brasil, todos os anos sai vencedor. Apenas no ano passado foram sete Emmys conquistados. O jornalista e crítico de TV, José Armando Vannucci, analisa que o Brasil ainda está muito longe de alcançar a Grã-Bretanha. “Não há como discutir. Mesmo tendo cenários e estrutura semelhantes, apesar de todas as tendências atuais, ainda estamos atrás. É preciso investir mais em qualidade de conteúdo”, argumenta.
Apesar disso, o conteúdo da TV tupiniquim não é tão ruim assim. “Essas indicações a prêmios refletem a qualidade das produções brasileiras, tanto os produtos da TV aberta, como os da TV paga”, acredita o jornalista Ale Rocha, editor do Poltrona, o maior blog brasileiro independente sobre TV. Ele ainda alega que existe um certo preconceito por parte da própria população em relação ao conteúdo transmitido pela televisão brasileira. “Muitos dizem ‘na TV do Brasil só tem porcaria, a programação norte americana é muito melhor’, o que não é verdade”, censura. Rocha defende que a programação noturna da TV aberta é de qualidade, como por exemplo, as novelas brasileiras. Alguns programas são cópias de produtos americanos, mais muitas vezes são melhores que os projetos originais.
Mãozinha do governo
Qualidade na TV brasileira não é o que falta. Escasso mesmo é o dinheiro para financiar os menos favorecidos do audiovisual. Mas nem por isso, as produções independentes ficam para trás. Elas contam com o auxílio do Ministério da Cultura por meio da Agência Nacional de Cinema (Ancine). A Ancine financia projetos de produção para cinema e produção independente tanto à TV aberta quanto à TV por assinatura mediante o Fundo Setorial do Audiovisual.
“O objetivo desse apoio é melhorar a posição competitiva das empresas brasileiras independentes. Para tanto, visamos estimular a produção de conteúdo cinematográfico e audiovisual com alto grau de competitividade nos mercados doméstico e internacional”, detalha Luciano Trigo, especialista em regulação da Ancine, cuja função consiste em fiscalizar as atividades do setor cinematográfico.
Vários projetos patrocinados pela Ancine já foram indicados ao Emmy. Alguns exemplos são os documentários Futebol e Seis histórias brasileiras, ambas da Conspiração Filmes Entretenimento Ltda. O Fundo Setorial, no entanto, não está envolvido diretamente com as indicações ao Emmy. “Nós buscamos criar condições para que mais e melhores produtos audiovisuais sejam feitos no País. Porém, é claro que qualquer premiação de um produto audiovisual brasileiro é motivo de comemoração”, considera Trigo.
“Apenas uma festa de mercado”
Na opinião de Vannucci, quanto mais o Brasil se inscrever e se envolver em programações e eventos, melhor. “Acho importante para a indústria televisiva. Isso significa que a TV brasileira desperta um interesse no exterior”, admite.
Rocha concorda que ganhar prêmios é bom, porém levanta um questionamento. “Até que ponto isso é sinônimo de qualidade? O Brasil só vai ser bom se ganhar um Emmy?”, questiona. Ele mesmo responde: “É interessante ganhar, mais não é fundamental. Não é só assim que a produção brasileira vai ser considerada bem sucedida”.
Vannucci lembra que questões mercadológicas podem estar envolvidas no processo. “Não podemos ser ingênuos de que não existam interesses relacionados ao mercado”, alerta. Rocha acrescenta: “É apenas uma festa de mercado. Não expressa necessariamente qualidade. Pode até potencializar as vendas, porém, de qualquer forma é mais uma questão de vaidade”, enfatiza.


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