ABJ Notícias    |    TV ABJ    |    O Parcial
  home |
Pão e circo
 
Decidi. Serei brevíssima em meus comentários. Esta determinação não se baseia na ausência de questões correspondentes aos apartes desta coluna. Ao contrário, sinto que devo explorar os inúmeros detalhes observados sob uma só bandeira. A da coerência. Não me deterei em pormenores, ninharias. Tudo isso, creio, é resultado da malograda falta de coerência.

Terminada minha leitura dos textos desta edição, ficou-me uma terrível sensação de confusão, desconexão de pensamentos. Não que houvessem textos horrivelmente escritos, ou constatações grotescas, nada disso. Apenas uma completa falta de coesão de temas, idéias, abordagens. Um assunto que poderia agregar muito conhecimento e abrir a mente para certos horizontes, acabou redundando em absoluta dispersão.

Li sobre semiótica das cores, religiões orientais, mitos indígenas, imparcialidade no jornalismo, origens do pensamento místico, um tanto sobre futebol e até sobre nescau (essa parte foi engraçada). Jamais discordaria que todos estes assuntos podem ser facilmente relacionados, (até mesmo o nescau), tendo o futebol, (ou o esporte num contexto mais amplo), como força amálgama. No entanto, foi exatamente aí, na hora de entrelaçar as idéias, que a “vaca foi pro brejo”. Constatei alguns pontos que colaboraram para este equívoco e vou explaná-los abaixo.

- Primeiro. É preciso entender a pauta proposta em toda sua profundidade. Neste caso, suponho, o assunto deveria caber dentro da esfera esporte/misticismo. Alguns divagaram em aspectos até relevantes, admito, mas diversos ao universo sugerido.

- Segundo. Entendido o tema que se deve explorar é necessário delimitar o que se deseja dizer do todo. Não se pode escrever um bom texto tentando falar de tudo ao mesmo tempo. Escolher o que mais interessa, o que melhor se encaixa com a opinião que se tem, é imprescindível.  Sustentar argumentos seletos, fundamentados, empresta credibilidade à opinião e clareza à escrita.

- Terceiro. Por fim, levados em consideração os pontos acima, passa-se para a parte da pesquisa exaustiva e o cuidado com a elaboração do raciocínio (para não cair no blábláblá). Como se diz por aí: “falar pouco, mas falar bonito”! Prezem a objetividade, busquem a fundamentação. Evoluímos muito nestes pontos, garanto.

Parabenizo, pela boa escrita, os textos “Jogo místico”, “Movido pela fé”, “Zênite e Nescau”, “O que aconteceria se o futebol se concretizasse com religião nacional?”. Achei as perguntas da entrevista (“A vitória é dos santos”), muito bem elaboradas.

Agora, sobre futebol e misticismo, sobre brasileiros e crendices, tenho opinião claríssima. Essa profunda devoção, respeito, fé, apego, toda crendice popular, é resultado único da necessidade de se colocar a esperança naquilo que é possível entender. À mercê de vontades alheias, essa fatia do povo teve o pensamento acorrentado à ignorância durante séculos. Não é surpresa nenhuma perceber que, para estes, lutar pelo sagrado futebol é mais fácil, custa menos que procurar compreender os complexos mecanismos da mudança social (Por incrível que pareça, o instinto os previne que entender não significa, nunca significou, realizar, mudar). 

Para mim, nada se transforma, tudo se reformula. Vejam bem, se contentar em viver simplesmente com a “ajudinha” de custo do governo, gastar os parcos centavos na tentativa desesperada de gritar “Timão” no estádio, parcelar a TV de plasma em 58 vezes só pra assistir novela e futebol, votar 325 vezes no mesmo bufão para garantir 150,00 reais, é resultado de um programa popular avançadíssimo: Pão e circo. Velha política conhecida e administrada graciosamente, (num passado pouco distante), por figurões ingleses, franceses, russos, argentinos... Também aplicada (mais recentemente e, por suposto, não graciosamente), por figurinhas interessantes. Fidel/Raul, Chávez, Morales, Lula...


Andréia Moura
ombudsman@unasp.edu.br