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Mau humor

Anita Leite

O cenário lembra as histórias em quadrinhos dos anos 80. Os apresentadores não possuem boa dicção, boa entonação, nem mesmo boa aparência.  As assistentes de palco desfilam quase sem roupa enquanto os quadros e reportagens cometem excessos no humor negro.

O Pânico, programa que surgiu no rádio Jovem Pan FM com personagens dublados, hoje é também veiculado na televisão pela Rede TV!. O programa manteve as mesmas características do programa do rádio, mas com as facetas singulares da televisão: Apelo visual aliado a pouco conteúdo.

O Pânico na TV é assistido principalmente pelo público jovem que também dá audiência às entrevistas no rádio. Esse mesmo público participa das gravações no estúdio e aplaude com entusiasmo a falta de bom senso dos apresentadores.

Falta auto-crítica

O programasatiriza a própria mídia que o veicula. Como crítica de mídia, trata com humor as gafes dos famosos, bem como seu sucesso. E, é justamente da certeza do sucesso, que tiram as principais vítimas do sarcasmo. Artistas famosos, comumente elogiados pela crítica e pelos espectadores, são metralhados com uma incômoda insistência de participação nas brincadeiras e entrevistas do Pânico.

Mas é exatamente na tentativa de que o artista aceite a abordagem que acontece toda a palhaçada. Desde gel na cabeça do entrevistado até a troca do microfone por uma banana, o humor vai do surreal ao chulo.

O ator Wagner Moura foi uma das “vítimas” desse humor de baixo calão. Recentemente, o ator publicou uma carta de  protesto no jornal O Globo. A carta, nem de longe lembra a maneira como Moura foi tratado. Sem citar nomes ou palavras ofensivas, Wagner Moura chama os artistas em geral a valorizarem o próprio trabalho produzindo material televisivo de qualidade. 

Em solidariedade ao colega, os artistas “globais” teriam decidido não dar entrevistas ou maiores atenções aos repórteres do Pânico na TV. Emílio Surita, apresentador do programa, afirma não saber do “boicote” ao Pânico.

Nem mesmo a publicidade escapa do que se pode chamar de linha editorial. O merchandising acontece durante o programaatravés de brincadeiras que mantém o conceito de comédia pastelão.

"Mau humor" brasileiro

Mas o que mais incomoda é o mesmo que faz do Pânico campeão de audiência entre os programas de humor nacionais: O apelo sexual que envolve cada quadro, cada comentário, cada piada no programa.

O sucesso do programa reflete o gosto (ou diria, mau gosto) do público nacional. Em geral, acostumado com jornalismo de segunda e ficção de primeira, o telespectador brasileiro faz poucas exigências quanto ao conteúdo dos programas que assiste.

A forte sensualidade faz parte da cultura brasileira, faz parte do brasileiro. Por isso, os programas de humor brasileiros fazem do sexo sua piada principal.

Quem busca dar gargalhadas em frente a televisão, juntamente com a família precisa procurar muito e, na maioria das vezes, nada encontrar. Fica difícil comparar ou inovar ao criticar programas como esse. A repetição e a redundância tornam o humor fraco e irritante.

Em “pânico”, fica quem assiste!